sexta-feira, 1 de março de 2019

PROPAGANDA

Por exemplo, o Pai Natal é evidentemente propaganda comunista: veste-se de encarnado, é a cara chapada do Marx e ocupa-se a responder aos desejos de toda a pequenada distribuindo gratuitamente bens materiais de uma forma que qualquer pessoa consciente percebe ser física e realisticamente impossível. Comunistas, no fundo, são adultos que ainda continuam teimosamente a querer acreditar no Pai Natal - e com todo um ódio dentro de si por interior e secretamente reconhecerem o logro com o qual os seus pais, e a sociedade em geral, os ludibriaram.

19%

No dia em que o Dr. Rio abre mais uma vez a porta a um entendimento pós-eleitoral com o PS - a porta, imagina-se, de tantas vezes aberta já estará desengonçadamente escancarada - logo aparece o Dr. Costa a dizer que a coligação à esquerda é para manter. Havia dúvidas? O único mérito das declarações do Dr. Rio será desvalorizar a posição negocial do BE - coisa que, naturalmente, o Dr. Costa agradece - ao mesmo tempo que diminui a sua - sua, do PSD, entenda-se. Nos entretantos, à direita, CDS, Santaliança Lopes, Iniciativa Liberal e Chega acotovelam-se para gritar mais alto e a quem os ouvir sobre quem mais se opõe ao Dr. Costa. Hoje, em Portugal, a dúvida à direita será maioritariamente sobre em qual destes partidos votar. A última sondagem apresentava 19% de intenções de voto directas no PSD e 15% de indecisos. Acham que esses indecisos estão onde? Eu respondo: será em grande medida o eleitorado do PSD que farto, fartinho, das declarações de amor do Dr. Rio ao Dr. Costa agora pondera em que alternativa à direita votar. A verdade é que entre a notoriedade do Dr. Santana Lopes, o eficaz comando da oposição na Assembleia da República da Dra. Cristas, a inteligência e boa comunicação da Iniciativa Liberal e a oportunidade do conservadorismo popular do Doutor Ventura, posso estar a ver isto mal, mas continuando por este caminho 19% é bem capaz de ser demais.

PROCURA-SE CANDIDATO

Ainda a propósito do Prof. Marcelo, parece-me que o CDS cometeu um erro estratégico ao apoiar desde já uma recandidatura do Prof. Marcelo: a sério que não há espaço à direita para uma candidatura alternativa, uma candidatura credível e que motive o eleitorado defraudado com o Big Show Marselfie? E, mesmo não sendo ganhador, não será esse espaço mais abrangente que os 8-10% tradicionais do CDS? Aliás, não seria até mais uma oportunidade de ir buscar eleitorado do PSD e segurar algum que possa cair para o Chega ou outros novos projectos à direita? Eu diria que sim, que há esse espaço, acrescento que faço parte dele, e espero sinceramente que apareça essa candidatura. Em não aparecendo, e não estou a brincar, sobra-me o Tino ou o Candidato Vieira. Em branco não voto para não ser racista.

MARCELO, O HIPERACTIVO

Depois da prestação no Bairro Jamaica tenho uma nova teoria sobre o Prof. Marcelo: não, não é maquiavélico. Não, não está a ser mais esquerda que a esquerda. Não, não é um génio da táctica e um mestre da técnica política. Não. Chama-se Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade e cerca de 4% da população padece da condição. O TDAH é uma condição grave que se caracteriza por um padrão crónico de desatenção, hiperactividade e impulsividade, podendo afectar seriamente a qualidade de vida. Os adultos portadores de TDAH apresentam dificuldades frequentes em cumprir horários e compromissos, têm extremos impedimentos em organizar-se, ou sequer terminar uma tarefa antes de começar outra, transformando a rotina em caos. As pessoas afectadas com TDAH apresentam desvios de comportamento repentinos e dificuldade de seguir regras, tal como uma pulsão irresistível para mudanças repentinas e comportamentos imprevisíveis, não previamente planeados ou ponderados. Em suma: planeiam uma coisa, começam outra e, antes de a acabar, se é que acabam, já começaram outra por ventura antagónica à primeira. Tudo por impulso, sem controlo. Aos doentes de TDAH aconselha-se que não conduzam: estão sempre a olhar para trás ou para instrumentos, telefones p.ex., e não mantêm atenção na estrada. Não vem nos livros mas, imagino, que se desaconselhe também o desempenho de cargos de responsabilidade política. Conclusão? Não vale a pena continuar a criticar o Prof. Marcelo: ele não se controla. Aquilo é mais forte do que ele.

TELEVISÃO TUGA

Lamento, mas a televisão portuguesa só pode ser para atrasados mentais, essa é que é a triste realidade. Fomos almoçar a um restaurante português aqui em Bruxelas (uma bela Tiborna de Bacalhau e Polvo bem regado com um tinto alentejano que me consolou para o resto do dia) e, como é natural em qualquer estabelecimento português, a televisão estava ligada. Mal menor, que o bicho estava sem som. No entanto, mesmo assim, mesmo que involuntariamente, lá se acabou por ir seguindo o que lá passava. Primeiro, as “notícias”. Depois? Bola, claro. A propósito de um jogo que começa às 17h30 a missa futebolística começou logo pelas 14h00. Non stop, bola, bola, bola. Depois virá o jogo, ou seja, a verdadeira bola, e logo a seguir a “análise” que acaba por ir pela noite dentro. Finalmente, amanhã, virão os “debates” entre umas quantas tristes personalidades, todos aos berros e aos urros a babarem-se e a insultarem-se sobre os “casos” do jogo. Horas e horas desta miséria. É para atrasados mentais, é o que vos digo. Que tristeza.

DA OPRESSÃO

Durante milénios os homens olharam o céu e invejaram os pássaros que os cruzavam. Voar, pois claro, o mais antigo sonho da Humanidade. Hoje, no entanto, qualquer adolescente já nos seus vinte e tal anos ressona enquanto vai disparado pelas nuvens a mais mil metros de altitude, isto depois de reclamar durante um quarto de hora pelo facto de não haver Wi-Fi no avião. Já cá em baixo, revigorado pelo sinal agora recebido no seu IPhone, há que meter mãos à obra: logo à noite há reunião sobre os próximos passos a dar na luta heróica para mudar-se o sistema. Há que acabar com o capitalismo, pois claro. Sente-se oprimido, o desgraçado.

COMUNISTAS

Não é tanto que eu não goste de comunistas, apenas acho que são enviados de Satanás à Terra para destruir a Humanidade.

EVIDÊNCIA

Qual é a novidade em comprovar que a extrema-esquerda comunista trata dos seus em detrimento dos outros? No comunismo quem faz, quem decide e quem ganha com os negócios do Estado são sempre os líderes do partido, sempre foi assim, desde a URSS, a Cuba e à Venezuela. A única diferença é que em Portugal o PCP está tristemente condenado a ganhar uns milhões com seguros nas suas autarquias, ou com umas trocas de lâmpadas, ao invés de controlar todos os bens dos cidadãos portugueses e mandar para trabalhos forçados, ou sumariamente executar, todos os que se lhe oponham. Comunistas são comunistas, e comunistas tratam dos seus contra todos os que não são os seus. Tudo o resto é propaganda.

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Sinceramente, este posicionamento do PSD de Rui Rio apresenta-se-me como tão esdrúxulo que tenho vindo a considerar a possibilidade de não estar bem a ver o filme. Ao mesmo tempo, o processo repentino de saídas do PSD rumo a novos projectos políticos, em particular o de Santana Lopes, apesar da mise-en-scène, não deixa de me colocar bastantes dúvidas.
Voltemos ao início.
Há apenas um ano atrás, o PSD, órfão do seu último grande presidente, vive uma disputa acesa e renhida para a sua liderança. Santana Lopes perde por poucos e, em nome da unidade do partido, aceita, promove e apoia um acordo com Rio para a composição das listas nacionais do PSD. Poucos meses depois, sem qualquer conflito público que se conheça, sem aviso, sem qualquer justificação plausível, resolve sair do partido e fundar o Aliança. Isto vindo de um militante histórico do PSD acabado de concorrer para a liderança do partido e onde, considerando o seu excelente resultado (46%), bem como a fraca prestação de Rio, se antecipava que ainda seria uma peça fundamental no xadrez político do partido durante os próximos anos. Estranho, não?
Depois, toda a liderança de Rio. Conhecido pela sua frontalidade, rectidão, por cortar a direito, pela sua paixão pelas boas contas, apesar de tudo isto, Rio abdicou de frontalmente criticar a governação Costa, apresenta-se calado, pouco interventivo, não me recordo, aliás, de um único confronto com qualquer líder partidário. Mentira: a violência, frontalidade e vigor com que enfrentou Luís Montenegro foram notórias. Ou seja, Rio continua o mesmo, apenas que não o demonstra para fora do partido. Estranho, não?
Mas o enredo ainda se adensa mais. Rio assume que a vitória já em 2019 não é obrigatória. Mais: toda a sua conduta leva a generalidade dos observadores à direita a assumir que o objectivo de Rio parece passar mais por ser Vice-PM de Costa do que por apresentar uma alternativa credível a Costa. Isto vindo do homem das boas contas, que dizer de vermos agora esse mesmo homem a branquear a aldrabice contabilística de Centeno e Costa? Estranho, não?
Pior: um estratega com a experiência de Rio, um homem que se gaba de "nunca ter perdido uma eleição", atirar a toalha ao chão para ser Vice de um PM que já assumiu que quer continuar a governar com o PCP e o BE? Aliás, por que razão quereria Costa governar com um PSD que - como ocorreu em 1985 e com a agravante de ser o bloco central ainda tanto ou mais contra-natura hoje - a qualquer momento poderia mudar de liderança e terminar a coligação? Ainda para mais quando já percebeu que com a extrema-esquerda, em particular o BE, a coisa até corre sobre rodas? E Rio não vê isto? Estranho, não?
Nos entretantos, uma crise mundial espreita no horizonte e, com o final anunciado do Quantitative Easing do BCE, Portugal parece acelerar de novo para mais uma bancarrota. Não verá Rio a necessidade de apresentar uma alternativa? Enlouqueceu? Embruteceu?
Ou será que, dando algum crédito a Rio, esta leitura estará errada? Será que o jogo é outro?.
A geringonça veio mudar o panorama político português. Hoje, com a extrema-esquerda, para mal dos nossos pecados, incluída no arco da governação, para que o PSD seja governo a direita terá que eleger 116 deputados. Não o fazer resulta numa geringonça. Esta é a posição default do sistema português. Verdade seja dita que Passos Coelho provou que apresentar um programa diferenciador, honesto e credível foi capaz de derrotar Sócrates e dar uma maioria absoluta à direita. No entanto, as mazelas do período da Troika, uma comunicação social adversa e o ciclo económico altamente favorável, bem como o Quantitative Easing do BCE, permitiram a Centeno e Costa mascarar a realidade portuguesa e faz adivinhar que a probabilidade de o PSD conseguir, sozinho ou em coligação, liderar um bloco de 116 deputados será muito reduzida.
A estratégia passa, então, por afirmar o PSD como um PS 2.0, um partido que renega a austeridade ideológica de Passos Coelho (um embuste mediático, é certo, mas que pegou) um partido até disponível para governar com o PS e que se apresenta ao eleitorado com uma continuidade ideológica socialista mas que acrescenta o slogan da imagem de grande seriedade de Rio. Seja em 2019 ou, provavelmente um pouco mais tarde, aquando da chegada do Diabo, Rio conta pois conquistar o voto do centro. O problema, evidente aliás, é como não desguarnecer a direita: se o PSD corre ao centro então logo a manta destapa do outro lado e, como Lisboa demonstrou, o CDS pode aparecer como uma alternativa credível e cada vez mais representativa, quiçá colocando em causa a hegemonia do PSD nesse espaço. Aliás, a vontade do CDS é tanta que Cristas apenas descobriu que "um voto no CDS nunca viabilizará um governo PS" depois de Rio ter ocupado esse lugar. Até aí Cristas queria ultrapassar Passos pela esquerda. No entanto, agora, com o CDS virado à direita, como evitar que a perda de eleitorado de direita do PSD vá cair nos braços do concorrente directo do PSD? Ora, é aqui que a Aliança de Santana parece cair que nem ginjas: Santana não apenas impede o voto mais de direita do PSD de cair directo no CDS como, com a sua popularidade, vai buscar votos que Rio nunca iria. Ao mesmo tempo, os descontentes com Rio, mesmo os militantes do PSD, que pensassem votar CDS como despeito para com Rio vêem maior vingança ainda em votar Santana, um produto directo da "loucura esquerdista" de Rio.
Tudo somado, uma pergunta começa a fazer sentido colocar-se: e se a resposta à estranheza do comportamento de Rio e Santana passar pelo facto de a conduta de ambos ser coordenada e planificada em conjunto?
A estratégia de Rio, vista da perspectiva interna do PSD, é praticamente suicida: entre a subida do CDS, o Aliança e o Chega, há pelo menos 10% de votos desperdiçados. No entanto, se virmos esta estratégia como uma estratégia que inclua Santana e o Aliança, talvez, - e repiso o talvez - a estratégica possa vir, se não agora talvez um pouco a seguir, a revelar-se como vitoriosa.
Desta perspectiva conspirativa a saída de Santana do PSD, uma saída por ventura integrada numa estratégia mais alargada, passaria a fazer mais sentido. Do mesmo modo, também o comportamento de Rio passaria a ser mais inteligente.
Uma questão subsiste: quem foi o mandante? Rio? Santana? Ou, quiçá, o maquiavélico-mor, aquele que mais tem feito por granjear popularidade ao centro, alguém que não consegue parar quieto enredado em estratégias e planos, alguém que mal um alfinete cai na São Caetano logo trata de marcar uma audiência, mais ainda, alguém que foi presidente de Rio nos idos de 96 e comparsa de Santana na "nova esperança" contra o bloco central em 1985? Alguém que, já num segundo mandato, poderá marcar o embate para quando for oportuno? Eu avisei que era uma teoria da conspiração.
No jogo de espelhos da política portuguesa, o PS parece ser rei. No entanto, considerando a "pedronunização" esquerdista dos socialistas, talvez "os poderes que são" estejam a começar a ver a manutenção da ordem política, a par da necessidade de algumas reformas sempre impossíveis com o PCP e o BE, a apenas serem possíveis através deste novo arranjo da direita em Portugal.

SIGN HUNTER

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ESQUERDA 2.0

O grande objectivo da esquerda é que onde agora legalmente apenas existem portugueses, pessoas iguais perante a lei, no futuro passemos a ver brancos e pretos, homens e mulheres, homo e hetero, velhos e novos, e todos organizados por cor, raça, sexo, orientação sexual e idade, todos nas devidas quantidades e proporções. Ora, quem poderá garantir esta justa distribuição de quotas? O Estado, pois claro. Já que a História tratou de demonstrar que o Estado a gerir a economia apenas resulta na destruição dessa mesma economia, logo causando miséria generalizada, a esquerda 2.0 quer agora vender a ideia de que deverá ser o Estado a gerir a sociedade. O resultado, claro, será o mesmo: opressão, desgraça, miséria e destruição.

NEO-MARXISMO

A razão pela qual a esquerda e a extrema-esquerda abraçam com tanto vigor as causas ditas estruturantes e inventam uma suposta opressão identitária (sexo, orientação sexual, raça) é uma derradeira tentativa de, primeiro, escamotear o tremendo sucesso da civilização ocidental e do seu sistema capitalista de economia de mercado em retirar as pessoas da miséria. Depois, e decorrente da primeira, com cada vez menos miseráveis na sociedade, a esquerda, forçada a continuar a justificar a sua existência através de uma suposta representação dos agora cada vez menos oprimidos, teve que inventar novas formas de opressão. Hoje, na sociedade mais rica, pacífica, segura e com maior bem-estar da história da humanidade, a esquerda resigna-se a acicatar complexos e invejas, inventar opressões e desgraças, louvar ditaduras como as da Venezuela e, pior, distribuir culpas e impropérios por todos aqueles que não a apoiam.

PIRATE SPA

DIRECTAS JÁ

Sinceramente não acredito que os cinquenta por cento de militantes do PSD que votaram em Rui Rio, na sua maioria, tenham votado nesta triste, inexistente, conivente mesmo, oposição colaborante para com o maior embuste político do Portugal democrático que é a coligação PS-BE-PCP. Há, para mim, uma evidente dissonância entre o programa de candidatura de Rui Rio à liderança do PSD e a sua consubstanciação prática nesta espécie de muleta mediática do PS, uma muleta esperançada em alcançar uma vice-presidência de um hipotético, e pouco provável, futuro governo de bloco central. O PSD não é isto já desde 1985, essa é a realidade, e se é para passar a ser isto então os militantes terão que o assumir sem vergonha em eleições internas, algo que ainda não foi feito. Uma clarificação estratégica torna-se, pois, fundamental e saudável.

DUAS VIAS

No PSD há duas opções: primeiro, a via do “PSD não é um partido de direita“ que, do alto das suas reformas douradas nos cadeirões do regime ou das televisões, vive bem, e convive, ou espera conviver, sempre pelo silêncio e por uma vergonhosa ausência de oposição, com o governo do Dr. Costa. Depois, como alternativa, a opção pelo PSD reformista de sempre, um PSD que não renegue o legado de Passos Coelho, um PSD que rejeite frontal e cabalmente, sem ambiguidades, a governação embusteira do Dr. Costa e um PSD que pretenda apresentar com coragem um caminho de futuro para Portugal para lá da divida e das cativações. Quem tiver a coragem de encarnar, liderar, lançar esta segunda opção prestará um grande serviço ao partido, bem como um ainda maior a Portugal.

MARCELO, O TELEFONADOR

A característica dos dias de hoje é que por mais que se troque o sentido às coisas vai tudo dar ao mesmo: “Marcelo Rebelo de Sousa emociona-se com telefonema de Cristina Ferreira” é título tão ou mais credível como o outro, o que apareceu, tudo redondo, tudo muito lindo, tudo irrelevante. Já do outro senhor, o da foto de Pedrógão, aquele da foto que deu a volta ao mundo, aquele a quem Marcelo tudo prometeu, aquele que tudo perdeu e já morreu, esse não voltou a ver ou ouvir um telefonema do senhor presidente. Não, o Professor Marcelo salta, mergulha, cabriola, chora, troca de calções, faz chorar, afecta e afecta-se mas, curioso, é sempre à frente das câmaras, chega lá antes até, eléctrico, ávido, sedento, sempre em directo, e, depois, quando já não há TV então já não há Marcelo, já não há afectos, já não há nada. Em vez de ligar para uma multimilionária celebridade da TV à cata de votos e de popularidade teria feito melhor o Professor Marcelo em cumprir a palavra que deu ao senhor de Pedrógão, a palavra que não honrou, e uma falta tremenda da qual nem lhe ocorreu pedir perdão, e também ninguém lhe perguntou, pediu ou exigiu, nem uma alma do caldo televisivo, jornaleiro, político, se lembrou de apontar ao Sr. Presidente para a pouca vergonha que configura o seu esquecimento. No final, a choldra também é isto, uma choldra televisiva, nada afectuosa, pelo contrário, é sebosa e fedorenta, falsa que nem uma vichyssoise já apodrecida, tudo igualmente desgraçadamente desavergonhado, tudo passa, ninguém se pergunta, amanhã é outro dia e o Prof. Marcelo lá estará a lamber as lágrimas dos populares para garantir a reeleição.

OLIVEIRA SALAZAR

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A propósito de Oliveira Salazar, na biblioteca que vou construindo entre o Alentejo e Bruxelas já vou tendo um certo espaço dedicado ao antigo ditador. Desde a obrigatória biografia de Franco Nogueira até à mais recente de Filipe Ribeiro de Menezes, passando pelo ‘Como se Reergue um Estado’ até ao meu mais recente devaneio alfarrabista que consistiu na aquisição de uma primeira edição de capa dura das Edições Coimbra (1967) dos seus Discursos. Ainda não li tudo, nem pouco mais ou menos, mas volta não volta lá vou parar, continuando já desde há muito a pensar que, independentemente dos meios que veio a utilizar, Oliveira Salazar tinha, primeiro, uma raridade substanciada num pensamento muitíssimo profundo e estruturado (por ventura como nenhum outro em Portugal) sobre a absoluta necessidade da conservação dos valores que unem a comunidade e, depois, uma portugalidade extrema condensada na rejeição do ideal democrata-liberal. Não poderia estar mais em desacordo com a segunda premissa, tal como com os meios utilizados para a realização da primeira, no entanto não cesso de me espantar com o espelho que os seus escritos revelam da realidade portuguesa. Ainda hoje, talvez seja melhor dizer: especialmente hoje, compreender Oliveira Salazar é compreender o Portugal contemporâneo. Já dos surrobecos e histéricos supostamente anti-fascistas, o que de mais curioso fica é que na sua rejeição do Salazarismo acabam a personificar a exacta mesma rejeição do ideal democrata-liberal de Oliveira Salazar. O ideal liberal, temo, tardará a surgir em Portugal por uma razão muito simples: Portugal, incluindo os iluminados da extrema-esquerda, é muito mais Salazar do que outra coisa qualquer.

SINTOMÁTICO

Coisas que me irritam em Portugal? As televisões sempre ligadas nos restaurantes, tascas, cafés e cafetarias. Entramos em qualquer sítio para pequeno ou grande almoço, lanche ou jantar, com duas crianças menores de seis anos que não estão habituadas a ver televisão (um ocasional boneco animado) e logo ficam expostas a uma panóplia de videoclips proto-eróticos de manifestações sonoras de uma mediocridade atroz, explosões e assassinatos cinematográficos plenos de efeitos especiais ou, igualmente mau, às notícias e imagens das desgraças variadas da realidade portuguesa fielmente relatadas pelos jornalistas de microfone na mão. Sinceramente, não consigo compreender o que há de agradável em estar num estabelecimento gastronómico a gramar com a sarrazina da televisão; a mim, lamento, enerva-me. E ter que lembrar ao empregado que o conteúdo não é apropriado para crianças e pedir que desligue a dita ou, no mínimo, mude de canal, faz-me parecer, imagino, um extraterrestre. O normal, e isto de normal não tem nada, imagino que seja ter crianças a enfardar hipnoticamente o dia inteiro o lixo evacuado pelos canais televisivos. Sintomático.

NA NÉVOA

Cercados pela névoa, voltamo-nos para dentro de casa. Livros, música, palavras. Lá fora, um resfolegar prende-me a atenção. Abro a porta-janela para o jardim e espreito. O som recrudesce, intensificado pelo eco das montanhas. Valente, indago em voz forte: “quem vem lá“? Ninguém responde, o som cessa. Mal reentro no escritório, o resfolegar recomeça. Desta feita, vou explorar. Saio para o jardim, dou a volta à casa, subo umas escadas, desço outras, e eis que me deparo com um cavalo negro, altíssimo, mesmo defronte de mim. Em cima, a montado, uma figura disforme, esvaída em carnes mortas e putrefactas mas guardadas por uma armadura quinhentista, um pouco danificada, contudo ainda dona do seu resplandecente fulgor original. Por detrás da máscara, um gemido rouco quase imperceptível. Com esforço, consigo ouvir uma voz que me quer dizer algo. “D. Sebastião”, pergunto eu com incerteza, “é Vossa Majestade quem nos vem visitar”? O cadáver diz-me que não, que não é El-Rei D. Sebastião, mas que vem da parte dele, e que traz recado. “Ah sim? E que recado traz”, inquiro eu com curiosidade. Responde a criatura: “O Rei manda dizer que afinal já não vem”. E logo se lançou à montanha, desaparecendo na névoa de forma tão fantástica como aquela com que havia aparecido. “Olha que bom, podia ter avisado antes, ó palhaço “, ainda lhe gritei. Acho que já não ouviu. Irritado, regresso a casa resmungando entre dentes e, se me é permitido o desabafo, com razão: afinal, andamos para aqui à espera do desgraçado que desbaratou o Império e o malandro, sem se dignar a aparecer, só quase quinhentos anos depois é que manda dizer que afinal já não vem? “Bom proveito lhe façam as areias do Norte de África”, pensei. Entretanto, um choro aparece ao longe. Não vem de fora mas sim lá de cima. Vai descendo as escadas, entra pela porta envidraçada e, vejo agora, acorda-me do sono profundo em que me encontrava. Na biblioteca, com o livro já caído no chão, olho em volta e também não havia D. Sebastião: apenas o meu filho em busca do conforto paternal face à última desfeita que a vida lhe havia apresentado. Enxoto os resquícios da sonolência, endireito-me no cadeirão e devolvo-me à consciência. Tratemos, pois, da ocorrência. Na vida, só conta quem cá está.

PORTUGAL CATIVADO

A triste realidade do Portugal contemporâneo, um Portugal estatista e socialista, é que o país gasta mais de metade do seu produto interno bruto com um Estado que é extremamente competente a cobrar impostos mas também extremamente incompetente a proteger os seus cidadãos, seja nas estradas que desabam (e ninguém é responsável), seja na floresta que arde (e ninguém é responsável), seja nos hospitais que se desfazem entalados entre as direcções compostas por nomeações políticas e a falta de verba (cativada). Tudo isto mata pessoas verdadeiras, pessoas de carne e osso, portugueses, ricos e pobres, remediados e mais enrascados, todos eles contribuintes, todos pessoas de bem, todos tramados por igual por um Estado que não os merece. Ou seja, em resumo, os portugueses trabalham mais de metade do ano para uma classe de políticos e funcionários que tratam muito bem de si próprios, mas que não ligam peva a quem produz, a quem lhes paga os salários, a quem os elege. Pior: ainda conseguem atazanar, prejudicar, limitar a vida daqueles que querem trabalhar, criar, produzir. É uma sociedade arrestada, sequestrada mesmo, por uma oligarquia de interesses apostada em que nada mude: a corrupção, o compadrio, os esquemas, tudo à conta do contribuinte, do trabalhador, do empreendedor. E, depois, o moralismo: porque quem não gosta disto é um malandro, porque os funcionários públicos e o Estado são um supra-sumo de competência, porque querer reformar, limitar, diminuir, restringir, controlar o Estado é coisa de fascista. Mas fascistas são eles, esses demagogos da esquerda populista da maioria de esquerda e extrema-esquerda governamental que apregoam virtudes morais que não cumprem, que afirmam defender os pobres e oprimidos que empobrecem e oprimem, os demagogos que, sem ganharem eleições, fizeram juras de destruir o slogan da austeridade, a mesma que agora impõem através das cativações, deixando o país numa decadência triste, rumo a uma miséria amoral, cínica, onde os defensores do povo condenam esse mesmo povo aos corredores decrépitos dos serviços sociais que oferecem com uma mão mas que cativam com a outra. Aldrabões, no fim de tudo não são nada mais do que uma cambada de aldrabões.