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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

NOÇÕES PANTEÍSTAS (XIII)

"But there is no such thing as a start and a finish of the whole circumference of a circle: for every point one can think of is a beginning and an end".

Heraclitus, in: G. S. Kirk, Heraclitus: The Cosmic Fragments, Cambridge University Press, 2010, p. 113

sexta-feira, 6 de junho de 2014

TRADIÇÃO E COMUNIDADE VERSUS ESTADO E UTOPIA

"Pondo a questão de outra maneira, a tradição... condensa em si mesma os frutos de uma longa história de experiência humana: fornece saber que não pode conter-se numa fórmula nem estar confinado a uma única cabeça humana, mas que é disperso ao longo dos tempos pela experiência histórica da comunidade envolvente. Tal como os preços do mercado condensam em si mesmos informação que de outro modo fica dispersa na sociedade contemporânea, também as leis condensam informação que está dispersa pelo passado de uma sociedade...: o saber de que precisamos em circunstância imprevisíveis da vida humana nem deriva da experiência de uma única pessoa, nem se contém nela, nem pode ser deduzido a priori de leis universais. Esse saber é-nos legado pelos costumes, pelas instituições e pelos hábitos de pensamento que foram moldados eles próprios ao  longo de gerações, através de tentativas e erros de pessoas, muitas das quais pereceram enquanto o adquiriam. (...) Se essas coisas boas se desintegrarem, não há maneira... de a legislação as substituir. Porque ou surgem de forma espontânea ou não surgem, pura e simplesmente, e a imposição de instrumentos legislativos para a «boa sociedade» destrói o que resta do saber acumulado que torna possível essa sociedade. Não surpreende, por isso, que os pensadores conservadores britânicos - nomeadamente Hume, Smith, Burke e Oakeshot - tenham tido tendência para não ver tensão entre uma defesa do mercado livre e uma visão tradicionalista da ordem social. É que tinham fé nos limites espontâneos colocados ao mercado pelo consenso moral da comunidade. Talvez esse consenso esteja actualmente a ceder. Mas essa cedência é em parte resultado da interferência do Estado e é certamente improvável que seja curada por ele. foi precisamente o êxito da falácia do planeamento [central] na criação de enormes máquinas de poder e influência, a galopar descontroladas para o futuro, que levou à erosão do consenso que coloca um «nós» genuíno no centro da política".

Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo (2011), pp. 124-6

quarta-feira, 4 de junho de 2014

LÁ COMO CÁ

"Talvez a mais interessante e influente dessas disciplinas no nosso tempo tenha sido a da «educação». Foi inventada como disciplina académica para obter aval para uma nova visão da escola como local para produzir igualdade social, e não para reproduzir saber. Os peritos em educação deviam saber tudo acerca de psicologia, filosofia e sociologia da escolarização, e acerca do significado real - e até aqui mal entendido - da educação numa sociedade moderna. Contudo, não lhes é exigido que tenham qualquer conhecimento directo de um tema, nem qualquer verdadeiro crédito numa disciplina anteriormente reconhecida. Mesmo que não fossem competentes para entrar numa sala de aula e transmitir o saber que os alunos ali estavam para adquirir, eram os «peritos» em todas as matérias que tivessem a ver com o processo de o adquirir.
Sempre que tinham que ser tomadas decisões acerca de escolarização, programas e formação de professores eram os «educacionistas» que eram consultados - muitas vezes pessoas que tinham mostrado tão pouca capacidade de adquirir conhecimentos de uma verdadeira disciplina que tinham decidido aprender antes a ensiná-la. A sua agenda era uniformemente igualitária, centrada na criança e avessa ao conhecimento (...). O facto de os educacionistas não saberem nada com real siginificado nunca foi considerado como uma desvantagem. Pelo contrário, libertou as suas mentes para a missão de eliminar do programa todos esses obstáculos à falsa esperança que lá tinham sido plantados por gerações anteriores de estudiosos: obstáculos como o latim, o cálculo, o contraponto e a História nacional, os quais eram todos ensinados na escola e foram todos desde então efectivamente eliminados".

Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo (2011), p. 168

domingo, 11 de maio de 2014

A CONDIÇÃO HUMANA

 pelas palavras de Bertrand Russel, numa outra casa que também vou habitando: There Is No Spoon.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

NOÇÕES PANTEÍSTAS (XI)

"As the sun first shines upon the high peaks while the world is still lying in darkness, so He [the Buddha] illumined those whose aptitude was high with the doctrine of nonduality of the mind and the Buddha. He taught that infinite time is in one moment and that one moment is in infinite time; that one is many and many is in one, that is, that the universal is in the particulars and that the particulars are in the universal. He illustrated the infinitely interdependent relationship of time and space...".

Kükai, in Yoshito S. Hakeda, Kükai: Major Works, Columbia University Press, 1972

O ETERNO RETORNO

"But deranged men do not perceive their madness;
The blind are unaware of their blindness.
Born, reborn, and still born again,
Whence they have come they do not know.
Dying, dying, and dying yet again,
Where they go in the end they do not know".

Kükai, The Precious Key to the Secret Treasury (830 AD)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

UMA CRÍTICA

Wrightwood. Cal. 21 October, 1949

Dear Mr. Orwell,

It was very kind of you to tell your publishers to send me a copy of your book. It arrived as I was in the midst of a piece of work that required much reading and consulting of references; and since poor sight makes it necessary for me to ration my reading, I had to wait a long time before being able to embark on Nineteen Eighty-Four.

Agreeing with all that the critics have written of it, I need not tell you, yet once more, how fine and how profoundly important the book is. May I speak instead of the thing with which the book deals — the ultimate revolution? The first hints of a philosophy of the ultimate revolution — the revolution which lies beyond politics and economics, and which aims at total subversion of the individual's psychology and physiology — are to be found in the Marquis de Sade, who regarded himself as the continuator, the consummator, of Robespierre and Babeuf. The philosophy of the ruling minority in Nineteen Eighty-Four is a sadism which has been carried to its logical conclusion by going beyond sex and denying it. Whether in actual fact the policy of the boot-on-the-face can go on indefinitely seems doubtful. My own belief is that the ruling oligarchy will find less arduous and wasteful ways of governing and of satisfying its lust for power, and these ways will resemble those which I described in Brave New World. I have had occasion recently to look into the history of animal magnetism and hypnotism, and have been greatly struck by the way in which, for a hundred and fifty years, the world has refused to take serious cognizance of the discoveries of Mesner, Braid, Esdaile, and the rest.

Partly because of the prevailing materialism and partly because of prevailing respectability, nineteenth-century philosophers and men of science were not willing to investigate the odder facts of psychology for practical men, such as politicians, soldiers and policemen, to apply in the field of government. Thanks to the voluntary ignorance of our fathers, the advent of the ultimate revolution was delayed for five or six generations. Another lucky accident was Freud's inability to hypnotize successfully and his consequent disparagement of hypnotism. This delayed the general application of hypnotism to psychiatry for at least forty years. But now psycho-analysis is being combined with hypnosis; and hypnosis has been made easy and indefinitely extensible through the use of barbiturates, which induce a hypnoid and suggestible state in even the most recalcitrant subjects.

Within the next generation I believe that the world's rulers will discover that infant conditioning and narco-hypnosis are more efficient, as instruments of government, than clubs and prisons, and that the lust for power can be just as completely satisfied by suggesting people into loving their servitude as by flogging and kicking them into obedience. In other words, I feel that the nightmare of Nineteen Eighty-Four is destined to modulate into the nightmare of a world having more resemblance to that which I imagined in Brave New World. The change will be brought about as a result of a felt need for increased efficiency. Meanwhile, of course, there may be a large scale biological and atomic war — in which case we shall have nightmares of other and scarcely imaginable kinds.

Thank you once again for the book.

Yours sincerely,

Aldous Huxley 


Daqui.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O ETERNO RETORNO

"Um dia um certo número de indivíduos reúnem-se na praça pública:
Concorre a gente.
E começam a gritar:
A gente apinha-se.
Uma terça-parte garotos e vadios,
Outra, mulheres,
O resto, gente que vem ver - para rir - julgando que serão bêbados.
Ora um destes indivíduos sobe aos ombros dos outros e diz:
- O Povo geme! -
A multidão agita-se.
- A Liberdade é um direito santo!! -
A multidão freme.
- O Povo quer ser livre!!! -
A multidão urra.
- Derrubemos os tiranos!!!! -
A multidão rui.

Ora, outros indivíduos estão reunidos numa grande casa e dizem:
- O povo geme -
Logo, aumentem-se 5 por cento.
- A liberdade é um direito santo -
Logo, venha a censura.
- O povo deve ser livre -
Logo, triplique-se o exército
etc. etc. etc.
Outros aplaudem, e um copia estas falas num grande papel, que se imprime, consta, que para desfeitear a gramática.
Há quem boceje.

Enquanto isto se passa, o rumor dos homens da praça aproxima-se: os da casa, ouvindo-os fecham as portas; os outros bramem fora.
Nisto, outros homens vestidos de furta-cores apresentam-se e marcam passo.
Depois, ao toque dum instrumento de latão, e caindo sobre os outros, disparam vários tiros para o ar.
Alarido e confusão.

Temos aqui dous casos a considerar.

Se os primeiros levam a melhor neste exercício, abraçam-se uns e outros, grita-se muito, consome-se mais vinho; surgem Demóstenes, saqueia-se, arromba-se.
- E diz-se que o Soldado fraternizou com o Povo em nome da liberdade: viva o Povo e o Soldado! -
Há luminárias no Palácio da Câmara Municipal.
Os homens da casa grande evacuam a sala: os da praça tomam-lhes os lugares e começam a entrar na grande via das reformas.
Do seguinte modo.
- O povo gemeu -
Logo, aumentem-se 10 por cento.
- A Liberdade foi um direito santo...-
Logo, venha a censura e a multa.
- O povo deve ser livre -
Logo, tripliquem-se o exército e os cabos da polícia.
Outros copiam e imprimem, para pregar uma peça à gramática e ao senso comum.
Muita gente dorme; alguns ressonam.

Se os segundos (os da casa) levam a melhor, então passam-se as cousas dum modo muito diferente.
Arromba-se, saqueia-se, surgem Demóstenes, consome-se mais vinho, grita-se muito.
Os da casa dizem: «o Governo destruiu as 100 000 cabeças da hidra fatal da anarquia: fez reinar a ordem como convém a um governo forte, amante duma bem entendida liberdade: viva o Povo e o Soldado!» -
Além de tudo isso:
Põe luminárias o Palácio da Câmara Municipal.

Ora, no primeiro caso, os homens da casa grande vão para a praça pública.
E dizem:
- O Povo geme! -
- A liberdade é um direito santo! -
etc. etc. etc.
Apinha-se gente; vêm os furta-cores; tiros no ar; alarido e confusão.
Se são vencidos diz-se: - Reina a ordem em despeito da anarquia: viva o Povo e o Soldado! -
Se o contrário - A Liberdade derrubou ainda mais uma vez a fortaleza da infame tirania: viva o Soldado e o Povo! -
etc. etc. etc. e assim seguidamente.
Ora, a tudo isto se chama Ciência Política, ou arte de administrar os interesses gerais.
Em proveitos dos próprios."

Antero de Quental, O que toda a gente vê ou a política numa lição, 1861

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O QUE VALE PARA O RESPEITO VALE TAMBÉM PARA O ÓDIO


“É verdade que entre nós também alguns há que têm mais do que os outros. Honramos, assim, o chefe de tribo que possui mais esteiras e mais porcos. Mas o respeito que lhe testemunhamos é devido à sua pessoa e não às suas esteiras e aos seus porcos, que nós mesmos, aliás, lhe oferecemos como alofa, a fim de lhe exprimirmos a nossa alegria e louvarmos o seu ânimo valoroso e o seu espírito lúcido. O Papalagui, esse, tem respeito pelo grande número de esteiras e de porcos que o seu irmão possui, e não pelo seu valor e inteligência, que não lhe interessam para nada. Não tem por assim dizer nenhum respeito por um irmão que não possua esteiras nem porcos.”

Discursos de Tuiavii, Chefe da Tribo de Tiavéa, na ilha Upolu, Samoa, 1919 in O Papalagui (1987)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

CIVILIZAÇÃO

Fui roubar aqui ao João esta preciosidade:

"Tu, qu'inventaste as Sciencias e as Philosophias,
as Politicas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectaculo...
Tu, que aperfeiçoas a arte de matar...
Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho-Maritimo da India
e as duas Grandes Américas.
e que levaste a chatice a estas terras.
e que trouxeste de lá mais Chatos pr'aqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
pr'a te chateares também por debaixo d'agua...
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres...
Tu consegues ser cada vez mais bêsta
e a este progresso chamas Civilização!"

José de Almada-Negreiros, A Scena do Odio (1915)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

THE HANGOVER

"A large constituent of a hangover, after all, is a sense of guilt which does not seem to be guilt for anything in particular."

Herbert Mccabe, On Aquinas (2008)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

WORK AND PLAY

"Tom said to himself that it was not such a hollow world after all. He had discovered a great law of human action, without knowing it, namely, that, in order to make a man or a boy covet a thing, it is only necessary to make the thing difficult to attain. If he had been a great and wise philosopher, like the writer of this book, he would now have comprehended that work consists of whatever a body is obliged to do, and that play consists of whatever a body is not obliged to do. And this would help him to understand why constructing artificial flowers, or performing on a tread-mill, is work whilst rolling nine-pins or climbing Mont Blanc is only amusement. There are wealthy gentlemen in England who drive four-horse passenger-coaches twenty or thirty miles on a daily line, in the summer, because the privilege costs them considerable money; but if they were offered wages for the service that would turn into work, then they would resign".

Mark Twain, The Adventures of Tom Sawyer (1876)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

NOÇÕES PANTEÍSTAS (IX)

"One road there is, signposted in this wise:
Being was never born and never dies.
Four-square, unmoved, no end it will allow.
It never was, nor will be; all is now,
One and continuous. How could it be born
Or whence could it be grown? Unbeing?  - No -
That mayn't be said or thought; we cannot go
So far ev'n to deny it is. What need,
Early or late, could Being from Unbeing seed?
Thus it must altogether be or not."

Parmenides, (~500 BC)

[in H. Diels and W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratier, 1951, translated and quoted by Anthony Kenny, A New History of Western Philosophy (2010)]

NOÇÕES PANTEÍSTAS (VIII)

"Eternity, then, is the whole, simultaneous and perfect possession of boundless life, which becomes clearer by comparison with temporal things. For whatever lives in time proceeds in the present from the past into the future, and there is nothing established in time which can embrace the whole space of its life equally, but tomorrow surely it does not yet grasp, while yesterday it has already lost. And in this day to day life you live no more than in that moving and transitory movement. Therefore whatever endures the condition of time, although, as Aristotle thought concerning the world, it neither began ever to be nor ceases to be, and although its life is drawn out with the infinity of time, yet is not yet such that it may rightly be believed to be eternal. For it does not simultaneously comprehend and embrace the whole space of its life, though it be infinite, but it possesses no future yet, the past no longer. Whatever therefore comprehends and possesses at once the whole fulness of boundless life, and is such that neither is anything future lacking from it, not has anything past flowed away, that is rightly held to be eternal, and that must necessarily both always be present to itself, possessing itself in the present, and hold as present the infinity of moving time."

Boethius, The Consolation of Philosophy (524 AD)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O QUE SE ESQUECE

"[N]ada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmente feliz - como a guerra. É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo."

Eça de Queiroz, Singularidades de Uma Rapariga Loura (1902)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

NOÇÕES PANTEÍSTAS (VII)

"Assim jantámos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois voltámos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a contemplar silenciosamente um sumptuoso céu de Verão, tão cheio de estrelas que todo ele parecia uma densa poeirada de ouro vivo, suspensa, imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros - que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou, se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante Natureza - os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de um monte como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de perto, rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos são obra da mesma vontade. Todos vivem da acção dessa vontade imanente. Todos, portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituem modos diversos de um ser único, e através das suas transformações somam na mesma unidade. Não há ideia mais consoladora do que esta - que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que, agora, se esconde são moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos nós? Formas sem força, que uma Força impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem ele nem eu sabíamos os nomes desses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque da sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados sobre astronomia! Mas que nos importava, de resto, que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno - e em nós havia o mesmo Deus. E se eles também assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, eles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça - que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante un instante, na consciência, a nossa divinização."

Eça de Queiroz, Civilização (1892)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

WHY PHILOSOPHY MATTERS

"During St. Thomas' second sojourn at Paris (1268-1272), masters and scholars were discussing Averroes' views on the intellect. Even less erudite men were aware of the doctrine that there is only one intellect for the whole human race. William of Tocco, an early biographer of Thomas Aquinas, tells of a certain soldier at Paris who was unwilling to atone for his sins because, as he put it: "If the soul of the blessed Peter is saved, I shall also be saved; for if we know by one intellect, we shall share the same destiny."

Beatrice Zedler, On The Unity of The Intellect Against The Averroists: Introduction (1968)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

THE WAIT

"A rustic fellow waiteth on the shore
For the river to flow away,
But the river flows, and flows on as before, And it flows forever and aye."

Horace

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

DAS LÁGRIMAS

"E todavia, meu amigo, se um bom silogismo vale muito, uma lágrima bem quente, bem viva e bem sentida, deve valer tanto - ou muito mais ainda. O peso de uma lágrima! Leve cousa, talvez, na palma da mão de um filósofo, acostumada a levantar a mole espantosa dos argumentos, dos sistemas, das ciências. Mas quando sobre o coração nos cai, duns olhos que Deus fizera para a luz e para a ventura, e a que a vida só deu sombras e abrolhos - então! sente-se-lhe bem o peso, a essa pobre gota de água, e não há aí já peito de bronze que não vergue e se abale, como se tocasse o dedo invisível de uma divindade..."

Antero de Quental, O Sentimento da Imortalidade [Carta ao Sr. Anselmo de Andrade] (1865)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PARA OS SENHORES CONTRA-SISTEMA (e a extrema-esquerda em geral)

"Os optimistas inescrupulosos acreditam que as dificuldades e as desordens da espécie humana podem ser vencidas por um ajustamento em grande escala: basta inventar um novo arranjo, um novo sistema, e as pessoas serão libertadas da sua prisão temporária para um reino de sucesso. Quando se trata de ajudar os outros, portanto, todos os seus esforços são postos no esquema abstracto do melhoramento humano e absolutamente nenhum na virtude pessoal que lhes podia permitir o desempenho do pequeno papel que aos humanos é atribuído na na melhoria da sorte dos seus semelhantes. A esperança, no seu quadro mental, deixa de ser uma virtude pessoal que modera as dores e os problemas, que ensina a paciência e o sacrifício e que prepara a alma para o agape. Torna-se, em vez disso, um mecanismo de transformação dos problemas em soluções e da dor em exultação, sem fazer uma pausa para estudar a evidência acumulada da natureza humana, que nos diz que único melhoramento que está sob o nosso controlo é o melhoramento de nós próprios."

Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo (2009)