segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

DESABAFO

 O ‘marcelcostismo’ conseguiu transformar o país naquele sketch dos Gato Fedorento com o Ricardo Araújo Pereira a fazer de Prof. Marcelo explicando a sua posição sobre o aborto. Afinal, aquilo não era sátira! Estamos, de facto, reduzidos ao absurdo. Um absurdo ridículo, é certo, mas letal. Que a oposição — qualquer uma, já nem quero saber quem — não seja capaz de apresentar uma estratégia alternativa, que ninguém exija a demissão destes governantes que mais não fizeram do que acrescentar mais miséria e mortes a uma situação já de si difícil, que não haja alternativa eleitoral credível em Janeiro à pantominice do Prof. Marcelo para além do André Ventura e da Maximiniana, tudo isto apenas revela o tal absurdo a que chegámos, bem como a correspondente falência moral e política do regime. Esta gente não tem qualquer autoridade para além da força que o Estado pode utilizar sobre as pessoas, essa é que é a verdade. Nenhuma, lamento. Verdadeiros indigentes morais, um bando de cobardolas e trafulhas políticos, reduzem a classe política portuguesa a um embaraço nacional, a uma vergonha criminosa directa e indirectamente responsável — tal e qual como em Pedrógão — pela morte e miséria de portugueses. Em Pedrogão centenas, em 2020 milhares. Como andam por aí feitos pavões de cara levantada? Como não há comentador que lhes espete uma tarte de verdades na tromba? Ou um jornalista que pergunte pelos mortos? Incrível, mas diz muito mais sobre nos enquanto povo e país do que sobre eles. Não merece mais a cambada política governante que ser enxovalhada na rua, se é que ainda têm o topete de por lá andar; e se não for assim, se nos ficarmos pela doçura do manso que vergastado nos costados resfolega mas assenta, se não dermos coices e mostrarmos que não estamos para isto, lamento mas não nos safamos. E quem votar nisto, desde os partidos que viabilizam o governo até ao invólucro humano que se faz passar por presidente da república, é cúmplice. Lamento muito pelo país, mas as coisas são o que são. Nenhuma pessoa de bem pode continuar a olhar para esta verdadeira palhaçada e encolher os ombros: há pessoas a cair na miséria, outras a morrer, por causa da tragédia em que estes irresponsáveis nos enfiaram.

A GUERRA E A PRISÃO

 No tempo em que era criança, vai para mais de trinta anos, havia duas ou três experiências de vida que me pareciam de tal modo transformadoras que, considerando a minha natureza obcecada com soluções para problemas, imaginava exigirem planos especiais de acção e contenção. A saber, a prisão e a guerra. 

A vida, lá fora, mesmo por debaixo de uma ténue, mas existente, possibilidade de armagedão atómico, afigurava-se como rotineira e banal. As pessoas, as adultas, perceba-se, andavam por aí, trabalhavam, tinham filhos, conduziam, corriam, comiam, enfim, entretinham-se numa pasmada calmaria que, inconscientemente, garantia a segurança que todos sempre damos por adquirido em tempos de prosperidade e paz.

Mas não na prisão ou na guerra. Aí, nesses cenários extremos, a morte espreita ao virar de cada esquina, ao dobrar de cada minuto, por vezes um célere segundo, restando um finíssimo e violento limbo como condição existencial. 

Levando na devida e ponderada atenção a elevada dosagem que desde a meia dúzia de anos me entrou pelos olhos de ’A Fúria do Herói’, filme que revia com afinco religioso todos os dias mal chegava a casa, o estado de guerra oferecia, naturalmente, exaltação infantil consubstanciada em promessa de glória imaginária — mas não esquecendo a devida correspondência ao perigo e à séria possibilidade de precoce, e doloroso, padecimento.

Já no presídio, onde, como qualquer filme policial poderá atestar, apesar de vida honrada praticada até o mais puro e inocente incauto lá poderá ir — injustamente, é certo — assentar arraial, o perigo será, por um lado, mais latente, mas também mais insidioso: facas amadoras, canetas infectas, seringas virulentas, rixas violentas, guardas abusadores, e tudo sem glória, sem propósito, sem valor. Daí saiu a ideia, apropriada, que na prisão, ao contrário da guerra, o herói é aquele que consegue fugir dela.

Tirando, pois, os acidentes de percurso e a bem percebida necessidade de uma fortuna abençoada que nos permita a periclitante travessia do abismo da inexistência com fôlego e vigor, à feliz criançada do quartel final do Século e início do Milénio, apostar numa vida atinada que nos livrasse de qualquer cadeia para além da do Monopólio, bem como um avisado atestado, ou canudo, que ofereça salvo conduto a um hipotético conflito armado, o problema então residia mais em buscas de sentidos e significados filosóficos do que na necessidade prática, mesmo que entrevista, de resolução improvisada de problemas de sobrevivência imediata — tais como aqueles que o presídio e o campo de batalha prometiam nos idos de 80.

E assim foi. 

Tenho dado por mim, no entanto, passados os tais trinta anos, com esta pequena, insignificante, mas perturbante, recordação de uma tarde de fim de semana, na sala da casa onde cresci, na encosta da Serra de Sintra sobre as escarpas do Mar do Guincho, em que solitariamente matutava nos perigos da peleja militar e do cárcere civil. Ali, perto do local onde a terra acaba e mar começa — está lá escrito, numa placa — contemplando o infinito horizonte curvado algures a meio do Atlântico, de olhos postos em distantes atletas que surfavam as ondas e os ventos armados de prancha e vela, a mente preocupava-se, apenas por procuração, com aqueles hipotéticos.

E congeminava estratégias militares e solitárias: como me safaria eu se me visse em tais circunstâncias? Não recordo, é certo, a estratégia visada, nem consigo do outro lado do tempo aferir do acerto ou atino dos propósitos. Mas, assalta-me agora essa recordação por razões insondáveis que farão tais pensamentos, através dos neurónios da memória, aflorar de forma reiterada o plano da consciência — o assunto merece reflexão, bem como explicação. 

A linearidade simplista e afoita com a qual imaginamos o mundo e a vida fazem-nos crer que experimentamos a cada dia coisas novas. Ora, eu desconfio da teoria. Em boa verdade, experimentando nós o mundo através da sensação, sensação que se sente através da emoção, conclui-se com facilidade que em sendo nós onde estamos, e estando nós, não no mundo físico mas no mundo emocional, aquele onde de facto experimentamos a vida, não passarão da dezena os “sítios” por onde verdadeiramente andamos: a raiva, o medo, o amor, o desejo e outros que tal. São poucos os estados, de facto, e sempre os mesmos. 

No carrossel da vida, de trela apertada ao poste da providência, circulamos por esses poucos sítios, sentindo o mesmo, vivendo o mesmo, sempre em repetição alternada, ora um, ora outro, mudando apenas o cenário, as razões das emoções, as causas que imaginamos viver, mas que não sentimos, porque o que sentimos são as emoções — sempre, quase sempre, as mesmas, e daí variando com a intensidade e a ocorrência o seu valor. 

Assim se faz luz, e a candeia fosca da consciência ilumina o pensamento, percebendo-se o porquê de tais recordações: no carrossel, nunca estive eu mais próximo de sentir a necessidade para planear a fuga do carcel que agora desce sobre nós, ou a defesa da família da crescente ameaça que se vislumbra — isto desde as ilusões e os devaneios imaginados pela criança que em tempos fui.

E de tanta imaginação, nunca me ocorreu que o mundo em que edificaria a minha vida haveria de oscilar e abanar, desfazer-se e ameaçar engolir-nos com ele. O abismo, negro, sem fim, agiganta-se na volta do carrossel: e mesmo que tudo o que se é, ou está, já se tenha sido, ou estado, o apuro da circunstância actual força ao improviso, à (re)acção e à estratégia. E assim se alcança a solução do mistério: afinal, tudo o que os confins da memória pretendem é avisar-me do que vem aí.

RUMO AO VAZIO

 Das coisas mais curiosas e reveladoras face ao status quo são aqueles iluminados que se imaginam imensamente rebeldes a papaguear o que vêem na TV, a mando das grandes corporações, sempre a repetir o que a maioria que os rodeia diz. Rebeldes por imitação, sem que se apercebam da contradição, são estes os novos “rebeldes” que fazem o que lhes mandam fazer — no caso, a revolução. Rebeldes contra o sistema, revolucionários de iPhone na mão e All Stars nos pés, patrocinados pelas marcas que anunciam vestindo-as, as mesmas marcas — corporações gigantes — que ganham dinheiro a vender tecnologia propositadamente desenhada para rapidamente ficar obsoleta — poluindo e desperdiçando recursos naturais, portanto — e produzida através da exploração impiedosa do suor e da miséria de milhões e milhões de desgraçados que a “lotaria natural” condenou a nascer e morrer afogados no totalitarismo chinês. Tudo nestes “rebeldes” nao passa de uma triste contradição: gritam pelos direitos LGBT, mas envergam as camisolas com a tromba estampada do Che Guevara que fuzilou homossexuais; clamam pela igualdade racial, mas não aceitam que um negro, só por ser negro, possa apoiar o Donald Trump; são pelos direitos das mulheres, mas ai das mulheres que acreditem que a maternidade é aquilo que têm como mais importante e que lhes oferece sentido na vida; são pela tolerância, mas apenas aceitam quem pense como eles; são pela democracia, mas são incapazes de aceitar os resultados quando não ganha quem eles apoiem; acreditam que se um homem afirma que é uma mulher que nasceu no corpo errado então é uma “mulher verdadeira”, mas que todos os outros homens que prezam a sua masculinidade e aceitam o seu corpo já são produto de uma construção social heteropatriarcal; são pela liberdade, mas querem controlar o que eu e tu dizemos. Rebeldes? Claro que não. Não passam de uma contradição ambulante e com batimento cardíaco: pobres ignorantes, indigentes mentais, “idiotas úteis” manobrados pelos donos do mundo, joguetes dos novos tiranos, carne para canhão na guerra cultural, económica e política que os poderosos lançaram às bases do Ocidente com o intuito de o domar, controlar, vergar à sua vontade e aos seus interesses. Que esses idiotas, os pseudo-rebeldes, representem hoje uma significativa parte que se arrasta pelas universidades ocidentais apenas atesta o sucesso de quem neles manda. Bem como o nível da nossa decadência: andamos há décadas a educar estes idiotas, cobardes e ignorantes, egotistas mimados que mais não fazem do que cuspir no prato que se lhes ofereceu e morder na mão que os alimentou. A ingratidão é o seu pecado, é certo, mas o nosso também: afinal são eles apenas o subproduto do buraco negro moral e intelectual que nos engole enquanto sociedade rumo ao vazio.

A BARBA

 Faço a barba ao final de uns anos e, com alguma surpresa, no espelho, em fogachos, reencontro o meu Pai.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

 Ao contrário dos “liberais”, que com o seu optimismo se contentaram com a crença numa pseudo-neutralidade moral que não significou mais do que um vazio, os inimigos da sociedade aberta perceberam bem que o sonho do ‘admirável mundo novo’ requeria uma nova e, para eles, não menos admirável interpretação moral do mundo. Ela aí está agora em todo o seu esplendor: o materialismo igualitário, em tudo vertido, desde a economia até às mais íntimas componentes dos indivíduos — raça, género, questões sexuais e de costumes — e traduzido em noções de “justiça social”; a redução da felicidade ao efémero e à emoção imediata, com o direito à não-ofensa consagrado no triunfo do politicamente correcto; a amputação da dimensão espiritual, decorrente do materialismo, e transposta para o ecumenismo relativista com que se encolhe os ombros perante a barbárie, quer a dos outros, que se desculpa com indiferença paternalista, quer a nossa que agora se abraça como “avanço civilizacional”: eutanásia, aborto (por enquanto ainda apenas) já defendido até ao nascimento, a mutilação química e anatómica de menores a coberto da ideologia de género, etc.. Em poucos anos a nova moral triunfa, vendida como progresso, propalada pelos jornais e TV, servindo os interesses da classe dirigente: ataca a família, individualiza cada vez mais, divide até os próprios indivíduos nas suas partes, sobre as quais o jugo moral e julgador do colectivo bem mandado se debruça com vigor e sem remorso — tudo dividir para em tudo reinar. Os “liberais” imaginaram um mundo sem morais, apenas regido pela razão e no interesse próprio, mas esqueceram-se, porque na hubris de se imaginarem conhecedores da verdade, que sem moral não há razão — esta, vazia de conteúdo, apenas reflecte os princípios, crenças e valores dos homens. Do vazio, nasce agora a nova moral que se impõe. E dos escombros do mundo em que nascemos ergue-se enfim o admirável mundo novo. Infelizmente, de admirável não tem nada, e de novo ainda menos: o jugo dos poderosos sobre a multidão pela força do chicote é tão antigo quanto a Humanidade. Restamos nós, os órfãos do mundo antigo, aquele em que nascemos, que conhecemos, e que não teremos lugar nesse paraíso anunciado — o inferno realizado. Até onde irá a fúria dos novos censores? Até onde irá a destruição da diferença, a proibição da dissensão, a imposição da nova normalização? Perguntas que não apoquentam os entusiastas da nova Revolução, nem os idiotas úteis que não enxergam o mundo em que vivem, mas que tiram o sono aos outros, os que de bom grado — em nos deixando — ficarão para trás dessa terrífica marcha progressista. Em nos deixando, repito.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

O INTERRUPTOR

 Talvez vos tenha passado despercebido na torrente mediática dos dias de hoje, mas há dois dias atrás foi descoberto este pequeno pormenor metálico no deserto do Utah, nos Estados Unidos da América. Não se sabendo o que será, imediatas ilações foram tiradas em como o aparecimento se aparenta com o monolítico que Kubrick retratou no seu 2001. Não será 2001, mas 2020, o ano terrível que anuncia o fim do mundo como o conhecemos. Por detrás das máscaras, o monolítico aparece como um sinal, já de quê sabemos lá nós, mas que lá está, em não sendo “deep fake news” (o “next step”), lá está. Sobre o significado, sempre o significado!, a doutrina diverge: será um “hoax”, um artefacto alienígena, uma prova da superioridade tecnológica do passado, um transmissor de “fake news” russas, enfim, de tudo um pouco se fala. Não vi referida ainda a possibilidade de ser o monolítico uma nova forma de vida ali plantada há milhares de anos e que apenas floresce agora, não sei porquê, mas daria crédito à ideia. No entanto, adianto-me: a coisa será, porventura, um interruptor. Nos dias do fim, Deus, afinal presente e agora desgostoso, ali colocou o dito interruptor para que seja accionado. Para que fim? Ora, para ele próprio: o Fim. Daqui por poucos meses, depois de garantido triunfo dos senhores do mundo sobre a populaça, quando estivermos todos devidamente certificados, carimbados, marcados, como no Livro, para que apenas dessa marca — a da Besta — possamos comprar e vender, então estará cumprido o desígnio, o final aristotélico para o qual, sem que o soubéssemos, sempre caminhámos. Alguém, quiçá um discípulo federal de Biden, em esfregando o monolítico na ânsia da compreensão, mas por acidente, accionará o interruptor. E pronto. Fim de simulação. Reboot. E tudo o que um dia julgámos importante desaparecerá numa fina radiação atómica que, em tudo desintegrando, nos misturará — enfim o supremo sonho colectivista cumprido! — com a poeira cósmica que somos, fomos, e seremos. Por fim, a paz.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

DOS FILHOS

Os filhos vêm ao mundo, é certo e sabido, para nos substituir. Não bastando a afronta existencial, a de educarmos o sucessor, nos entretantos, entre guinchos, riscos e traulitadas, não descansam os vândalos enquanto não nos destroem as tralhas que, com esmeros e cuidados, vamos tentando guardar — para eles. E é maravilhoso.

CORTINA DE FUMO

A verdade para o comum dos mortais será escrita e imposta pelos senhores que comandam a realidade cibernética. Da Wikipédia ao Facebook, do Twitter ao YouTube, da Google às revistas e jornais, para não falar nas TV, tudo se confunde agora num espesso véu que se impõe sobre nós e nos oferece a nova norma. Leo Strauss já falava há décadas da cortina de fumo mediática que distorcia a realidade, mas agora o fumo enegreceu e engrossou: irrespirável, nos ecrãs do admirável mundo novo ardem os despojos incendiados da liberdade ocidental. A verdade inconveniente é que todas essas plataformas têm donos que nos vendem a verdade — a deles, naturalmente — e apesar de falarem em uníssono devemos relembrar que a unanimidade não garante verdade, muito pelo contrário. A neutralidade, a virtude, a honestidade, tudo se verga hoje perante o poder da ideologia que apregoando liberdade, honestidade e virtude trata de impor, mentir e perverter. Uma tristeza. Lá ao fundo, já se ouvem as tropas perversas que, de passo marcado, marcham a toda a velocidade na nossa direcção. E, se escutarmos bem, por debaixo delas, o estalar dos ossos daqueles que lhes resistiram. Ainda assim, estarão melhor esses do que aqueloutros que como Winston acabarão vergados em lágrimas a amar o Grande Irmão.

O CHICOTE

As instituições que nos habituámos a ter em conta como alicerces da nossa vida comum estão corrompidas. Esta é a triste realidade. Pelo dinheiro, pelo interesse particular, pelo poder de controlar - o estado, os media, as universidades, os centros de investigação. Tudo. O problema, contrariamente à narrrativa que aqueles que as corrompem diariamente nos vendem, não é o capitalismo. Capitalismo, o verdadeiro, poderia ser traduzido por um conceito de “democracia económica”: todos votamos com a carteira no que queremos, ou precisamos, consumir. Nada a apontar, muito pelo contrário. A liberdade de escolher é uma dimensão da liberdade individual, sem ela não somos livres. Ponto. O problema é que o capitalismo, apesar de apresentar maior resistência do que o socialismo, não é de todo imune ao cancro da corrupção moral de uma sociedade. Onde a mentira, o egoísmo, o mando de uns pelos outros, o desnorte materialista e a ambição tola de tudo querer controlar imperam, não há sistema que resista ao canto dos controleiros de serviço. No entanto, uma sociedade corrupta é gerida por corruptos, seja de que forma ou por que sistema for. Daí que a peleja de uns e de outros em discutirem se o estado deve acabar aqui ou ali não resolve nada além do nível de interferência do comissário político na vida de cada um de nós. Na dúvida, que não venha o comissário, é isto que deveria ser evidente. Mas não é. O povoléu olha para a corrupção e imagina que mais poder central a resolve. Mas não se iludam: se quem manda no poder central é o corrupto - pagando e elegendo quem de direito - então o poder central apenas ecoa a voz do dono e torna leis as vontades dos poderosos - por mais corruptas e imorais que sejam. Aqui reside a vantagem inequívoca do livre mercado e do capitalismo: fôssemos todos capitalistas e não haveria voz do dono. No entanto, onde a informação é vendida ao quilo por quem manda no sistema, toldam-se as vontades ao mando e, seja o sistema “capitalista” ou o socialista, à medida que o tempo passa, a diferença é apenas uma: no primeiro, o condicionamento é o marketing mentiroso que vende a narrativa dos chefes; no segundo, é mesmo o chicote que comanda a vida ao ritmo de quem manda. Assim também se vê a vantagem do capitalismo liberal: ao marketing mentiroso basta desligar a TV, o jornal e a rádio; já ao chicote não há fuga possível. Isto deveria ser igualmente evidente. Mas a ideia não passa. Pelo contrário, se repararmos bem, o processo em curso nas democracias liberais ocidentais é o oposto: todo o marketing dos donos dos sistema - entretanto ecoado na academia, nos media, nos organismos estatais que compraram - apela ao mando, ao centralismo, ao anti-capitalismo, ao estado e à regulação. Porquê? Porque o que os chefes querem é controlo: e para isso precisam que troquemos a nossa pequena liberdade possível e insegura pela segurança estatal - sempre impossível - que nos garantem que o chicote sobre o vizinho corrupto trará. Mas o vizinho do vizinho és tu e eu. E, corruptos por corruptos, antes aqueles que eu posso desligar com um simples premir de um botão. No socialismo, o carrasco estatal não desaparece com o premir de um botão: entra-te pela casa dentro às tantas da madrugada. Resistência, portanto. E a verdadeira rebeldia é relembrar que a luta do bem contra o mal se trava no coração de todos os homens. Não há comissário político que seja melhor ou mais puro que eu e tu. A revolta é então a liberdade, o maior bem de todos, mesmo numa sociedade corrompida nos seus alicerces. O estado nunca resolve a corrupção, apenas a corrompe mais ainda pela violência. A única coisa que “descorrompe” a sociedade és tu e eu: que o bem e a virtude triunfem em nós e que as botas e os chicotes dos senhores controleiros não nos impeçam de sermos os fiéis intérpretes e defensores da liberdade humana.

CIVILIZAÇÃO

Uma comunidade pode justamente chamar-se civilizada quando o respeito, o civismo e a cordialidade social está de tal forma enraizada nos seus membros que tais comportamentos sejam tidos como naturais. A ideia de regular comportamentos, bem como de doutrinar conduta social através do estado, apenas revela uma necessidade, seja ela real ou imaginada, de impor comportamentos que não estão embutidos de forma natural e espontânea nos espíritos dos cidadãos. Se estivessem não haveria necessidade da regulamentação. Assim sendo, quanto mais um estado sente a necessidade de regular, controlar, regulamentar, então das duas uma: ou a essa necessidade é real e atesta o grau de incivilidade da comunidade ou, em alternativa, é uma necessidade inventada que demonstra um crescente divórcio entre a naturalidade dos comportamentos e a artificialidade das leis que se querem impor para os limitar. Agora, aquilo que por definição um estado ultra regulador nunca pode representar, ao contrário do que a esquerda sempre pretende afirmar a cada vez que passa uma norma moral, ou um regulamento tido como essencial, é que é o pináculo da civilização. Não é, muito pelo contrário: a suposta necessidade de ultra regular apenas atesta a falência moral ou do estado ou da sociedade.

OS DONOS DISTO TUDO

o mundo pós-verdade, não há “notícias”, há narrativas. Há estórias, não há História. E as narrativas respondem à voz dos seus donos, os que verdadeiramente mandam, o grande poder-capital: nos jornais, nos políticos, em nós. Quanto mais poderoso o dono, mais poderosa a narrativa, mais veiculada ela é - e mais passível de ser percepcionada como “verdade” ela se torna. A grande narrativa na qual todos os donos do poder-capital concordam é que vivemos no livre mercado, que a culpa dos males do mundo é do excesso de liberdade nesse mercado e que há uma verdade inquestionável nessa concórdia que nos é apresentada. A par, vendem lutas e causas, todas elas meritórias, verdadeiras, morais, inquestionáveis, com que os jornais e TV ocupam a natural vontade humana do diz que disse. Mas o que nos apresentam no rol diário tende a ser uma coisa num dia e o oposto no dia seguinte (e.g. as máscaras do COVID), tudo e o seu contrário, apenas permanecendo uma notável coerência num enorme conjunto de heróis e beneméritos nacionais e internacionais, bem como de terríveis malandros devidamente por todos vilipendiados por igual. Há os bons e há os maus. Não há debate por que razões uns são isto e outros aquilo, apenas há insultos e condenações, não há respeito, mas há estatuto. Dado por quem? Por quem vende as narrativas, claro. Essa concórdia numa narrativa mínima comum, atenção, não faz dessa narrativa verdade. Apenas revela o compromisso entre os diferentes interesses de quem manda. E desse mando sai um consenso: ao povoléu cabe aceitar a regulação da nossa vida até ao mais ínfimo pormenor em nome do interesse comum - ao tal denominador mínimo comum narrativo - que resulta sempre num mesmo momento: eles a dividirem lucros, financiamentos, bail outs, linhas de crédito, e nós despesas. Uma coisa é indiscutível em tempos de pós-verdade: se pagas anualmente entre IRS, IVA, IMI e demais taxas e taxinhas mais de metade do que ganhas nesse ano, e esses são a maior parte, então isso significa que mais de metade do ano trabalhas para os senhores que mandam no estado, os políticos. E, por consequência lógica, trabalhas para quem lhes paga as campanhas e garante as eleições - e recebe os favorecimentos. Trabalhas para eles, portanto. Para os chefes do poder-capital. E todas as narrativas pagas por eles te vendem duas coisas: primeiro, que há que pagar mais; depois, que há que ter o estado a regular mais e mais para, dizem eles, garantir a moral e a igualdade nos mercados. Mas, pelo contrário, apenas pretendem esses donos do poder garantir que quem quer que queira fazer o quer que seja o faça de acordo com as regras que dão jeito a quem manda. E assim se mantém o status quo: porque se queres concorrer, então vais concorrer contra quem já está poderosamente estabelecido no “livre” mercado, mas, atenção, enfrentando ainda as regras que os que lá chegaram antes de ti inventaram para te impedir de lá chegar. Qual mercado livre? Os donos do mercado e o estado mataram o mercado, sobra agora apenas a vontade do comissário político e de quem o faz abrir e fechar a boca, seja por estupida ideologia, seja pela trela pecuniária que orgulhosamente exibe na lapela. Já repararam que os bilionários do mundo apoiam e financiam reiterada e teimosamente os beneméritos ultra reguladores da esquerda estatista? Curioso. Mas todas as narrativas concordam: há que legislar, garantir, impedir a mudança, que é má porque custa empregos, e apostar em legislação, garantias e subsídios que garantam a mudança, a outra, a que eles querem, porque é boa, porque gera empregos. Tudo e o seu contrário; hoje uma coisa, amanhã outra. Assim é a verdade no mundo em que os poderosos mandam e os outros vivem como podem, quiçá por entre aplausos dos jornalistas, à espera da esmola do mesmo estado que os condenou à pobreza.

INFANTILIDADE

Mais que os valores ou os conceitos que se repetem ou declamam como dogmas formais sobre os quais não se reflecte, logo sem nunca perceber ou alcançar o que verdadeiramente significam, o percurso moral oferecido pelo velho mundo, ênfase no percurso, representava um caminho da adolescência para uma maturidade que conseguia descortinar o mundo com um módico de realismo. A abundância das últimas décadas, ao retirar a dificuldade da vida prática a uma grande maioria, em particular jovens - e é a dificuldade, atente-se que obriga à aprendizagem, trial and error, lembremos -, aliado à ausência súbita de necessidade de percurso moral que o facilitismo secular do espaço seguro promove, conseguiu gerar uma enorme falange de pessoas que nunca passam da adolescência: consideram-se o centro do mundo e sonham sempre com soluções simples que, do seu mundo infantil, arrogantemente acenam como sendo a garantia de ter o sol na eira e a chuva no nabal - uma impossibilidade, portanto. Infelizmente, apenas a dura realidade do mundo poderá forçar a um crescimento que renegue a quimera estúpida do paraíso agora prometido na terra. A tragédia, o caos, a dificuldade. Será muito difícil evitá-la, tão difícil quanto crer que crianças serão capazes de resolver os males do mundo. Não serão, nem adultos, quanto mais crianças mimadas. A única esperança é que do facto de os infantes, mesmo que dotados de maioridade, do Século XXI apoquentarem-se com tão pouco talvez baste uma pequena tragédia para acordar a turba para a realidade. Mas também isto é, obviamente, um sonho. O presente momento não parece confirmar a hipótese: pelo contrário, vive-se entre a negação e o pânico, tudo típico nas crianças, enquanto a oligarquia aproveita a oportunidade para agarrar a liberdade que uns, por incúria, e outros, por medo, entregam de mão beijada, arrogando-se agora a mandar a sério como o paizinho que se imagina necessário para colocar ordem na creche. O problema é que esses pretendentes ao mando e ao poder são tão crianças, ou mais, que os outros.

FRAQUEZA MORAL

Qual é a arma dos fracos? A vitimização. Qual é a bandeira dos que se ressentem com essa sua fraqueza? A igualdade com que aspiram alçar-se ao nível dos outros. Qual é então o inimigo que o fraco ressentido de imediato identifica? A liberdade - a dos outros, claro - que o oprime ao revelar-lhe o sucesso do vizinho, que inveja, e o seu próprio fracasso, que o envergonha. Qual a solução política que abraça, então? Ora, o Estado que lhe promete a salvação, pois claro: a estandardização, a igualização, a imposição, inclusive, e cada vez mais, a comportamental. A igualdade na opressão e na miséria, eis o programa da esquerda contemporânea. A fraqueza moral e de carácter da população, eis a razão do seu sucesso.

A ESCURIDÃO

O Nietzsche explicou e profetizou: em desaparecendo o Cristianismo desapareceria com ele a base - moral, valorativa, humana - que permitiu tudo o resto. A religião era o ópio do povo como disse Marx, e de certo modo seria, mas também era a fonte de um código de conduta que explicava e descodificava o mundo desconhecido, caótico e ameaçador. Sem o Cristianismo foi-se o ópio, é certo, mas junto com ele seguiram marcha também os óculos e o mapa com que se construiu a civilização - a nossa casa. Sobra agora a escuridão por detrás dos ecrãs dos telemóveis. A angústia, o medo e a solidão, portanto.

RESISTIR

A verdade é simples: a abundância e o aborrecimento misturado com a angústia própria da natureza humana transformou grande parte do homo occidenti num fraco triste e deprimido que está pronto, prontinho, para a ditadura totalitária. Os filhos pródigos a quem tudo foi oferecido de bandeja agora tratam de desperdiçar o legado com a volúpia própria dos ignorantes. Pressurosos, aplicam o fascismo gritando fascismo nunca mais. Não merecem a liberdade, que não compreendem, e apostam-se a estragar a festa para toda a gente. Aos outros sobra Resistir, pois claro. Até ao fim.

MEDO E INSEGURANÇA

Só está seguro aquilo que está sob controlo. Daí decorre que segurança e controlo equivalem-se: o que está controlado está seguro e o que está seguro controlado está. No jornal e na TV, o político vende segurança. Uma sociedade segura? É de valor. O povoléu aplaude. Mas como não há segurança sem controlo aquilo que o político na realidade vende é uma sociedade controlada. Por ele, naturalmente. Não soa tão bem, pois não? Lembrem-se disto nestes tempos sombrios de medo e insegurança.

DA ESTÚPIDA IGNORÂNCIA

O ateísta militante que “sabe” a verdade sobre o Universo, Deus e o Homem será, por ventura, o pináculo do idiota. Idiota, repare-se, e de acordo com o dicionário, diz-se (1) de uma pessoa que carece de inteligência, de discernimento; tolo, ignorante, estúpido; ou, (2) diz-se de uma pessoa pretensiosa, vaidosa, tola. Digo idiota no sentido de alguém pretensioso, vaidoso, que afirma a sua ideia, daí a raiz etimológica da idiotia, convicto da sua certeza. A estupidez deriva não da ideia em si mesma, repare-se, mas da convicção de infalibilidade sobre a veracidade da ideia. A certeza enerva-me profundamente, admito: para mim, é a marca da ignorância. Um humano que se pretende certo, cheio de razão infalível sobre a Vida, será provável e proporcionalmente algo tão estúpido quanto um peixe num aquário imaginar que conhece o Universo inteiro. Uma impossibilidade que deveria ser evidente, portanto. Depois, a incongruência do argumento que afirmam ao cometerem precisamente o mesmo erro que acusam nos seus imaginados adversários: o de estabelecer um dogma não comprovado sobre a realidade e a origem das coisas. Vejo-os por aí, com as suas certezas arrotadas aos quatro ventos, ideias que são tão originais quanto as roupagens e adereços que usam e imaginam igualmente avant garde. Não são. Tudo fake, tudo importado. No final, tudo recauchutado, copiado, repetido, sem um esboço de originalidade - algo trágico mas normal na pequenez humana, somos todos profundamente não-originais - mas, pior, sem um pingo de reflexão critica que lhes permita vislumbrar o paradoxo do que afirmam. Desmentem-se a si próprios, e nem se apercebem. Rejeitar um dogma afirmando outro dogma, e um outro dogma que carece, obviamente, da mesmíssima falta de prova ou certificação, é legítimo apenas enquanto se reconhece a igual legitimidade dos outros dogmas que se pretendem combater. Mas na sua superioridade imaginada, o ateísta militante racionalista despreza quem com ele não concorda: para o idiota cheio de certezas, quem tem dúvidas, quem não sabe, ou quem não concorda, só pode ser estúpido. A polarização, faz-se de muita coisa - ódio, ressentimento, inveja - mas, principalmente, disto: certezas. Porque certezas não se discutem, não se negoceiam, apenas se apregoam como Verdade. Estamos no tempo dos idiotas, das certezas, no tempo, portanto, da ignorância. Uma tragédia. A mim, por exemplo, não me importa muito discutir a natureza espiritual do mundo, algo que tomo como evidente em si mesmo: qualquer história que se venha a verificar como verdadeira sobre a origem da Vida e do Mundo terá que ser forçosa e essencialmente igual ao pouco que sabemos dessa Vida e desse Mundo: que é incrível, muito maior que nós, que o Universo é maravilhoso e fantástico, extraordinário, misterioso, mágico. Será tudo isso e muito mais, um mistério por revelar até ao final do fim, quiçá, nunca. O que me preocupa não é portanto a natureza divina da realidade: a realidade não pode ser outra coisa que não divina. Preocupam-me outras possibilidades. Preocupa-me, por exemplo, que no final se revele a realidade como um sonho ou uma ilusão emanada de uma divindade aborrecida, quiçá angustiada, com a sua própria solidão - porque Deus é, por definição, Um. E, daqui, desta hipótese tão legítima quanto outra qualquer explicação sobre o Universo, de onde muitos retiram o júbilo por “sermos todos um” eu retiro um terrífico receio: que ao sermos todos um - eu, portanto - no final do sonho se descubra que a solidão que habita o coração dos homens se revela como a derradeira verdade universal, um eco da solidão primordial que atormenta essa divindade criadora e que reverbera em nós como a marca da nossa essência. Mas, lá está, de nada disto tenho certeza alguma, muito pelo contrário, nem sequer nisso acredito, apenas receio a possibilidade. E retiro a felicidade precisamente da esperança que nada disto seja um sonho, que os que amo sejam reais, e que a Vida não seja muito diferente, como Hamman acreditava, de uma dança selvagem, um bailado imprevisível, onde uns e outros, saltam e rodopiam numa espiral sem fim de Criação. Certezas, não quero, portanto, nenhumas. Matam a esperança, a vontade, o diálogo e, em muitos casos, a vida. Quantos milhões não foram chacinados em nome de certezas? Seria bom que este vislumbre alumiasse a mente de todos aqueles que não alcançam a nossa, e portanto deles também, extraordinária irrelevância.

A QUEDA

Durante séculos a Humanidade, ou melhor, a civilização ocidental, alavancou-se a intentar a perfeição. Na busca do Belo e do Sublime, bem como do Bem e da Justiça, de lanterna na mão iluminando o vazio, os que nos antecederam desbravaram o caminho que permitiu tudo o que somos hoje e atingiu os píncaros da criação humana. Quer a intuir uma melodia universal, quer a farejar uma Verdade, esculpiram-nos os nossos antepassados um legado magnânimo que ainda hoje vibra dentro de nós: na nossa identidade, na nossa linguagem, nas nossas vidas. Na música. Na arquitectura. Na filosofia. Mas, certo dia, o homo occidentis descobriu, tal como Adão e Eva caídos do Paraíso, que a famigerada perfeição era inatingível. Então, que nem uma criança que se queda embrutecida por uma birra mimada, logo o moderninho desistiu da demanda civilizacional: para quê buscar o impossível?, urraram as bestas. Antes as virtudes materiais do aqui e agora! Esquecendo a lição de que a virtude da demanda pela perfeição está precisamente na humildade da condição de conhecer-se a impossibilidade de completo sucesso, bem como - fundamental - que a ausência do fim não implica a inexistência dos meios, ou seja, que não é pela perfeição ser inatingível que não nos podemos aperfeiçoar pelos entretantos, entre um e outro, largou-se voluntariamente o caminho. O funcionalismo material que como um caruncho tudo corrompe, por um lado, e a revolta infantil que tudo parte, pelo outro, “enchem” agora as nossas vidas de um vazio imbecil: arrotos cantados, espirros desenhados, dejectos exibidos, culminando a amada “desestruturação” na mais pura baixeza animal: a Arte reduzida à exibição orgulhosa dos órgãos genitais, do coito ou do mundano. Na queda, tudo vai dar ao mesmo: da grandeza à insignificância. De tanto quererem sentir limitam-se à sensação animal. Os bárbaros estão às portas, gritam alguns que mantém um olho aberto. É verdade. Mas pior que isso é compreender que os bárbaros também já somos nós. A seguir, valerá tudo: a eutanásia, o aborto, o incesto, a pedofilia, a zoófilia. Porco, tudo porco, porque é precisamente porco o mundo animal, um mundo amoral. Levantámos voo rumo ao infinito e aterramos hoje num curral. Cruel, sem dúvida. Mas, que interessa? Afinal, num mundo vazio de significado, sem rumo, porque sem caminho, onde tudo é igual a tudo, entre animais, perdidos na poeira atómica limitada a uns quantos elementos periódicos, por entre esse caos informe de que valem a excelência, o esforço ou, sequer, a consciência? Quanto vale uma sinfonia no meio do silêncio? De nada, urram os animais-igualitários. O ignorante tudo abafa com a sua certeza. Quanto vale, repito, uma flor no meio do deserto? Os nosso avós plantaram-na, os nossos pais regaram-na e nós hoje, como as bestas que somos, mijamos-lhe em cima. Que miséria.

BILL HICKS

Cumprem-se hoje [26 de Fevereiro de 2020] 26 anos desde a morte do Bill Hicks. Hicks, um comediante de ‘stand up’ estado-unidense, morreu trágica e precocemente aos 31 anos com cancro no pâncreas. Numa carreira que ainda assim durou 16 anos, grosso modo resumidos nos 3 ‘specials’ que gravou - ‘Sane Man’, ‘Relenteless’ e aquele que na minha opinião é a maior obra prima do ‘stand up’ americano, ‘Revelations’, gravado em Londres dois anos antes de morrer - Hicks, apesar da polémica e da censura (Letterman, por exemplo, censurou a sua última aparição televisiva, já doente, algo pelo qual se penitenciou publicamente repetidas vezes anos mais tarde), conseguiu deixar uma marca transversalmente reconhecida por todos os grandes cómicos contemporâneos. Em boa verdade, Hicks abriu caminho, rasgou horizontes e mostrou que era possível - tal como George Carlin - causar o riso falando de assuntos sérios. Tratando a audiência como seres inteligentes, com um pé no misticismo psicadélico e outro na crítica política, sempre enfrentando os poderes instalados, assumidamente anarquista, a desconstrução de Bill Hicks tem o mérito de questionar, pôr em causa, fazer reflectir, seja na história, seja na narrativa política, sempre com o enfoque idealista da libertação individual. Que nem um xamã que não se levava a si próprio a sério, Bill Hicks aos 30 anos tinha já atrás de si um percurso que apenas não o tinha transformado num dos comediantes mais famosos do mundo porque sempre recusou a comercialização do seu próprio produto, coisa que abominava e da qual fazia pouco: épica, por exemplo, a forma como ridicularizava as estrelas pop capazes de tudo para um lugar num anúncio da Coca-Cola. Para Bill Hicks, a escolha foi sempre a profundidade, a seriedade e a honestidade do seu pensamento, um pensamento próprio, e nunca o estandardizar do seu talento numa fórmula que mesmo garantindo a riqueza e a fama não deixava de lhe roubar a essência da verdade - a dele, é certo - e que, nem um pregador na melhor tradição sulista americana, Hicks queria anunciar: que a vida é uma viagem, um sonho, e que depende apenas de nós a transformação desse sonho naquilo que nós próprios quisermos. Liberdade e responsabilidade ontológica, é verdade, mas substanciada numa advocacia de uma espécie de anarquia irresponsável, um paradoxo subversivo, por vezes absurdo, outras tantas vezes inspirador, sempre genial e, claro está, invariavelmente hilariante. Não há muitos cómicos que façam lembrar o pregador - mais uma vez, e noutro registo, talvez Carlin, em particular o mais velho, e apenas no conteúdo, não na forma - e, nesse aspecto, Hicks foi único, e dos que lhe sucederam, ou tentaram, como Denis Leary (que o plagiou), é evidente ainda hoje como foi ele o pioneiro e nunca alguém lhe chegou aos calcanhares. Cliente habitual das listas dos melhores cómicos de sempre, desde as habituais compilações da TV e dos vídeos no YouTube até à Rolling Stone, o sistema que ele sempre tanto desprezou, e que o censurou, após a morte do seu ‘enfant terrible’ acabou por reconhecer-lhe o talento: único, irrepetível, incontornável. Porta voz do verdadeiro sonho americano - lá está, sempre a temática do sonho idealista - e que ele imaginava, ou entrevia, hoje pervertido por marquetistas e fascistas, e tal como Hicks reconhece na entrada apoteótica de ‘Revelations’ - qualquer paralelo no nome com a estrutura bíblica é tudo menos coincidência - para ele o verdadeiro herói será sempre uma materialização do arquétipo do cowboy solitário que deixa a cidade rumo ao por-do-sol depois de mais uma aventura para repor o bem e a verdade. O pôr-do-sol veio para Bill Hicks cedo demais, mas nem por isso deixou a sua vida de se cumprir: pela mensagem que deixou, pelo exemplo que deu e, principalmente, por ter posto o dinheiro onde pôs a boca. Falando por mim, quanto da forma como vejo desconfiadamente o mundo, ou como encaro a vida, não devo às dezenas e dezenas de vezes em que vi e revi, em particular, o seu ‘Revelations’. Inunda-me gratidão. Já doente, pouco antes de morrer, rodeado de amigos e dos pais que o sobreviveram, Hicks disse que viveu em amor, riso e verdade e que, por essa razão, onde quer que o riso, o amor e a verdade estejam, ele aí continuará em espírito. Assim seja.

BÁRBAROS

Ei, ímpios! Vós não acrediteis, é certo, mas tudo o que julgueis saber mais não é que a vossa própria crença de que sabeis. Não sabeis mais que ninguém, ó arrogantes, e sabeis ainda menos do que os outros, os crentes, aqueles que pelos menos sabem que nada se sabe, nem se pode saber, que tudo se crê, incluindo o vosso suposto conhecimento que vos anima o ego e arrefece o coração. Antes crer, e saber que se crê, do que se crer sem saber que se crê, e dessa ignorância fazer-se gala e argumento arrotado como arremesso. Mil vezes os macacos que defecam aquilo que arremessam aos outros dos quais não gostam. Sois bárbaros, ó tristes incréus, pois deixastes de acreditar no berço que vos deu a vida.