Serve esta história para ilustrar as duas tendências opostas que se gladiam no terreno da justificação do conhecimento humano: o empiricismo, baseado na observação e verificação humana, e o idealismo, baseado na especulação intelectual. Nos dias de hoje, estranhamente, ambas as ideias coabitam alegremente sem que os seus portadores se apercebam do enorme paradoxo que a advocacia de ambas em simultâneo pode representar: por um lado, triunfou em pleno a noção racionalista de que a racionalidade humana deriva de uma razão superior, universal, que nos permite professar conclusões finais, absolutas e certas sobre os mais variados temas, incluindo os morais e políticos; ao mesmo tempo, desacredita-se tudo aquilo que não é provado como sendo factual e absolutamente demonstrado por evidência empírica e científica. No léxico comum, especular é mesmo tido como negativo, como um afastar da verdade que, naturalmente, reside na experimentação laboratorial controlada, verificada e testada. No entanto, e este é o paradoxo, acreditar que através da experiência científica se pode alcançar uma certeza sobre o mundo implica a priori um exercício de especulação: com excepção das teorias científicas que actualmente são tidas como verdadeiras todas as outras, as passadas, já foram também elas verdadeiras, apenas para se tornarem antiquadas e falsas com o passar dos tempos e com a evolução do conhecimento empírico humano. Assim, acreditar que o conhecimento que agora detemos é mais completo faz todo o sentido, tal como a evolução tecnológica o comprova, no entanto, acreditar que é certo, que é infalível porque é verdadeiro, principalmente no que concerne a vida moral e política, isso já resulta de um mero acto especulativo assente na velha crença racionalista de que aquilo que é racionalmente comprovado é forçosamente verdadeiro. Mas se há uma coisa na história humana que poderemos saber é que este pressuposto racionalista é tudo menos verdadeiro: se o fosse, pessoas igualmente racionais chegariam às mesmas conclusões sobre os mesmos problemas, algo que empiricamente sabemos nunca ter acontecido. Aliás, o bom cientista conhece muito bem a falácia racionalista e sabe perfeitamente que todo o conhecimento que temos é parcial, incompleto e passível de revisão. No entanto, no nosso zeitgeist, junta-se o melhor dos dois mundos: do especulativo retira-se a ilusão de certeza metafísica; do empírico, retira-se a confirmação prática dessa mesma certeza. Ambas estão erradas.
O mesmo se passa no plano moral e político: por um lado, tudo o que é estudo científico - “tenho aqui um estudo que prova que...” - funciona como argumento de autoridade; mas, por outro lado, ao invés de aceitar a dúvida permanente a que a observação científica e empírica do mundo obriga, também se vendem as maiores certezas morais, tão grandes ao ponto de demonizar aqueles que se atrevem a contestar as verdades adquiridas como seres malvados, ou simplesmente estúpidos, por se recusarem a aceitar aquilo que a maioria crê como verdadeiro. Esta será, aliás, a semente do totalitarismo, provavelmente o maior perigo que assola o mundo Ocidental: a certeza não é compatível com o respeito mútuo entre visões diferentes do mundo, pelo contrário, se eu tenho a certeza que estou certo então o meu adversário está errado e no mundo do certo e do errado o compromisso é impossível pois quem tem razão não vai comprometê-la com quem não a tem. A verdade não se negoceia, apregoa-se e ensina-se.
O cientismo racionalista é a ilusão de que através da ciência se podem alcançar conhecimentos absolutos e verdadeiros sobre o mundo moral dos homens. É, portanto, um enorme exercício de especulação pois que não existe absolutamente nada ao longo da história da Humanidade que sustente a tese de que conhecer algo de forma absoluta seja possível, muito pelo contrário. O facto de algo nunca ter sido bem sucedido antes obrigaria, no mínimo, a um exercício de humildade, precisamente aquilo que falta em abundância nos dias do triunfo racionalista; no entanto o oposto se verifica: o crescente abandono da noção de que o mundo, em particular o moral, é um compromisso onde o óptimo é inimigo do bom em favor da noção de que o óptimo, por ser verdadeiro, tem que ser atingido, mesmo que a expensas da realidade.
As consequências serão, naturalmente, terríveis. Pior do que nortear o caminho numa especulação será nortear o caminho numa especulação que se imagina verdadeira, e onde não se coloca a hipótese de que possa ser falsa. A seu tempo a realidade triunfa sempre apenas para que o Homem reconheça a sua falibilidade e recupere a humildade da sua condição. A arrogância da certeza, ensina-nos a história, é sempre a causa da queda. E esta será sempre tão mais alta quanto maior for a certeza que alimentou a ascensão. Esta arrogante certeza, aliás, representa precisamente o oposto daquilo que todos, bem lá no fundo, até sabemos como verdadeiro: o axioma socrático de que a sapiência virtuosa reside no reconhecimento da nossa ignorância, ou seja, que tudo aquilo que sabemos ser poderá, afinal, não ser. O futuro nos dirá quais as consequências da húbris dos homens do Século XXI, no entanto, de uma coisa poderemos estar certos: a factura virá, como sempre, sob a forma de miséria e violência.
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