segunda-feira, 12 de março de 2018
DESSINTONIA
Um tipo que esteja meio de fora, como é o meu caso, ao navegar pelas
redes sociais e mediáticas portuguesas fica com uma sensação que, à
falta de melhor expressão, ocorre-me qualificar de "dessintonia". Na
Europa vive-se um momento de grande incerteza que, a todos os níveis, de
uma forma ou outra, não deixará de afectar fortemente Portugal: por
entre o Brexit de um lado e o momentum federalista das instituições do
outro, por entre a recusa do multiculturalismo no leste e a adesão
popular democrática aos que recusam o multulturalismo no centro-norte,
por entre os dislates de, entre outros, os próprios portugueses e a
impaciência das contas certas do norte, entre as espadas e as paredes,
por Portugal, de Europeu discute-se a canção da Eurovisão. Ao mesmo
tempo, dos EUA vêm sinais inquietantes que se aproxima uma grande crise
económica que irá impactar o mundo inteiro. Já por Portugal, enquanto se
assiste impávida e serenamente ao estafar das almofadas financeiras
geradas com grandes sacrifícios em anos anteriores, de americano
discute-se os Óscares de Hollywood. Nos entretantos, no mundo político
indígena controlado por uma frente de esquerda cujo suporte parlamentar
lança vivas aos passarinhos da Venezuela e aos assassinos da Coreia do
Norte, o país já esqueceu os mortos dos incêndios, o mais baixo
investimento público dos últimos quarenta anos, os mortos dos
incêndios!, as contas para pagar nos hospitais, os mortos nos
incêndios!!, as listas de espera, os mortos dos incêndios!!!, enfim,
importante, importante mesmo é a bola: a bola é que mete tudo a mexer.
Deve ser porreiro viver num país onde as grandes preocupações são os
gemidos do festival da canção, os vestidos dos famosos americanos ou os
ódios aos clubes rivais de futebol. Grave? Escandaloso? Um
ex-primeiro-ministro ir dar aulas para a universidade, isso é que é
grave. É mesmo um mundinho à parte, o nosso quintalinho. E quem está de
fora, tal como os estrangeiros de carteiras recheadas que são acusados
de destruir com o seu investimento a celebrada pobreza dos centros
históricos em ruína, só pensa mesmo que tanta dessintonia é capaz até de
ser uma coisa porreira. Para as férias, naturalmente.
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