sábado, 10 de novembro de 2018

DA POLARIZAÇÃO

O Adolfo Mesquita Nunes tem escrito abundantemente sobre o problema da polarização política que se vai vivendo em Portugal, e não só, e que se traduz numa certa erosão do centro político e numa consequente crispação do debate entre pontos de vista que, de tão antagónicos entre si, colocam a prazo em risco a própria natureza democrática do nosso regime. Neste artigo - que linko abaixo nos comentários - diz o Adolfo, e passo a citar, "[que se trata] de uma polarização moral, a separação entre bons e maus, patriotas e antipatriotas, corruptos e lesados, elites e o resto das pessoas. Esta polarização impede o reconhecimento da legitimidade do outro lado, porque não é possível fazê-lo quando, do lado de lá, estão antipatriotas ou corruptos ou elites". Em seguida, continua o Adolfo afirmando que "para derrotar o socialismo, que é mau para o país, para vencer a esquerda, que tem uma visão muito diferente da minha, não preciso de prescindir da liberdade nem da democracia liberal nem de simpatizar com autoritarismos."
Ora, estamos, portanto, completamente de acordo nestas palavras. Há, no entanto, uma coisa que nos separa e é um optimismo que permeia o discurso do Adolfo fazendo com que ele acredite que para defender a democracia liberal baste fazer uma apologia da liberdade e da democracia liberal rejeitando os discursos dos extremos. Aqui eu estou em desacordo, primeiro, devido às causas da polarização e, depois, na prática ou estratégia que a direita liberal e democrática deve adoptar face a esta polarização.
Quanto às causas, concordo com o diagnóstico do Adolfo, mas o problema é que este não chega. É preciso também perceber que o que está na base do proto-desaparecimento do centro democrático é o facto de um compromisso fundamental no campo dos valores se ter erodido: onde antes a direita e a esquerda democrática, apesar de concorrentes eleitorais, partilhavam um compromisso valorativo assente na defesa da economia de mercado, no princípio da igualdade perante a lei e nos valores tradicionais das sociedades europeias, agora, no mundo contemporâneo, este compromisso não é evidente. Partidos comunistas, por exemplo, partilham agora o poder em Portugal tendo rompido o cordão sanitário que o centro moderado, e bem, lhes tinha imposto durante toda a nossa vida democrática. A razão para a importância desse cordão sanitário separando a extrema-esquerda do resto (a extrema-direita tal como se vai definindo hoje está proibida constitucionalmente) prende-se com o facto de serem partidos contra a economia de mercado, contra a liberdade individual protegida pela propriedade privada, contra a NATO, etc., etc.. A sua entrada na arena das alianças governativas em Portugal, tal como nos ministérios, fez com que o cinismo eleitoral tenha substituído a coerência ideológica como base do discurso político. Como pode um debate não ficar extremado quando ele é travado com extremistas é a primeira pergunta à qual a proposta do Adolfo não responde.
Depois, ainda no campo das causas, uma clivagem no âmbito dos valores impede que o debate permaneça dentro da área de conforto do compromisso democrático. Aqui, como exemplo mais flagrante, temos a agenda de género que tem vindo a ser advogada nas universidades, nas redacções e nas agências não-governamentais e que, em Portugal, acabou de entrar nos currículos do ensino obrigatório. Termos professores a perguntar a alunos se se sentem bem no seu sexo ou a trazer a intimidade e a privacidade da orientação sexual para a sala de aula é algo que mexe profundamente com as pessoas, tão profundamente que, aqui, a mera afirmação da liberdade torna-se irrelevante: é liberdade quando a escola impõe a um indivíduo um conjunto de preceitos sexuais que estão em profundo desacordo com aquilo que são os valores dos pais e da família desse indivíduo em particular? Um exemplo ainda mais concreto: que conceito de liberdade é este que defende que um jovem de dezasseis anos não tem maturidade suficiente para votar mas que pode, à revelia dos pais e da família, decidir-se por uma "mudança de sexo" que, mais não sendo do que uma mutilação sexual e uma ingestão violentíssima de hormonas, consiste num processo de consequências imprevisíveis e, pior, traumaticamente irreversíveis? Que liberdade é esta onde para "mudar de sexo", entre os dezasseis e os dezoito anos, o Estado manda mais dentro da família do que a própria família que, no limite, pode perder em tribunal a custódia do jovem?
Como não pode o debate ficar extremado quando vivemos uma disputa sobre o que significa o conceito de liberdade em que num dos campos, e bem alavancada nas academias subsidiadas e nas redacções dos jornais, temos uma extrema-esquerda cujos programas, assumidamente, estão apostados em destruir o modo de vida ocidental? Esta é a pergunta fundamental à qual o optimismo do Adolfo não responde.
Onde os valores não são partilhados sobra a gritaria sobre o que cada conceito significa, essa é a lição que as últimas décadas de multiculturalismo ocidental nos estão a ensinar.
Depois, quanto à prática: se não concordamos com o que significa o conceito de "liberdade" como pode a apologia da liberdade do Adolfo significar o que quer que seja neste debate polarizado? Para uns e outros significará, consoante a boa ou má vontade, aquilo que quiserem, ou que lhes dê jeito querer, entender que o Adolfo quer dizer por liberdade. No limite, acaba por não significar nada.
É por isso que é preciso fazer mais do que simplesmente advogar a liberdade. É preciso defender a nossa liberdade, a liberdade da nossa civilização, uma liberdade assente nos nossos valores, nos nossos princípios, nomeadamente uma defesa intransigente da economia de mercado assente na propriedade privada, a não abdicação da igualdade perante a lei independentemente de raça, sexo ou orientação sexual (as quotas de afirmação positiva infringem abertamente este princípio, por exemplo) e a defesa da crença que, no limite do possível, o Estado deve estar fora da esfera íntima das pessoas, especialmente ainda mais no caso das crianças. Mais haveria, mas, suspeito, basta defender estes pequenos princípios para que a polarização se efective: porque do outro lado estão radicais que enquistados no Estado, nas academias e nas redacções conspiram abertamente contra precisamente estes princípios que acabei de enunciar.
Finalmente, uma última nota mais prática: a grande maioria das pessoas não se identifica com a rejeição destes princípios por mais propagandeados que sejam pelos órgãos de comunicação social. Muito pelo contrário, toda a agenda multicultural que pretende defender as regras das democracias liberais sem defender os valores que permitiram, e permitem, que essas regras funcionem, não está a dar resposta a este ataque à base valorativa do nosso modo de vida; daí que, com esta presente dissonância entre, por um lado, as elites políticas supostamente moderadas que se abstêm de entrar no debate dos valores e, pelo outro lado, as populações que crescentemente o vão exigindo, dessa dessintonia nasce a erosão eleitoral do centro moderado: quando o centro não defende o compromisso político baseado nos valores perfilhados pelas populações então as populações vão procurar líderes que defendam os seus valores. Aqui reside verdadeiramente a génese do populismo polarizado, pois que, vendo a oportunidade, podem muito bem os que se levantam contra a ofensiva contra o nosso modo de vida revelarem-se como demagogos que mais não visam que o seu interesse particular de chegar ao poder. E isto é muito perigoso.
Daqui decorre que a verdadeira defesa do compromisso democrático e liberal terá que, sob pena do desaparecimento eleitoral dos centros moderados para os extremos, incorporar uma defesa intransigente dos valores democráticos e liberais, tal como serem esses valores advogados e defendidos pelos moderados na arena política. Não o fazer representa um perigo tremendo para a democracia e para o nosso modo de vida. Esse é o repto que deixo, não apenas ao Adolfo - alguém que muito prezo e que vejo como um grande aliado na defesa da nossa democracia liberal – mas a todos aqueles que queiram ajudar a defender o nosso modo de vida: democrático e liberal. Maior causa que esta não haverá na nossa geração.

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