Se,
por um lado, é verdade que o espírito do nosso tempo se faz de uma
crença inabalável nos méritos do Homem, por outro lado, esse
imenso optimismo humanista, ao alicerçar-se numa das maiores ilusões
intelectuais da nossa História, é bem capaz de encerrar dentro de
si próprio as sementes da nossa própria destruição. Que ilusão é
essa? A ideia completamente fantasiosa de que superámos, ou
poderemos superar, a violência da nossa condição humana - aquela
que quase destruiu a Europa e o mundo ainda há pouco mais de setenta
anos - e que continuamos a subir uma escada evolutiva infinita, sempre
a progredir, sempre a melhorar, rumo a um ideal de progresso e
florescimento humano que, mesmo que seja impossível de atingir na
sua plenitude, se encontra no topo dessa mesma escada. De acordo com
essa ideia, hoje somos melhores, mais inteligentes e, acima de tudo,
mais evoluídos
do que aqueles outros humanos que nos antecederam, seres perdidos na
História e na barbárie hoje definitivamente ultrapassada. O rumo,
pensa-se - ou talvez fosse melhor dizer: intui-se
-, é por definição sorridente: se a evolução nos trouxe até
aqui, e o aqui é infinitamente melhor do que o que já fomos no
passado, então o futuro só pode trazer mais evolução, mais
progresso e, consequentemente, mais desenvolvimentos, avanços e
melhorias. Sonham-se com os avanços tecnológicos do amanhã e
imaginam-se os mundos quase perfeitos que os nosso filhos e, quiçá,
fruto dos descobrimentos medicinais, nós também ainda teremos o
prazer de desfrutar nas décadas e séculos que estão por vir.
Esta ilusão progressista, uma mera promessa, serve de isco para uma ideia anterior que a
sustenta: a noção que, de algum modo, há um destino, um telos,
uma finalidade, para o universo e, consequentemente, para os homens
também. É nesse telos que se descobre a razão, e o sentido, do mundo e, por conseguinte, da existência humana. Antes do advento da modernidade secular em que vivemos, esse
porvir era oferecido pela religião, e era conhecido tanto pela fé
como pela razão; hoje, com o triunfo do materialismo, sobra-nos a
razão. Muita desta crença nas nossas próprias valias humanas, tal
como na nossa capacidade de controlar o mundo, deriva de olharmos
para nós próprios através daquilo que nos distingue dos demais: a
nossa racionalidade. E, cheios de convicção nos méritos da nossa
razão, assumimos que essa razão tem um carácter divino: aquilo que
ela estabelece, tal como a antiga palavra de Deus, é aquilo que é
verdade. Consequentemente, algo que é racional, por definição, é
tido como algo que é verdadeiro (mesmo no nosso linguarejar, "ter
razão" implica afirmar algo que é verdade e que deve ser
aceite como tal por todos); e como uma coisa que é verdadeira não
pode ser falsa, também uma coisa que é racional não o pode ser. E
assim chegamos à noção de que dois postulados racionalmente
válidos não podem ser contraditórios pois, como uma verdade não
pode entrar em conflito com outra verdade, se dois postulados são
igualmente racionais, e por isso verdadeiros, então terão que ser
compatíveis entre si. Esta compatibilidade, ou melhor será dizer: a
busca por essa compatibilidade, norteia muito do nosso tempo: para
cada conflito, para cada percalço, para cada questão, recorrendo à
nossa racionalidade, a custo, lá encontraremos a solução. E de
solução em solução evoluímos, e dessa forma, porque convencidos
do ritmo seguro e infalível da nossa razão, antevemos cheios de
certeza que o futuro que os nossos passos buscam é melhor e, acima
de tudo, mais verdadeiro. É dessa verdade que achamos ir descobrindo
que vem o optimismo e a crença no progresso; e é dessa verdade
racional que imaginamos dentro de nós que vem o carácter
proto-divino que nos arrogamos de possuir. Assim, o absoluto, eterno e divino,
para o homem contemporâneo herdeiro de Kant, é o racional que temos
dentro de nós. Nietzsche exclamou pelo morte de Deus mas, na
verdade, na boa tradição Tomista, Ele apenas foi substituído por uma outra crença, uma crença
na harmonia racional do universo.
No entanto, se é verdade que a ideia de não contradição entre duas hipóteses igualmente racionais é uma
noção válida no campo das ciências abstractas e matemáticas,
também não será menos verdade que no campo das vidas dos homens,
das suas morais e dos seus dilemas, representa uma noção que não
poderia ser mais errada. E a vida dos homens, ao contrário dos
robôs, não se faz apenas de matemática. No mundo moral, o valores
colidem. No mundo dos homens, postulados igualmente válidos podem
ser incompatíveis ou concorrentes. É tão racionalmente válido eu
desejar viver numa sociedade segura como numa sociedade livre
- mas apostar numa delas implica invariavelmente prejudicar a outra;
eu posso querer ser corajoso - mas a prudência não
deixa de ser fundamental a uma vida bem vivida; eu posso sonhar com a
justiça a presidir à organização social da minha
comunidade - mas a solidariedade e a clemência também
são valores importantes numa comunidade. No final, implica
perceber-se que se os valores colidem entre si mais do que descobrir
qual a receita certa, ou verdadeira, para o dilema social, a
verdadeira questão é escolher qual a combinação de valores
que desejamos para as nossas vidas.
E a diferença é abissal.
Isto porque acreditar-se numa solução pressupõe sempre que as
coisas são de alguma forma predeterminadas: uma solução que é a
certa, e por isso verdadeira, será uma solução que terá que estar
de acordo com um padrão universal de verdade, padrão esse que nos
antecede a nós humanos que apenas nos pretendemos aproximar dele. A
verdade é eterna, imutável e divina, a verdade é verdade
independentemente de nós. Mas, mais do que isso, a verdade é apenas
uma. E deste modo chegamos à implicação determinista, a
grande consequência não falada dos modelos racionalistas. Sem o arbítrio de Deus, onde apenas a razão é verdadeira e universal, onde o que é verdadeiro e universal antecede a consciência humana, e onde a solução que pretendemos para o dilema moral é racional, então a solução que se persegue será verdadeira, universal e antecede a consciência humana.. Assim sendo, a solução já existirá antes de ser conhecida
pelos humanos. Nada se cria, apenas se descobre. Nada se
decide por nós próprios, apenas se revela o que devemos fazer. Em
suma: não somos livres para escolher, apenas para perceber o que é
suposto que nós façamos. É a morte da liberdade.
A alternativa é a do livre-arbítrio: assumir que escolher implica
criar. Escolher verdadeiramente sem soluções pré-definidas
como boas ou más implica assumir-se que o mundo é nosso para criar por entre as opções que temos pela frente - e não limitados pelas certezas de uns quantos supostamente iluminados.
E com essa profunda liberdade vem a correspondente responsabilidade.
Já o determinismo racionalista retira o jugo da responsabilidade do
pescoço humano e coloca-o num pseudo-critério racional que, sendo
universal, sendo absoluto e infalível, assume a responsabilidade da escolha, escolha essa que deixa de ser humana para passar a ser
cósmica, universal, racional. Determinismo implica fatalismo,
destino e fado. Já a liberdade implica criar, fazer
e sonhar.
O
paradoxo é que o determinismo, ao vender a ilusão de solução
universal, sendo esta falsa, acaba por aprisionar-nos a um rumo que,
não sendo necessariamente o melhor, condiciona-nos aos caprichos daqueles que nos garantem ter descoberto as soluções para os dilemas dos homens. São
os novos messias: os heróis racionalistas que definem o que é
racional, ou bom, o que se deve fazer, ou não, sempre cheios de
certezas, sempre cheios de soluções. Ponha-se um actor, de bata branca, caderno de notas na mão, a afirmar que os últimos estudos garantem isto ou aquilo e o sucesso é garantido, seja esse sucesso vender detergente, carros, pessoas ou ideias. Já
o caminho da verdadeira liberdade, a de pensar, escolher e criar,
essa apenas oferece a vertigem do abismo: um universo sem sentido oferecido a
priori e
que, por isso mesmo, assusta. Muito. Mas também abre a vida à
infinitude de destinos que as nossas escolhas podem criar.
Assim, concluindo, por um
lado, temos o falso conforto temporário (porque as "soluções"
esbarram sempre na próxima esquina) que a ilusão de uma certeza
sobre o sentido para a vida nos oferece - e a sensação de controlo que dela deriva, tanto a
individual como a comunitária; por outro lado, temos a vertigem, e a
responsabilidade, de termos os nossos próprios destinos, quaisquer
que sejam, nas nossas mãos. Do primeiro, deriva o centralismo, o controlo, a conformidade, o monismo; do segundo, a espontaneidade, a autonomia, a criatividade, a diversidade. Entre um e outro, como sempre, se faz a
diferença - enorme! - entre escravos e homens-livres. Mesmo que a
esse grilho mental nos dias de hoje se dê o nome de razão.
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