Duma coisa em que ando a trabalhar (outra vez) mas que está dentro do tópico dos últimos posts:
"... Mas não é esse o nosso caminho, não apenas porque a velocidade é inimiga da qualidade mas também porque andar a contar as coisas a correr prejudica, ou impede mesmo, a profundidade do relato. Afinal, depressa e bem, não há quem. Além disso, dirão ainda outros, o mais importante da vida é aceitar que é a viagem que vale as penas e os sacrifícios, e não o destino, ou o fim. Senão, fossem os resultados apenas aquilo que interessa, fossem os fins, e não os permeios, aquilo que contasse, e todos os leitores se voltariam logo para as páginas finais dos livros, afinal de contas, para quê perder tempo com tretas quando podemos ficar logo a conhecer o final da estória? Se dúvidas houvesse de que é no aproveitar o caminho, mesmo com as pedras onde vamos tropeçando, ou melhor, principalmente com as pedras que se nos vão atravessando pela frente, é na viagem, nos durantes, nos entretantos, na perseverança e na subsistência, em suma, na existência, para não dizer mesmo: na vivência, que se faz a vida e não, como os marquetistas tanto nos fazem acreditar, que é sempre com a próxima página, no capítulo seguinte, a correr, depressa, vamos lá, é sempre ali, no momento seguinte àquele em que estamos agora, que residirá a felicidade da vida ou, no que concerne a presente metáfora, o gozo de um relato literário. Assim fosse e, em última instância, para os pobres humanos, a felicidade residiria apenas na campa, talvez naqueles dizeres gravados na pedra que fazem companhia aos cadáveres em decomposição. Aí, no verdadeiro e triste fim, parece-nos a nós que a haver felicidade apenas esta existirá nos ecos recordadores dos entretantos que àqueles, agora ali finados, em dias passados lhes aconteceram. Por isso, lembremo-nos nós dos que já foram, guardêmo-los em mente, para que possamos, nem que seja por respeito à sua memória, aproveitarmos nós o luxo da existência, mesmo quando a malandra teima em não nos fazer as vontades todas".
Mostrar mensagens com a etiqueta NADA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta NADA. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 4 de junho de 2014
OS VENDEDORES DE SONHOS
Curiosamente, facto estranho e que merece a mais atenta e precisa investigação, é precisamente de imposições sobre o que havemos e devemos de fazer que se fazem as nossas vidas. É de conselhos sobre o bom, e perfeito, que tudo pode ser se fizermos, acreditarmos, seguirmos, concretizarmos ou comprarmos o que quer que seja que nos estão a vender. E vendem mesmo. Talvez a grande característica dos nossos tempos, vidas de suposta e desejada liberdade, seja a grande quantidade de pessoas que se dedicam à venda, ao lucro, ao marqueting, pessoas tão altruístas que baseiam a sua existência no satisfazer as necessidades dos clientes, dos consumidores, sim, somos nós esses, mais do que pessoas, o paradigma do século vinte e um é que somos clientes e consumidores, números num balancete comercial, pessoas é só às vezes, cidadão é termo que não interessa, não, não interessa a ninguém, claro que não, não é uma necessidade dos clientes consumidores essa estranha coisa de querer ser-se cidadão. E tanto mais estranhos são estes tempos em que vivemos que são uns poucos, uns quantos, um número mínimo de pessoas que andam a dizer aos outros, a todos, à maioria, quais são as coisas de que precisam. É assim mesmo: alguns idealizam, uns poucos constroem e uns quantos marquetizam, criam necessidades e dizem-nos a todos como devemos ser felizes. Estranho mundo este onde uns poucos nos dizem o que necessitamos. Talvez fizesse mais sentido ao contrário, talvez o mundo se devesse virar de pernas para o ar, e os rios nasciam no mar, indiferente, o que quer que seja, talvez devêssemos nós achar que somos todos inteligentes o suficiente para sermos capazes de saber quais são as nossas próprias necessidades, talvez os marquetistas devessem andar a falar com as pessoas e a ouvir aquilo que lhes faz falta, talvez devessem andar esses marquetistas a tentar convencer os poucos que constroem sobre aquilo que os muitos querem, em vez de andar a convencer os muitos sobre o que os poucos decidiram querer vender. Mas enfim, são estes mundos ideais coisas da imaginação e do devaneio, não é assim que as coisas funcionam, nem poderiam funcionar, claro que não, onde estávamos nós com a cabeça. Ficam os sonhos para o mundo dos sonhos, voltemos nós aos nossos pesadelos, talvez seja isso mesmo, talvez o nosso maior pesadelo seja esse de nem sequer sabermos que necessidades temos. E logo vêm os vendedores de sonhos. Logo vêm eles com um sorriso na cara mostrarmo-nos como é tão fácil sermos mais felizes se tivermos aquela nova coisa inventada pelos melhores e maiores especialistas que nos vai satisfazer aquela necessidade que nós nem sequer sabíamos que tínhamos. Como era possível viver sem tal coisa, perguntamo-nos nós, estamos aqui para o servir, diz o vendedor de sonhos, não se preocupe, é só assinar aqui, passar aqui o cartão, endossar aqui o cheque, pode ser a débito, crédito, prestações, endivide-se, gaste, faça como quiser, não se preocupe com mais nada, agora goze o produto e seja feliz. E depois a novidade passa, a felicidade não apareceu, afinal tenho todos aqueles problemas para resolver, o miúdo que não estuda, o dinheiro que afinal fazia falta, o Amor, a Confiança que não existem, pois é, maleitas do espírito, e para essas os vendedores de sonhos não têm solução. Aliás, talvez seja precisamente por isso que a felicidade tarda em aparecer, talvez esta se faça com as coisas do espírito e do coração, coisas de difícil e árduo caminho, e não tanto com as coisas que com uma assinatura e um cheque passamos a ter. Talvez a felicidade se faça mais de ser e menos de ter. Mas isso os marquetistas não dizem. Não podem. Porque coisas do ser não se vendem. Enfim. Ficam as dores de quem escreve, os lamentos de quem vê, tantos e tantos e tantos a comprarem tanto e tanto e tanto e depois, falta qualquer coisa, pois, é isso, falta qualquer coisa e lá vão eles comprar mais tantos e tantos e tantos, esquecendo-se que se não foi à primeira que resultou porque diabo haveria de resultar agora. E é assim. É mesmo de vendedores de sonhos que se fazem os dias da nossa infelicidade. E a malta comprou esses sonhos. E um dia há-de perceber que se há uma coisa de que a felicidade não se faz de certeza é dos sonhos dos outros.
Etiquetas:
NADA
segunda-feira, 2 de junho de 2014
UM PROCESSO (V)
A felicidade como um processo é também uma libertação face à escravidão que é
aquela obrigação de ter que ser-se qualquer coisa que o nosso 'eu'
passado, e forçosamente mais ignorante, estabeleceu como um objectivo de
existência para o nosso futuro, condicionando-o. Se a isto juntarmos a
noção de que muitos destes "objectivos de felicidade" advêm de
marqueting comercial, pressão social, desígnios familiares, ou simples
devaneios mais infantis, percebemos então que a felicidade como um processo, e a consequente permanente revisão dos objectivos, é uma forma muito mais autêntica, e por isso também feliz, de viver a vida.
Etiquetas:
NADA
UM PROCESSO (IV)
Imaginar a felicidade como um resultado final estático, e permanente, tem ainda outra dificuldade: um sucesso é um passo na direcção certa, mas um insucesso é um fracasso e, por conseguinte, um passo na direcção oposta. Assim, os insucessos tornam-se motivos de grande angústia e impeditivos de viver o dia-a-dia com tranquilidade. Pior ainda, por vezes são motivo de vergonha, sentimentos de fracasso, derrota, etc.. Já para quem interpreta a vida feliz como um processo de aprendizagem, e porque aprendemos por tentativa e erro, então os insucessos são mais facilmente aceites porque implicam crescimento, mais sabedoria e, naturalmente, entendem-se como fazendo parte da vida feliz.
Etiquetas:
NADA
UM PROCESSO (III)
Outra dificuldade dos neuróticos e obsessivos perseguidores da felicidade futura consubstanciada num resultado final particular é a incapacidade de adaptação do próprio objectivo. Fará sentido um homem de quarenta anos perseguir uma imagem do seu 'eu' futuro que estabeleceu como seu objectivo final de felicidade quando tinha apenas vinte anos? Só se não tiver aprendido nada entretanto.
Etiquetas:
NADA
UM PROCESSO (II)
Como podem os jovens guiados pela mentalidade, e pelo desejo, do resultado final, que andam sempre em busca daquele momento futuro para onde correm sem parar, sempre a sonhar com o seu 'eu' futuro onde serão directores, chefes, presidentes, isto ou aquilo, sempre a ansiar pelo tempo em que os seus sonhos se concretizam, em que vivem de facto a vida perfeita, como podem esses jovens correr com tanta vontade para tamanhos desígnios, se a concretização desses mesmos sonhos significa, também, e inevitavelmente, que então serão velhos - porque só os velhos são directores, chefes, presidentes, isto ou aquilo - e que a maior parte da vida já terá passado por eles, significando isto que passaram a vida a acelerar apenas para chegarem mais rápido à proximidade do fim? Querer ser-se algo que não se é, e desejar que esse algo chegue rápido, apenas pode significar querer que a vida, e ela já é tão breve!, passe mais depressa. Uma estupidez, portanto. Uma estupidez própria de crianças, porque apenas as crianças vivem na ilusão de que a vida é eterna. A vida feliz, pelo contrário, é aquela que se contenta, e se satisfaz, com o processo de transformação, e não apenas com o resultado final. Aliás, de tudo o que há, aquilo que menos interessa será precisamente esse resultado final pois nele apenas consiste a morte e o fim de tudo o que nos faz, ou poderia ter feito, felizes.
Etiquetas:
NADA
quinta-feira, 29 de maio de 2014
UM PROCESSO
Jogar o jogo da vida, com afinco e perseverança, sempre sem desistir, quando se sabe que a inevitabilidade da morte espera, sempre serena e eternamente, no final de todo e qualquer caminho que se escolha é, ao mesmo tempo, uma loucura e a salvação. Loucura, porque todo e qualquer esforço encontrará sempre o mesmo resultado: considerando a inevitabilidade da morte a que a condição humana nos condena, nada, em última instância, sobreviverá. A única garantia será, então, que, no final, perdemos sempre e que todos os esforços de uma vida resultarão, ingloriamente, na inutilidade da irrelevância e do esquecimento. Salvação, porque é a única escolha que permite a felicidade: não pode ser feliz aquele que não aceita a sua condição. É preciso, no entanto, uma certa dose de sabedoria para que se entendam estas duas coisas simultaneamente: apenas aceitando a absoluta inutilidade objectiva de todo e qualquer esforço pode compreender-se que, se o resultado final é a morte, então a satisfação subjectiva terá que residir durante o jogo e nunca nesse resultado final. Assim, a felicidade será, forçosamente, um processo, um caminho e não um fim. Uma escolha do momento em que se vive, portanto, e não um objectivo sempre atirado para um futuro, que por ser futuro, e um pretenso resultado final, estará sempre longe demais, isto até ao dia em que simplesmente deixará de estar. Assim, atingir esse momento feliz não poderá nunca passar por um plano de vida, um
cardápio de bens materiais ou uma receita de químicos receitados (ou
não). Pelo contrário, o momento feliz é uma
escolha que, aceitando, e assumindo, a loucura da vida, a própria irrelevância e libertando-se de todas
essas receitas, cardápios ou planos, se realiza no imediato. E é ao gozar o momento feliz que todos os esforços, tal como a vida, apesar de inúteis, irrelevantes ou mesmo cómicos de tão estúpidos que são, passam a fazer sentido, e a serem motivo de satisfação, mesmo que em última instância seja um sentido para lado nenhum. O sentido encontrado, ou a felicidade experimentada, estão então numa satisfação presente e não num futuro inexistente, se bem que antecipado. No final, o único esforço verdadeiramente inútil será precisamente aquele que é efectuado em busca da felicidade: para ser-se feliz, basta viver-se com vontade. Ou seja, feliz está aquele a quem não lhe ocorre perguntar-se se é feliz.
Etiquetas:
NADA
sexta-feira, 9 de maio de 2014
SAFEM-SE OS CARACÓIS
Vou a Portugal para a semana durante mais ou menos quinze dias. Não me apetece. Não tenho vontade. É uma tristeza, mas é verdade. Sinto-me como se, mal ponha o pé no chão do aeroporto, vá dar imediatamente de caras com os lunáticos da extrema-esquerda que gritam, gritam, gritam sem parar, que querem tudo e mais umas botas mas desde que seja de borla, sem pagar, ou os outros, "os ricos", esses cabrões, que paguem. Depois desses, aparecem-me os aldrabões socialistas, aqueles que levaram o país à bancarrota e que agora assobiam para o ar. Pior, insistem eles, os socialistas, aos gritos, naturalmente, que as políticas que nos levaram à bancarrota estavam certas e que, pasme-se, serão aquelas que nos vão salvar agora (da bancarrota que essas mesmas políticas causaram). Aldrabões sem vergonha. A sério: que bando de salafrários. Depois, vem o governo assaltar-me de pistola em punho. Se lhes perguntar pela reforma do Estado, qual reforma do Estado pergunta o Passos Coelho?, e eu respondo: aquela que diziam que faziam e que, passados três anos, nem um vislumbre, ah, essa?, pergunta o Portas, essa é a seguir à eleições. O melhor é estar calado, penso eu, enquanto fujo desagradado pelos apalpões dos guardas fronteiriços, está calado Nuno, baixa a cabeça, passa despercebido, e dá graças a Deus por ainda te deixarem comer umas bifanas sem pagar taxa de gordura. A seguir, aparecem-me os senhores das repartições, cheios de carimbos e agrafadores, a exigir as taxas e os impostos que eu estou farto, fartinho de pagar (onde é que eu estava com a cabeça ao querer investir em Portugal?) e a explicarem-me tintim por tintim por que razão é que eu é que sou louco ao achar que três anos são mais do suficientes para se aprovar um projecto de investimento económico numa zona desfavorecida do país. A seguir a esses, aparecem os fiscais, os sub-fiscais e os para-fiscais das câmaras a demonstrar como tudo está mal feito, como assim não pode ser aprovado, onde é que já se viu tal coisa, nem pensar, pague lá taxa, a sub-taxa, a para-taxa, a da câmara, a da direcção regional, a da rede natura, a do parque natural, a do instituto de conservação da natureza, esta é a dobrar porque tem casa e tem anexo, e a seguir, calma lá, não pode pôr o anexo, diz o da câmara, mas o do instituto diz que o anexo pode ser, a casa é que não, pelo menos não ali. E aí, desesperado, eu, de rastos, ali no aeroporto, grito que se altera o projecto, só não me obriguem a voltar ao início do procedimento, o procedimento são mais dois anos, porra isso é que não, entretanto, passo ali no multibanco, saca da carteira, paga ao arquitecto, paga ao engenheiro, paga o certificado energético (e aquele bando de parasitas que vivem à conta da invenção estatal da obrigatoriedade do certificado energético), paga o certificado telefónico (mesmo que não tenha rede telefónica), paga o certificado de ruído (mesmo que não haja vizinhos), e depois, toma lá, agora espera mais seis meses pela resposta à tua última carta. E depois de todos esses, lá vêm os senhores do sindicato, e os senhores da função pública atrás, todos com bandeiras vermelhas e boinas do Ché Guevara, a explicar - aos gritos, claro - por que excelsa razão todos estes serviços, sub-serviços e para-serviços, mais os seus coordenadores, sub-coordenadores e para-coordenadores, devidamente acompanhados das taxas, das sub-taxas e das para-taxas, são absolutamente fundamentais para salvação da pátria, para a solidariedade, fraternidade e felicidade de todos, incluindo a minha. Finalmente, após três ataques de fúria e um de ansiedade, mais uma depressão e uma desesperada fuga à realidade rumo à esperança que no "futuro isto mude" (nunca vai mudar), talvez consiga aguentar até ao café mais próximo, mesmo que a roer as unhas e a falar sozinho porque já me sinto tão maluquinho quanto aqueles que para aí andam a falar nas televisões e a escrever nos jornais, mas dizia, talvez aguente até ao café mais próximo para comer uns caracóis e ver o Benfica. Talvez. Talvez. Pois. É como vos dizia: não me apetece. Mesmo nada. Acho que é uma espécie de alergia.
Etiquetas:
NADA
segunda-feira, 28 de abril de 2014
DESVIO E NORMA
Dizia o Frank Zappa, e bem, que sem desvio da norma o progresso não é possível. Utilizada para explicar a rebeldia, mesmo aquela sem causa, esta frase bem tem servido como o hino dos progressistas supostamente contra os conservadores. Eu não vejo a coisa assim. O verdadeiro conservadorismo não reside em impedir o desvio contra a norma mas, muito mais importante, em compreender que sem norma não há nada do qual alguém se possa desviar. Ou seja, sem norma não há igualmente progresso, apenas sobra o caos.
Etiquetas:
NADA
sexta-feira, 21 de março de 2014
ELOGIO À ROTINA
Ao contrário da ideia modernaça de que as rotinas são "aborrecidas", parece-me que a rotina é parte da salvação para uma vida feliz. A rotina, desde aquela que embala o bebé até aqueloutra que nos ocupa manhãs, tardes e - ou noites, não passa de um processo de repetição que, precisamente por repetir-se, nos oferece a sensação momentânea de um movimento perpétuo. É uma magnífica ilusão, a rotina. É através daquela repetição que podemos experimentar um momento sem fim, porque aparentemente eternamente recorrente: a eternidade, portanto. Da mesma forma, nas traseiras da nossa mente, com a ilusão da perpetuidade, dá-se a decorrente superação, através do momentâneo esquecimento, do conhecimento que todos carregamos da nossa própria mortalidade. A libertação, portanto.
Etiquetas:
NADA
segunda-feira, 17 de março de 2014
DISTINÇÕES
A separação ontológica entre o que é um pacóvio, o que é um estúpido, ou um simples atrasado mental, é fundamental e interessante. Os primeiros, os pacóvios, têm vistas curtas. Não conhecem o mundo, não percebem que há vida para lá da montanha que enxergam da varanda da sala (ou, os tempos são modernos, para lá do prédio da frente) e, por desconhecimento e simples acanhamento mental, fecham-se no que conhecem, repetindo rotinas e hábitos que, mesmo desconhecendo que outras rotinas e hábitos poderiam ter, afirmam como sendo as melhores possíveis. Os segundos, os estúpidos, são pacóvios mas já com a mania que são espertos: eles acham que sabem mais do que aqueles que, não sendo pacóvios, sabem mesmo mais do que eles. Mas como o estúpido acha que domina o pequeno mundo que pacoviamente conhece, e não vendo mais mundo para lá desse, imagina-se então a dominar o mundo inteiro. Os estúpidos, naturalmente, acham-se sempre os maiores. Já os terceiros, os atrasados mentais, são aqueles que são pacóvios, estúpidos e, pior, são aqueles também que, ofendendo-se com a vontade que aqueles que, não sendo estúpidos nem pacóvios, têm de ir mais além e de conhecer e conquistar o mundo que está para lá da ponta do nariz, acabam a minar deliberadamente os esforços dos outros porque os outros não podem ser mais do que eles. Os atrasados mentais, na preguiça, e cobardia, de não se quererem melhorar, impedem o melhoramento dos outros. São os que puxam para baixo. São os que maldizem, à boca pequena e de mão à frente da dita, os sucessos dos outros, que não suportam, mesmo que inconscientemente, porque esses sucessos apenas os fazem sentir pior sobre a sua própria pacóvia e estúpida pequenez. São os que invejam e conspiram contra os que têm aquilo que eles sonham ter - e nada mais fazem por isso além de sonhar. São mesquinhos. São pequeninos, muito pequeninos, e condenam também, através da sua constante sabotagem, os alvos da sua ira a uma igual pequenez. É uma maldição, a atrasadice mental. E é, infelizmente, uma maldição que abunda em Portugal.
Etiquetas:
NADA
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
DO LUTO CIBERNÉTICO
Se eu penso que o Nelson Mandela era um grande homem? Penso. Se eu penso que a necessidade que milhares de pessoas sentem de ir para as redes sociais postar citações de Mandela - que na sua esmagadora maioria nunca leram -, apenas movidas por um ligeiro frémito de exaltação momentânea, para logo a seguir regressar à banalidade da vida comum sem mais um pensamento sobre a figura, ou o significado para o mundo dessa figura, como se uma citação lida na diagonal e rapidamente copiada de um qualquer sítio cibernético já fizesse a obrigação, consiste num exercício de triste superficialidade, demagogia social e hipocrisia? Sim, penso. Agora linchem-me.
Etiquetas:
NADA
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
DEZ
Bem lembrado pelo meu amigo João, cumpre-me anunciar ao mundo cibernético que este blog fez em Outubro dez anos de existência. É qualquer coisa, sim senhor. Fica um obrigado àqueles que o vão seguindo e um compromisso: enquanto houver estrada para andar, enquanto houver ventos e mares, a gente cá vai continuar. Fica a esperança que por muitos mais anos ainda.
Etiquetas:
NADA
MUNDOS DIFERENTES, MUNDOS IGUAIS
Ele, pela cozinha, anda de volta do medronho, da aguardente e do açúcar, atarefado com um funil improvisado e um garrafão de cinco litros, tudo isto para fazer um licor. Ela entra na cozinha e exclama mal impressionada: "xiii, que cheiro a bagaço!". Mais tarde, ela, pela sala, ao som da rádio, anda de volta dos dedos dos pés, do verniz e da acetona. Ele entra na sala e exclama desagradado: "epá, que cheiro a acetona!" E isto é o tão igual quanto o que é diferente poderá algum dia ser igual.
Etiquetas:
NADA
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
NO EXÍLIO
Longe das trombas dos caciques locais que precisam, pedem, suplicam ou, pior, exigem os nossos votos, vou até Bailly para ler o meu livro em paz, enquanto bebo uma (ou duas) tripel karmeliet. É uma estranha - e triste - sensação de alívio, esta que me assalta ao ver-me longe da claustrofóbica mediocridade política, mediática e burocrática tuga.
Etiquetas:
NADA
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
A CIDADE E OS CAMPOS
De regresso à metrópole apetece-me comentar: na cidade, essa bolha que nos separa do mundo de predadores e caçados, tudo gira a uma enorme velocidade. Aí, na cidade, a única constante das nossas vidas somos de facto nós próprios: tudo o resto muda num constante fluxo de eterna (ilusória, é certo) mudança. Mas no campo, imersos no mundo verdadeiro, aí, a estória é outra: parados, debaixo de um chaparro ou em cima de um monte, deparamo-nos com um cenário que não muda, um cenário que é constante. E aí, na presença do imutável mundo que nos engole compreendemos que quem varia, que quem representa o movimento e a mudança, somos afinal nós. O contraste não poderia ser maior: na cidade, sendo nós a constante, agarramo-nos ao certo, ou seja a nós próprios: daí o individualismo, o egoísmo, a obsessão para que o corpo não mude, que não envelheça, etc. Já no campo, compreendendo que o fluxo imemorial que manda no mundo somos também, e principalmente, nós, então, sendo outra a constante, mergulhamos nela - no mundo - em busca da certeza que, na cidade estando em nós próprios, no campo é forçosamente exterior (e muito maior!) do que nós, é uma certeza que está nos outros e no mundo. É, por esta razão, outro mundo em que se vive: a comunidade ganha um peso que no egoísticamente individualizado mundo das mecânicas cidades nunca poderia ter. A ligação ao mundo, aos ciclos das noites e dos dias, das Primaveras e dos Verões, ganha uma força que nos transcende e nos inspira. Enquanto isso, na cidade, dentro de um centro comercial, nem se sabe se faz sol ou lua. Aí, as luzes eléctricas escondem a via láctea e as estrelas às quais pertencemos. No campo, vive-se e morre-se ao ritmo do mundo; na cidade, as crianças mimadas irritam-se por haver falta de morangos no Inverno.
Etiquetas:
NADA
THE HANGOVER
"A large constituent of a hangover, after all, is a sense of guilt which does not seem to be guilt for anything in particular."
Herbert Mccabe, On Aquinas (2008)
Herbert Mccabe, On Aquinas (2008)
Etiquetas:
LITERATURA,
NADA
terça-feira, 9 de julho de 2013
O MITO DA CONDENAÇÃO
Sísifo foi condenado, para sempre, a empurrar a pedra até ao cimo da montanha apenas para a ver rebolar de novo encosta abaixo. Foi condenado, atente-se. No entanto, eu permito-me duvidar desta condenação: se não fosse o acto de empurrar a pedra o que restaria a Sísifo que fosse capaz de o entreter? Por outras palavras: o que justificaria a sua existência? Podemos ver a pedra como uma condenação mas também podemos vê-la como a limitação que nos confere a existência: cada um tem a sua.
Etiquetas:
NADA
O PREÇO
Heraclito explicava que a nossa existência se separava da harmonia universal pela tensão entre opostos, uma espécie de limitação subjectiva em relação ao todo. É uma ideia importante: se estamos vivos, então estamos contidos - limitados - numa tensão permanente, numa espécie de conflito permanente entre antagonismos. Esta é a primeira grande aprendizagem do verdadeiro conservador: não pode haver uma verdadeira solução que traga a paz e a harmonia - a perfeição - pois a nossa condição humana não o permite: a harmonia é no plano do todo: o divino, portanto. A nossa limitação comprova-se com facilidade: a vida tem valor porque morremos; e o preço que pagamos por viver é a angústia da morte. Da mesma forma, a insatisfação permanente é o preço que pagamos por termos coisas com que nos satisfazemos. Não há almoços grátis.
Etiquetas:
NADA
sábado, 25 de maio de 2013
DO OPTIMISMO
Se se quer ter uma boa demonstração do intrínseco optimismo decorrente de uma quase inabalável crença no progresso tecnológico como algo inevitável e rápido basta pensar-se que a Odisseia de Kubrick passa-se em 2001 e a acção de Blade Runner em 2019. Até mesmo o cúmulo do pessimismo - a catástrofe distópica do fim da civilização - de Terminator previa que os computadores acordassem em 1997. Entretanto, em 2013, o vai-e-vem espacial foi descontinuado, o Concorde abatido, os carros não voam, as pessoas ainda comem e bebem (cada vez mais), a CDU continua com 10% dos votos e, imagine-se!, uma revolucionária alternativa ao papel higiénico ainda não apareceu. Futuro? Qual futuro?
Etiquetas:
NADA
Subscrever:
Mensagens (Atom)