Parece-me que existem graves equívocos
nos tempos que correm a propósito das noções de 'Fé', “Razão”
e “Ateísmo”. É preciso notar que mesmo o conceito de 'religião'
tal como o conhecemos hoje em dia é algo bastante recente: até os
pensadores iluministas começarem a questionar a ideia de Deus e o
fenómeno da religião a noção de separar a experiência religiosa
das outras componentes da vida não se colocava: viver implicava um
exercício, acima de tudo, de fé; ou seja, de operacionalização
das crenças de cada um, normalmente partilhadas, sobre o mundo.
Naturalmente, dessa crença fazia parte no Ocidente a noção de um
Deus criador, um fiel numa balança eterna sobre o Bem o Mal e que,
após a morte física de cada um, seria o julgador supremo capaz de
garantir benesses ou castigos às almas imortais que configuravam a
essência do ser humano.
Com o advento da modernidade, em
particular a partir de Descartes e a sua busca pela pedra de indiscutível certeza sobre a qual se poderia erigir o exercício de
conhecimento “científico” do mundo, o célebre “penso, logo
existo”, separam-se as águas: de um lado, temos aqueles que
entendem que a descoberta do mundo e de Deus, consequentemente da
essência humana e do sentido para a vida, passa pela análise fria, mecânica e causal da razão; do outro, aqueles que entendem que a razão
pode explicar as particularidades mecânicas do mundo mas que o
significado, os porquês de as coisas serem como são, para sempre
seriam o terreno de uma explicação que a razão humana não poderia
alcançar.
No entanto, para se chegar a esta
divisão, a religião teve um papel fundamental: onde o monoteísmo
tinha separado o mundo mágico do homem pré-histórico em divino e
material, o Cristianismo, com o nascimento de Deus feito matéria e
homem, veio oferecer valor ao mundo: como poderíamos não valorizar
o mundo material, as coisas, se Deus, Ele próprio, se tinha feito
matéria também através de Jesus? A vantagem competitiva que esta
ideia veio trazer aos europeus vai afirmando-se ao longo dos mil anos
que vão desde os estertores finais do Império Romano até ao advento do Renascimento: onde no final do Helenismo se voltavam os
olhos para o divino já esotérico, ou onde os bons cristãos apenas
olhavam para a cidade de Deus, a pouco e pouco o valor do mundo e o
interesse em compreendê-lo foi fazendo o seu caminho: a Razão
explicava os 'comos', a Fé explicava os 'porquês'. São Tomás, por
exemplo, o pináculo do pensamento filosófico Cristão, dedicou a
vida a harmonizar Deus e Razão, a Palavra e o Filósofo (no caso Aristóteles).
Com a revolução tecnológica (e
moral) do século XV que resultou em grandes cismas intelectuais e
uma enorme mortandade na Europa por força de conflitos religiosos
(não exclusivamente mas assim justificados) os filósofos,
cientistas e pensadores do Iluminismo procuraram, naturalmente,
explicar e compreender o fenómeno religioso. O facto de a Razão
oferecer um conjunto enorme de explicações sobre a Fé e a Religião,
e a Fé, ou os seus fieis servidores e intérpretes, não oferecerem
nenhuma explicação que fosse para lá do dogma tradicional fez com
que, no debate de uma com a outra, a segunda fosse gradualmente
perdendo terreno para a primeira. A pouco e pouco instala-se a ideia
de que a experiência religiosa está separada da experiência do
mundo. Que a religião deve ser limitada pela Razão. Ou que a ideia
de Deus e do religioso é, em si mesma, absurda.
Primeiro, com a Religião Natural do
Iluminismo que mais não era do que assumir o antigo Dogma de que o
Divino e o Racional eram uma e a mesma coisa, apenas que agora
despido do palavreado religioso e assente numa suposta certeza
científica: para compreender-se o sentido da vida e chegar a Deus, o
criador do mundo, já não era necessária a Fé, bastava descobrir
os segredos do mundo através da ciência. Não foi difícil a esta
noção triunfar no Ocidente Cristão: afinal, para o pensamento
Cristão, o que era racional era bom e configurava uma expressão de
Deus. Do mesmo modo, não foi difícil conciliar com as bases
clássicas do Ocidente: afinal, já para Platão o Bom e o Racional
tinham que ser coerentes.
No entanto, o ritual antigo da Igreja,
o palavreado dogmático dos Evangelhos, o cheiro asfixiante dos
incensos, da madeira velha dos púlpitos, as pedras velhas dos
altares e, ainda mais importante, a exigência de humildade (muitas
vezes não praticada) perante a figura de Cristo, tudo isso representava uma
absoluta contradição com o ambiente do laboratório, da discussão
científica e, mais importante, não era compatível com a arrogância
do Homem que, à medida que via o seu mundo ser cada vez menos o
centro do Universo, se transformava cada vez mais no centro de um
Mundo que queria compreender, transformar e, em última instância,
controlar.
Depois, veio a subjugação Kantiana do
religioso face ao racional: a moral deveria ser entendida como
baseada na razão pura, num mundo racional e transcendental onde,
abstraídos das imperfeições humanas, os homens, a custo,
conseguiriam obter um conjunto de preceitos racionais, logo
universalmente válidos, que permitiriam ser uma base para uma paz
perpétua. Curiosamente, apesar de muito esforço na sua viagem ao
mundo racional, Kant não conseguiu oferecer ao mundo dos homens mais
do que o seu Imperativo Categórico – “age como se a tua acção
pudesse ser tornada uma regra universal” – que, convenhamos, não
é muito diferente da chamada 'Regra de Ouro', algo já presente no
mundo pelo menos desde o Reino do Meio do Antigo Egipto, bem como na
mitologia Indiana e que, desde aí, numa ou outra forma, desde Thales
na Grécia a Séneca em Roma, para nós, Ocidentais, fez o seu
caminho até tomar a forma que melhor conhecemos no Evangelho (Lucas
6:31:) “faz aos outros o que queres que te façam a ti”. Para
tanta razão faltou oferecer um pouco mais além do que aquilo que já
cá andava desde o início dos tempos.
No entanto, a roupa racionalista que
Kant oferece para as bases da moralidade, por estar de acordo com os
tempos, fez sucesso: Nietzsche, que percebeu melhor do que ninguém
as consequências da renegação racionalista ao Cristianismo que
estava implícita na tese Kantiana, proclamou a morte de Deus. E
garantiu que competia agora aos homens, aqueles que mataram Deus,
criar uma nova moralidade assente na vontade humana. Atente-se no
“criar”. Apesar disso, através da inspiração Kantiana, durante
os últimos duzentos anos, e até meados do Século XX, temo-nos
ocupado a “descobrir” uma moralidade. Para Fichte, por exemplo,
Deus é a Lei Universal que se explana através da acção humana:
criar será, portanto, descobrir.
Pelo caminho, renegando
progressivamente mais a religião, tanto vista como uma projecção ilusória
do Homem face ao seu próprio desejo de perfeição, como afirmou Feuerbach, ou
como um instrumento de controlo de massas, o célebre ópio do povo
Marxista, o religioso passa a ser visto como algo que é mau, que nos
reduz, que nos limita. E de um mundo onde as autoridades religiosas
limitavam os actos dos cientistas passámos para um outro tempo onde
são as autoridades científicas que limitam os actos dos religiosos.
Naturalmente fica, para já, a pergunta: se foi a religião, em
particular a Cristã, que serviu de base para todo o conhecimento do
mundo que temos, ou que julgamos ter, como poderemos conservar esse
conhecimento sem a base que o suportou? Ou, por outras palavras, se
matámos a base da moralidade que nos guiou até aqui como podemos
garantir que não cairemos, como tantos antes de nós, no abismo do
esquecimento?
É na resposta a esta questão que
temos a distinção entre Fé e Razão. Para os primeiros, não há
vida completamente humana sem Fé: esta faz parte da experiência de
ser humano. Para os segundos, algo que não possa ser explicado pela
lógica argumentativa e testado pela experiência empírica não
poderá ser considerado verdadeiro.
Para desfazer este equívoco vou
primeiro situar o termo “ateísmo” nesta dicotomia. Apesar de a
uma primeira vista poder parecer paradoxal, o ateísmo deve ser
colocado em primeira instância no campo da Fé. Isto por duas razões
óbvias: a primeira é que um ateu proclama saber que Deus não
existe; a segunda é que o ateu não pode provar que Deus não
existe, apenas que quem acredita em Deus não pode provar que Deus
existe. Ora, assim sendo, na sua base ambos exprimem uma crença: um
postulado que não pode ser provado. Assim, o ateu, tal como o crente
religioso, acredita em alguma coisa: no caso do ateu na não existência de
Deus. No entanto, sobra a ausência de prova sobre a sua crença. Ao
mesmo tempo, a linguagem do ateu faz-se de argumentos e de provas
científicas. Assim, deverá ser igualmente colocado no campo da
Razão. Em suma, o ateu assume a ciência como o caminho da sua
verdade mas exprime uma convicção do seu resultado final que não
pode provar por forma alguma. Não é diferente dos antigos filósofos
naturais, apenas que exprimindo a crença contrária de que Deus não
existe. Deste modo, o ateísmo torna-se irrelevante para a discussão
entre Fé e Razão: partilha com uma, a Fé, o resultado (mesmo que
de sinal contrário) e com a outra, a Razão, a metodologia (que
perverte ao assumir uma convicção que não demonstra). O ateísmo é, portanto, uma opinião, uma manifestação de fé sobre o mundo, tão válida como outra qualquer desde que não assuma a arrogância de se considerar verdade.
Sobra-nos, portanto, o embate entre a
Fé e a Razão sem nos preocuparmos com o fenómeno do ateísmo. E
aqui parece-me que há um mal-entendido muito grande a propósito da
sua suposta incompatibilidade. Que tenha havido, como fui mostrando
ao longo do texto, uma evolução grande na forma como se entende a
religião, ou a Fé, e uma controvérsia sobre as bases da
legitimidade moral, logo política, da comunidade é algo natural. Que esta
evolução fosse derivando num conflito foi inevitável porque o que
estava em causa era a autoridade sobre a comunidade: quem a detinha,
não a queria perder; quem não a tinha, queria conquistá-la. No entanto, hoje, com o advento da democracia
liberal, o debate sobre a Fé e a Religião torna-se uma questão de consciência individual. Ao mesmo tempo, com a modernidade secular, pela primeira vez, Fé e Igreja são duas entidades distintas: é perfeitamente possível ter Fé fora da Igreja. Livres do problema da autoridade política e religiosa,
o debate deveria ser mais profícuo. Os argumentos deveriam ser mais
claros. As premissas bem explicadas. A serenidade deveria imperar.
Apesar de tudo isto, assim não tem sido. E assim não
tem sido porque, parece-me, as regras do debate têm sido ditadas por um dos
lados: no caso, a linguagem científica e racional do nosso tempo. A
questão que se tem exigido aos crentes religiosos é a de que
demonstrem que a sua crença é verdadeira. Mas isso é,
naturalmente, impossível: Fé é Fé porque implica saber algo que
não pode ser sabido de outra forma. Se pudesse ser sabido de outra
forma não seria Fé, seria conhecimento empírico, logo científico.
Pretender compreender a Fé, analisar a Fé, saber se a Fé é
plausível ou não, como Kierkegaard argumentou, implica matar a Fé:
ter Fé implica saber algo como verdadeiro que não poderia ser
sabido de outra forma. Nomeadamente, a existência de Deus ou um
determinado sentido para a vida. Jacobi, na sua contenda com Fichte
sobre o que era o ateísmo, defendeu a noção de salto mortale:
para lá do conhecimento da razão, que explica os 'comos', sobra
explicar os 'porquês'. E os 'porquês' pertencem ao campo do divino, às
causas e não aos resultados, à criação e não à obra; para
conhecer o divino, portanto, é preciso abandonar a lógica, o
racionalismo, o científico e abraçar a noção de Deus num salto
mortal rumo ao abismo do transcendente. Ter Fé não é, por conseguinte, saber algo contrário à ciência: é conhecer para
além da ciência, é conhecer o que a ciência não poderá
algum dia conhecer.
Daí que o embate entre Fé e Razão
seja uma mera ilusão sobre quem não compreende o que é, por um
lado a Razão e, por outro, a Fé. Se a segunda trata do
transcendente ao conhecimento humano já a primeira é apenas
procedimental. A Razão é um mecanismo formal que nos permite
organizar o mundo defronte dos nossos olhos. Os seres racionais, por
serem racionais, conseguem reconhecer regras, padrões e
procedimentos, causas e consequências. No entanto, nada existe no
mundo da experiência científica que nos garanta para lá de
qualquer certeza que, primeiro, o conhecimento científico que já
temos é verdadeiro. Popper explica, e bem, como apenas podemos ter a
certeza do que é falso, nunca do que é verdadeiro, porque tudo o
que desconhecemos pode provar-nos errados, tal como sempre assim foi
no passado a propósito de tudo aquilo que já tivemos como certo e
entendido como verdadeiro - o princípio da refutabilidade. Segundo, e consequentemente, a ideia de
que a Razão nos permite saber a verdade está igualmente longe de
estar provada como verdadeira. A ideia de que existe sequer uma
verdade para ser conhecida implica desde logo, a priori, uma hipótese sobre o mundo que
não pode ser demonstrada empiricamente. O mundo pode ser uma ilusão
idealista, pode ser uma simulação num computador do futuro ou,
quiçá, apenas o sonho de uma entidade solitária. Agora, saber
que a ciência dos homens, com os seus testes laboratoriais e as suas
hipóteses especulativas, permitirá conhecer, de facto, sem
dúvida, com certezas, algo de verdadeiro sobre o mundo
para lá do mero saber que algumas causas geram outras consequências,
ou seja, saber-se que pela Razão se podem conhecer as
primeiras causas, não deixa de ser uma extraordinário exercício de...
Fé. Talvez por isto mesmo o debate seja tão pouco sereno: o facto de a linguagem do racionalista ser feita de conceitos gerais e
abstractos pretensamente universais não lhe confere uma
característica de verdade, é certo, mas confere-lhe a ilusão dessa certeza.
Ilusão a qual é o combustível dos fanatismos e, como a História bem o
demonstra, dos maiores crimes a que a Humanidade já assistiu.
Fernando Pessoa
escreveu que "a meio caminho entre a fé e a crítica
está a estalagem da razão. A razão é a fé que se pode
compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve
pressupor que há qualquer coisa compreensível" (Desassossego,
2009, p. 194 [176]), uma passagem que me parece resumir bem o que
quero transmitir.
Concluindo, o debate é infrutífero por duas
razões: primeiro, porque tanto a Fé como a Razão são
imprescindíveis: a Razão guia-nos por um mundo onde apenas a
Fé nos sustenta a embarcação. Segundo, o debate é desnecessário
porque ambos os lados do debate se ocupam de coisas diferentes: um
dos 'porquês', o outro dos 'comos'. Pessoa, a este propósito, também
escreveu que “ter opiniões definidas e certas, instintos e
paixões de carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror
de tornar a nossa alma um facto, de a materializar e tornar
exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das
coisas e de si próprio é o único modo de vida que a um sábio
convém e aquece." (Desassossego, 2009, p. 456) Talvez possa ser
esta a maior afirmação do valor da Fé: não nos esquecermos que o
mundo que não conhecemos, nem poderemos compreender, está ao nosso
alcance desde que não aprisionemos a nossa mente na aridez gélida
dos conceitos científicos. Talvez os nossos paradoxais tempos de, por um lado, grande optimismo na salvação tecnológica da condição humana e, por outro, de grande desilusão e
insatisfação para com, apesar da abastança material, o facto de termos de lidar com uma profunda ausência de sentido para a vida mais não sejam do que uma grande demonstração prática, científica portanto, da
enorme amputação que significa para um ser humano ver-se privado da
Fé: ao depositarmos as nossas esperanças na crueza física
dos meios do materialismo científico corremos o sério risco
de perdermos os fins que a Fé, e apenas ela, nos é capaz de
oferecer. Do mesmo modo, ao nos arrogarmos de saber, ou poder saber, a Verdade colocamos em risco a humildade responsável com que devemos abordar o imenso desconhecido que continua a ser o mundo. No final, tal como em tudo o resto, convém recordar Aristóteles que, sabiamente, nos faz sempre lembrar das virtudes do meio termo.
1 comentário:
Muito bom!
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