Naquele dia, era de
manhã e estávamos a tomar o pequeno-almoço. Sentados à mesa, eu
de costas para a porta e de frente para um grande frigorífico
branco, o meu pai de frente para mim. Não consigo precisar com
exactidão a data daquele dia, imagino que seja algures durante a
primeira metade da década de oitenta, mas tenho a ideia de ser
fim-de-semana: afinal, tomávamos o pequeno-almoço com a
tranquilidade e o tempo que as manhãs dos chamados dias úteis não
permitiam. Como de costume, as torradas faziam parte do menu. Sempre
fizeram, aliás, desde que eu me lembro. E felizmente porque, a bem
dizer, torradas com manteiga serão certamente uma das coisas que
ainda hoje tenho como preferidas na vida. Torradas daquele pão
português, bem fininhas e tostadas a um ponto estaladiço e já
acastanhado de perfeição culinária, justamente acompanhado por
manteiga bem salgada, açoriana de preferência, que, derretendo-se,
desliza levemente pela torrada e se vai escapando pelos buracos do
pão, obrigando, por um lado, a uma necessária rapidez na degustação
e, por outro, a aceitar a inevitabilidade de nos escorrer pelas mãos:
os restos da manteiga que, disfarçadamente, sem os pais verem, se
lambem dos dedos. Lembro-me bem daquelas torradas. Das torradas
daquela cozinha, da cozinha da casa onde cresci. Lembro-me bem também
de estar sentado àquela mesa, naquele banco, rodeado por aqueles
azulejos azuis e brancos e os móveis de casquinha cor de mel com
tampos de fórmica azul clarinha. As portas não tinham puxadores:
eram molas que que as abriam e fechavam. E lembro-me bem, claro, do
meu pai. Naquele dia, à frente de mim, à espera que as torradas
ficassem prontas, vestido com um casaco azul escuro dos anos setenta,
cheio de desenhos geométricos, e que eu estou convencido de ainda o
ter guardado numa mala mais escondida. Naquele dia, quando as
primeiras torradas saíram da torradeira, uma torradeira daquelas
altas com uma porta com buracos rectangulares de cada lado, eu que
sempre fui impaciente e garganeiro, especialmente com comida, logo me
atirei a elas. De faca na mão, cortando pedaços de manteiga, em vão
a tentei espalhar pela torrada. Como guardávamos a manteiga no
frigorífico, esta estava rija e eu, na ânsia de me aviar, com o
vigor da faca, a rigidez da manteiga e a fragilidade da torrada,
estilhacei-a em vários pedaços. Talvez por comiseração perante o
meu desapontamento, o meu pai, e aqui não me lembro bem dos
pormenores, chamou-me a atenção e demonstrou como ele fazia: “eu
faço assim”, disse-me ele, “corto pequenos bocados de manteiga e
ponho-os em cima da torrada. Depois, espero: com o calor da torrada,
a manteiga vai derretendo”. E ficámos os dois, por instantes, a
olhar para a torrada dele. “Depois”, continuou, “quando ela já
está ligeiramente mole é que espalho”. E assim fez. Foi uma
torrada perfeita que saiu dali. E aquela foi uma técnica que eu
adoptei desde aí. Por vezes, quando me esquecia e as ganas falavam
mais alto, a dificuldade de espalhar a manteiga lá me fazia lembrar
aquela lição banal que naquele dia eu aprendi. O meu pai já morreu
vão alguns meses para além de doze anos. Uns anos após a sua
morte, esta memória começou a ocorrer-me com alguma frequência:
nós os dois, aquela cozinha, aquelas torradas. E, ultimamente, tenho
dado por mim a pensar por que razão, entre tanta coisa para me
lembrar do meu pai, haveria de ser esta memória em concrecto que
tanto me aparece para relembrar aquela vida infantil que já lá vai
– bem como a figura do meu pai em particular. Várias razões me
ocorrem. Primeiro, a evidente: um momento de intimidade onde um pai
ensina algo a um filho. Mas, parece-me, das sombras da
pré-consciência infantil, aquele ensinamento em particular ganhou
entretanto relevância porque na altura o compreendi. E é quando nos
compreendemos que comunicamos. Aquela torrada foi, portanto, um
momento de ligação com o meu pai e isso tem todo o valor do mundo.
Depois, comecei a pensar que talvez houvesse mais por detrás daquele
ensinamento para lá de uma questão técnica sobre manteiga e
torradas. Talvez, ocorreu-me, pudesse esta memória, hoje com mais de
trinta anos, um sonho quase portanto, representar um conhecimento
mais profundo, mais inconsciente, e que se revela a mim, agora adulto
e com filhos, como um gatilho para aprender, ou relembrar, mais
qualquer coisa. E é verdade, parece-me que assim é. Daquela
memória, hoje que me sento do outro lado da mesa, retiro o valor, ou
a virtude, da paciência: saber esperar, saber levar a água ao nosso
moinho, saber deixar a manteiga derreter na torrada antes de a
espalhar. Ou, também, um princípio básico de defesa que é
utilizar a força do adversário contra ele próprio: a defesa no
aikido que consiste em rodar sobre nós próprios para que o
adversário caia no chão movido única e exclusivamente pela sua
própria velocidade; deixar o calor próprio da torrada derreter a
manteiga que queremos ver derretida. Ou, ainda, como esta ideia se pode aplicar pela positiva: admitindo o princípio Aristotélico
de que cada coisa tende para o seu propósito, deixar a torrada
fazer o seu trabalho apenas sobrando para nós a tarefa de limitar,
ou conduzir, a manteiga ao seu melhor destino. Depois, a
inteligência: estudar a torrada e ver que é quente, estudar a
manteiga e compreender que derrete e, na simplicidade óbvia da
tarefa, agir utilizando este conhecimento em nosso proveito. E, finalmente,
a passagem desse conhecimento de pai para filho. Tudo junto, e começo
a perceber por que razão esta memória me vem assaltando a azáfama
matinal: porque ser pai é ensinar, é ensinar tudo isto e muito
mais, mas é também perceber que os filhos têm energia própria:
para não os quebrar, muito pelo contrário, para lhes dar força, é
preciso deixá-los utilizar a sua energia para derreterem os seus
próprios problemas, as suas próprias manteigas. A extrema
responsabilidade da paternidade, de estar do outro lado da mesa, de
ser eu agora o criador de memórias futuras, é algo que nos põe em
cheque: fazer o melhor que podemos, sempre, para sempre. Acredito
agora ser precisamente por sentir a grandiosidade, e o peso, da
tarefa que tenho diante de mim que, através da memória, o meu pai
me vem visitar todos dias de manhã quando preparo as torradas com
manteiga para os meus filhos. E, se Deus quiser, daqui por algum
tempo, serei eu a ter a oportunidade, e o privilégio, de lhes
mostrar as virtudes de deixar derreter a manteiga calmamente pelo
calor do pão torrado.
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