"In the world today individual stupidity and wickedness are forgiven more easily than failure to be identified with a recognised party or attitude, to achieve an approved political or economic or intellectual status. In earlier periods, when more than one authority rules human life, a man might escape the pressure of the State by taking refuge in the fortress of the opposition - of an organised Church or dissident feudal establishment. The mere fact of conflict between authorities allowed room for a narrow and shifting, but still never entirely non-existent, no man's land, where private lives might still precariously be lived, because neither side dared to go too far for fear of too greatly strengthening the other. Today the very virtues of even the best-intentioned paternalistic State, its genuine anxiety to reduce destruction and disease and inequality, to penetrate all the neglected nooks and crannies of life which may stand in need of its justice and its bounty - its very success in those beneficent activities - have narrowed the area within which the individual may commit blunders, and curtailed his liberties in the interest (the very real interest) of his welfare or of his sanity, his health, his security, his freedom from want and fear. His area of choice has grown smaller not in the name of some opposing principle - as in the ark Ages or during the rise of nationalities - but in order to create a situation in which the very possibility of opposed principles, with all their unlimited capacity to cause mental stress and danger and destructive collisions, is eliminated in favour of a simpler and better regulated life, a robust faith in an efficiently working order, untroubled by agonising moral conflict".
Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p. 91
sábado, 7 de maio de 2016
sexta-feira, 6 de maio de 2016
THE SHIFT
"In western Europe this tendency has taken the milder form of a shift of emphasis away from disagreement about political principles (and from party struggles which at least in part sprang from genuine differences of outlook) towards disagreements, ultimate technical, about methods - about the best ways of achieving that degree of minimum economic or social stability without which arguments concerned with fundamental principles and the ends of life are felt to be 'abstract', 'academic' and unrelated to the urgent needs of the hour. It leads to that noticeably growing lack of interest in long-term political issues - as opposed to current day-to-day economic or social problems - on the part of the populations of the Western European continent which is occasionally deplore by shocked American and British observers, who mistakenly ascribe it to the growth of cynicism and disenchantment with ideals.
No doubt all abandonment of old values for new may appear to the surviving adherents of the former as conscienceless disregard for morality as such. If so, it is a great delusion. There is all too little disbelief, whether conscienceless or apathetic, in the new values. On the contrary, they are clung to unreasoning faith and that blind intolerance towards scepticism which springs, as often as not, from an inner bankruptcy or terror, the hope against hope that here at least is a safe haven, narrow, dark, cut off, but secure. Growing numbers of human beings are prepared to purchase this sense of security even at the cost of allowing vast tracts of life to be controlled by persons who, whether consciously or not, act systematically to narrow the horizon of human activity to manageable proportions, to train human beings into more easily combined parts - interchangeable, almost prefabricated - of a total pattern. In the face of such a strong desire to stabilise, if need be, at the lowest level - upon the floor from which you cannot fall, which cannot betray you, let you down - all the ancient political principles begin to vanish, feeble symbols of creeds no longer relevant to new realities".
Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p.83
No doubt all abandonment of old values for new may appear to the surviving adherents of the former as conscienceless disregard for morality as such. If so, it is a great delusion. There is all too little disbelief, whether conscienceless or apathetic, in the new values. On the contrary, they are clung to unreasoning faith and that blind intolerance towards scepticism which springs, as often as not, from an inner bankruptcy or terror, the hope against hope that here at least is a safe haven, narrow, dark, cut off, but secure. Growing numbers of human beings are prepared to purchase this sense of security even at the cost of allowing vast tracts of life to be controlled by persons who, whether consciously or not, act systematically to narrow the horizon of human activity to manageable proportions, to train human beings into more easily combined parts - interchangeable, almost prefabricated - of a total pattern. In the face of such a strong desire to stabilise, if need be, at the lowest level - upon the floor from which you cannot fall, which cannot betray you, let you down - all the ancient political principles begin to vanish, feeble symbols of creeds no longer relevant to new realities".
Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p.83
sábado, 9 de abril de 2016
THE CHOICES
"So Marvin and I had reached a crucial point, a juncture to which full awareness inevitably leads. It is the time when one stands before the abyss and decides how to face the pitiless existential facts of life: death, isolation, groundlessness and meaninglessness. Of course, there are no solutions. One has a choice only of certain stances: to be "resolute", or "engaged", or courageously defiant, or stoically accepting, or to relinquish rationality and, in awe and mystery, place one's trust in the providence of the Divine".
Irvin D. Yalom, Love's Executioner and Other Tales of Psychotherapy, 1989, p.260
Irvin D. Yalom, Love's Executioner and Other Tales of Psychotherapy, 1989, p.260
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segunda-feira, 28 de março de 2016
ALGUMAS NOTAS SOBRE O TERRORISMO E O MOMENTO QUE VIVEMOS
1. Em primeiro lugar, é preciso compreender, ou melhor, aceitar, que quem reivindica os atentados é o Estado Islâmico, que quem os pratica são muçulmanos e que estes assumidamente o fazem em nome do Islão. Podemos falar de muitas razões socio-politico-culturais mas, factualmente, aquilo que resume, e abarca, todo o processo terrorista é uma defesa religiosa, radical e violenta de uma religião em particular: o Islamismo. O terrorismo a que assistimos é, portanto, terrorismo islâmico.
2. Ao contrário do que muitos possam pensar o nível de sofisticação dos atentados é extremamente baixo: os explosivos são rudimentares e frequentemente nem funcionam, os planos são básicos e pouco elaborados, os meios utilizados são reduzidos e pouco imaginativos, e as capacidades técnico-tácticas dos terroristas vão pouco mais longe da vontade básica de matar o maior número possível de pessoas inocentes para obter obter maior impacto mediático possível.
3. Os bombistas assassinos têm, regra geral, um cadastro acumulado ligado ao crime: desde assaltos, homicídios, tráfico de droga, etc., e estavam no radar das autoridades. Mesmo assim não foram impedidos.
4. Os serviços de segurança e informação dos países afectados têm constantemente evidenciado uma completa incapacidade de lidar com o problema. No caso belga, o pessoal militar que foi requisitado para defender pontos estratégicos é claramente não qualificado para essas funções específicas (é normal os militares estarem a falar ao telemóvel, a trocarem SMS ou simplesmente na galhofa uns com os outros), os serviços policiais nacionais não falam entre si (um departamento da polícia já tinha a morada onde Salah Abdeslam se escondia e a informação nunca chegou a quem de direito), os serviços de informação internacionais ainda menos o fazem e os sistemas judiciais pautam-se por um ingénuo utopismo que protege mais as alegadas boas-intenções dos potenciais terroristas do que a segurança da comunidade.
5. As declarações dos líderes políticos são de choque, repúdio e surpresa mas, atente-se, sempre com a preocupação de minimizar, ou mesmo negar, a ligação umbilical entre os atentados e a componente islâmica que lhes está na génese - e que é evidente para todos. Ao mesmo tempo, vimos altos responsáveis políticos a chorar em público que, apesar de demonstrar sensibilidade e afecto, não deixa de ser um sinal exterior de imensa fraqueza. Ou seja, há uma discrepância enorme entre aquilo que os líderes dizem e fazem e o que os eleitores esperariam que dissesse e fizessem.
6. As reacções populares são igualmente de indignação mas, contrariamente aos atentados de Paris, há muito maior enfoque social e mediático na inoperância das autoridades: na verdade, já se esperavam mais atentados, a profunda e manifesta incompetência das autoridades em impedi-los é que causou verdadeira surpresa.
7. Neste momento extremam-se as posições sobre um dos pontos basilares do consenso político pós guerra fria: o Multiculturalismo. De um lado, os ingénuos, ou aproveitadores, que negam a evidência da influência cultural e religiosa na génese da barbárie assassina a que vamos assistindo e que culpam as nossas próprias sociedades livres, abertas e plurais pelos atentados (ex.: o caso do PCP português); do outro, vemos os xenófobos que tomam a parte pelo todo e que vêem nos atentados a oportunidade para justificar a expulsão de todos os muçulmanos. Ambas as posições são ilógicas, superficialmente suportadas por não-argumentos mas baseiam-se no apelo a estímulos populares capazes de fazer granjear grandes apoios: de um lado, o apelo à fraternidade e ao humanismo global, do outro o apelo à defesa e segurança das nossas comunidades. Sendo ambas as posições profundamente superficiais e generalizantes tenderão a ser, por um lado, populares e fáceis de reproduzir e, por outro lado, ao serem absolutistas na sua simplicidade, incapazes de participar em consensos e compromissos políticos.
8. A Europa do pós-Guerra Fria assentou o seu compromisso politico e social em dois pilares fundamentais: o Estado-Social e o Multiculturalismo. O primeiro, motivado por má gestão, excessivo voluntarismo e factores de insustentabilidade social (envelhecimento) e económica (ausência de crescimento económico) encontra-se em crise profunda; o segundo, ao relativizar todas as religiões a uma espécie de igualdade prática reflectida num melting pot cultural e religioso onde minorias radicais (como a Muçulmana) são paternalmente vistas como tão ou mais legítimas do que
a base tradicional Cristã da Europa (que é recusada, vilipendiada e vista como impositiva por ser maioritária), começa agora a apresentar resultados muito preocupantes. Em nome de uma igualdade multicultural, minaram-se e atacaram-se os valores tradicionalmente europeus (e que geraram as sociedades democráticas e liberais que temos) ao mesmo tempo que se toleraram os radicalismos importados de sociedades afundadas em miséria, violência e recusa completa das liberdades europeias (ex.: a condição feminina no Islão).
9. Na ausência de acção política baseada num compromisso político socialmente abrangente duas coisas ocorrem: primeiro, os extremos tomarão a iniciativa e oferecerão "soluções" a quem anda desesperadamente à procura de uma; depois, o consenso social quebra-se e a capacidade de compromisso dissolve-se. As consequências serão imprevisíveis, mas passarão sempre por: maior instabilidade política (e, consequentemente, também económica), maior crispação social e política e maior dificuldade de gerar liderança e acção políticas.
10. A UE não tem os instrumentos institucionais, a legitimidade democrática ou circunstâncias internacionais favoráveis (ex.: crise económica, crise dos refugiados, etc.) para dar uma resposta rápida, eficaz e regeneradora a este problema. Nesse sentido cada vez mais o destino da UE se jogará a cada eleição num dos seus Estados-Membros, eleições as quais já evidenciam um aumento significativo do Eurocepticismo: em França, Le Pen; na Alemanha, a AfD; na Holanda, Geert Wilders, a título de exemplo.
11. Em suma: acrescentando à banalização do terrorismo uma crise económica mundial no horizonte, a incapacidade operacional da UE, a pressão urgente da questão dos refugiados, a instabilidade política (e ascensão da extrema-esquerda) dos países do sul, a expansão dos extremos nacionalistas, a fragilidade do Euro e dos mecanismos institucionais da UE, considerando ainda que toda e cada uma destas circunstâncias alimenta as outras, podemos estar a viver um momento de rápida deterioração da UE e prestes a entrar num período de enorme mudança e incerteza. Alguém diria em 1988 que a URSS iria desagregar-se em menos de cinco anos?
2. Ao contrário do que muitos possam pensar o nível de sofisticação dos atentados é extremamente baixo: os explosivos são rudimentares e frequentemente nem funcionam, os planos são básicos e pouco elaborados, os meios utilizados são reduzidos e pouco imaginativos, e as capacidades técnico-tácticas dos terroristas vão pouco mais longe da vontade básica de matar o maior número possível de pessoas inocentes para obter obter maior impacto mediático possível.
3. Os bombistas assassinos têm, regra geral, um cadastro acumulado ligado ao crime: desde assaltos, homicídios, tráfico de droga, etc., e estavam no radar das autoridades. Mesmo assim não foram impedidos.
4. Os serviços de segurança e informação dos países afectados têm constantemente evidenciado uma completa incapacidade de lidar com o problema. No caso belga, o pessoal militar que foi requisitado para defender pontos estratégicos é claramente não qualificado para essas funções específicas (é normal os militares estarem a falar ao telemóvel, a trocarem SMS ou simplesmente na galhofa uns com os outros), os serviços policiais nacionais não falam entre si (um departamento da polícia já tinha a morada onde Salah Abdeslam se escondia e a informação nunca chegou a quem de direito), os serviços de informação internacionais ainda menos o fazem e os sistemas judiciais pautam-se por um ingénuo utopismo que protege mais as alegadas boas-intenções dos potenciais terroristas do que a segurança da comunidade.
5. As declarações dos líderes políticos são de choque, repúdio e surpresa mas, atente-se, sempre com a preocupação de minimizar, ou mesmo negar, a ligação umbilical entre os atentados e a componente islâmica que lhes está na génese - e que é evidente para todos. Ao mesmo tempo, vimos altos responsáveis políticos a chorar em público que, apesar de demonstrar sensibilidade e afecto, não deixa de ser um sinal exterior de imensa fraqueza. Ou seja, há uma discrepância enorme entre aquilo que os líderes dizem e fazem e o que os eleitores esperariam que dissesse e fizessem.
6. As reacções populares são igualmente de indignação mas, contrariamente aos atentados de Paris, há muito maior enfoque social e mediático na inoperância das autoridades: na verdade, já se esperavam mais atentados, a profunda e manifesta incompetência das autoridades em impedi-los é que causou verdadeira surpresa.
7. Neste momento extremam-se as posições sobre um dos pontos basilares do consenso político pós guerra fria: o Multiculturalismo. De um lado, os ingénuos, ou aproveitadores, que negam a evidência da influência cultural e religiosa na génese da barbárie assassina a que vamos assistindo e que culpam as nossas próprias sociedades livres, abertas e plurais pelos atentados (ex.: o caso do PCP português); do outro, vemos os xenófobos que tomam a parte pelo todo e que vêem nos atentados a oportunidade para justificar a expulsão de todos os muçulmanos. Ambas as posições são ilógicas, superficialmente suportadas por não-argumentos mas baseiam-se no apelo a estímulos populares capazes de fazer granjear grandes apoios: de um lado, o apelo à fraternidade e ao humanismo global, do outro o apelo à defesa e segurança das nossas comunidades. Sendo ambas as posições profundamente superficiais e generalizantes tenderão a ser, por um lado, populares e fáceis de reproduzir e, por outro lado, ao serem absolutistas na sua simplicidade, incapazes de participar em consensos e compromissos políticos.
8. A Europa do pós-Guerra Fria assentou o seu compromisso politico e social em dois pilares fundamentais: o Estado-Social e o Multiculturalismo. O primeiro, motivado por má gestão, excessivo voluntarismo e factores de insustentabilidade social (envelhecimento) e económica (ausência de crescimento económico) encontra-se em crise profunda; o segundo, ao relativizar todas as religiões a uma espécie de igualdade prática reflectida num melting pot cultural e religioso onde minorias radicais (como a Muçulmana) são paternalmente vistas como tão ou mais legítimas do que
a base tradicional Cristã da Europa (que é recusada, vilipendiada e vista como impositiva por ser maioritária), começa agora a apresentar resultados muito preocupantes. Em nome de uma igualdade multicultural, minaram-se e atacaram-se os valores tradicionalmente europeus (e que geraram as sociedades democráticas e liberais que temos) ao mesmo tempo que se toleraram os radicalismos importados de sociedades afundadas em miséria, violência e recusa completa das liberdades europeias (ex.: a condição feminina no Islão).
9. Na ausência de acção política baseada num compromisso político socialmente abrangente duas coisas ocorrem: primeiro, os extremos tomarão a iniciativa e oferecerão "soluções" a quem anda desesperadamente à procura de uma; depois, o consenso social quebra-se e a capacidade de compromisso dissolve-se. As consequências serão imprevisíveis, mas passarão sempre por: maior instabilidade política (e, consequentemente, também económica), maior crispação social e política e maior dificuldade de gerar liderança e acção políticas.
10. A UE não tem os instrumentos institucionais, a legitimidade democrática ou circunstâncias internacionais favoráveis (ex.: crise económica, crise dos refugiados, etc.) para dar uma resposta rápida, eficaz e regeneradora a este problema. Nesse sentido cada vez mais o destino da UE se jogará a cada eleição num dos seus Estados-Membros, eleições as quais já evidenciam um aumento significativo do Eurocepticismo: em França, Le Pen; na Alemanha, a AfD; na Holanda, Geert Wilders, a título de exemplo.
11. Em suma: acrescentando à banalização do terrorismo uma crise económica mundial no horizonte, a incapacidade operacional da UE, a pressão urgente da questão dos refugiados, a instabilidade política (e ascensão da extrema-esquerda) dos países do sul, a expansão dos extremos nacionalistas, a fragilidade do Euro e dos mecanismos institucionais da UE, considerando ainda que toda e cada uma destas circunstâncias alimenta as outras, podemos estar a viver um momento de rápida deterioração da UE e prestes a entrar num período de enorme mudança e incerteza. Alguém diria em 1988 que a URSS iria desagregar-se em menos de cinco anos?
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POLÍTICA
sábado, 26 de março de 2016
ANXIETY, NEED FOR CONTROL, PERSONAL IRRESPONSIBILITY AND REVOLUTION
"Though the word responsible may be used in variety of ways, I prefer Satre's definition: to be responsible is to "be the author of", each of us being thus the author of his or her own life design. We are free to be anything but free: we are, Sartre would say, condemned to freedom. Indeed, some philosophers claim much more: that the architecture of the human mind makes each of us even responsible for the structure of external reality, for the very form of space and time. It is here, in the idea of self-construction, where anxiety dwells: we are creatures who desire structure, and we are frightened by a concept of freedom which implies that beneath us there is nothing, sheer groundlessness.
Every therapist knows that the crucial first step in therapy is the patient's assumption of responsibility for his or hers life predicament. As long as one believes that one's problems are caused by some force or agency outside oneself, there is no leverage in therapy. If, after all, the problem lies out there, then why should one change oneself? It is the outside world (friends, job, spouse) that must be changed - or exchanged".
Irving D. Yalom, Love's Executioner and Other Tales of Psychotherapy, Penguin Books, 1989, p. 8
Every therapist knows that the crucial first step in therapy is the patient's assumption of responsibility for his or hers life predicament. As long as one believes that one's problems are caused by some force or agency outside oneself, there is no leverage in therapy. If, after all, the problem lies out there, then why should one change oneself? It is the outside world (friends, job, spouse) that must be changed - or exchanged".
Irving D. Yalom, Love's Executioner and Other Tales of Psychotherapy, Penguin Books, 1989, p. 8
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FILOSOFIA,
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sexta-feira, 11 de março de 2016
DA INVEJA
Poucas coisas serão mais evidentes para demonstrar a pequenez invejosa lusitana do que o achincalhar parolo da figura pouco sofisticada de Cavaco Silva. Só no país em que, a quem decide fazer, pensar ou assumir algo diferente, e que o distinga dos outros, está sempre fadado o destino da maledicência, do "puxa para baixo", do "quem é que este pensa que é para se armar em melhor do que os outros" - que não fazem nada -, apenas nesse triste país carunchado pela inveja se pode olhar para um dos melhores (e raríssimos) exemplos do self made man lusitano e, sem algum dia ter sequer chegado aos seus calcanhares, olhá-lo de cima, diminuí-lo, gozá-lo, porque, coitado, "não é ninguém" ou "não se sabe comportar". Cavaco, filho de gasolineiro, estudante aprimorado em tempos em que Lisboa ficava a um dia de viagem, triunfou na academia - doutorando-se em York com uma bolsa da Gulbenkian -, e na política. Foi o político mais influente dos últimos trinta anos, recordista absoluto do voto popular português com cinco vitórias em seis eleições, quatro dessas vitórias com mais de 50% dos votos (e a derrota com 48%). Sem ele, Portugal seria outra coisa, muito provavelmente muito pior. Por isso, querer resumir tamanha personagem aos seus modos à mesa, ou à forma como se veste, não é parolo, é mesquinho: próprio dos pequeninos que, perante a grandeza, em vez de tentarem aprender - e alçarem-se a voos mais altos - apenas ridicularizam para tentarem trazer para baixo quem se atreveu a tentar ser melhor. No país dos - como já dizia o Antero - fidalgos falidos que se escorrem pelas secretarias a mendigar tachos, Cavaco não foi apenas bom: foi genial. O resto é dor de cotovelo.
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POLÍTICA,
PORTUGAL NO SEU PIOR
SE E QUANDO
Mais um Linhas Direitas, desta feita às voltas com os presidentes: o que saiu e o que entrou. Também disponível para download no ITunes.
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POLÍTICA
sábado, 5 de março de 2016
SCIENTISM AND HUMANITIES
Uma palestra excelente de Roger Scruton onde desmonta as incoerências supremas da pseudo-ciência que confunde meios com fins, procedimentos com significados ou descrição com compreensão: os grandes erros dos dias de hoje bem resumidos com clareza e elegância.
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FILOSOFIA
sexta-feira, 4 de março de 2016
O SÍNDROMA DE LAMPEDUSA
Continua a ser um mistério para mim como na cabeça de tantos críticos sobre a falta de ética, moral ou respeito social de uns quantos a solução passa quase sempre por substituir esses tais malandros que se portam mal por uns outros indivíduos que, garantem-nos eles, serão o porta-estandarte da ética, o ícone máximo da moralidade e o exemplo do respeito pela justiça social. Não compreenderão eles que tanto uns como outros não são outra coisa além de homens e que, como tal, nada mais fazem além de ser homens? A virtude não está em acusar os defeitos dos outros mas, pelo contrário, em desconfiar das virtudes de todos - incluindo de nós próprios. No entanto, é precisamente de infalíveis Torquemadas de vão de escada que se fazem os nosso dias: e no meio de tanta acusação justíssima, estranhamente, nunca lhes ocorre que limitar a injustiça dos homens passe muito mais por limitar o controle de uns sobre os outros ao invés de submeter uns e outros, cada vez mais, às sucessivas virtuosas interpretações sobre o que é a moral, a ética e a justiça . Talvez porque no fundo, bem lá no fundo, não seja bem a Justiça que os move mas apenas a substituição daqueles de quem não gostam por outros de que gostam mais - quiçá por eles próprios. No final, fica tudo na mesma.
DA INFANTILIZAÇÃO
É preciso desiludirmo-nos para aprendermos a lição mais importante da vida: que as coisas, nomeadamente os sonhos, não são, nem correm, sempre como nós quereríamos que fossem, ou corressem. Faz parte do processo de crescimento a percepção - que toma a forma de uma desilusão, sempre, uma desilusão - de que ter sol na eira e chuva no nabal é uma quimera e, como tal, algo impossível de obter. Apenas num mundo repleto de crianças explicar que o ideal não existe, que o óptimo é inimigo do bom e que este, já agora, é apenas, com sorte, amigo do possível, apenas num mundo onde este conhecimento - que deveria configurar o mais básico senso comum - está ausente do pensamento público, apenas aqui o mero acto de dizer o evidente se transforma num acto de sedição revolucionária. Mas, não nos iludamos, os revolucionários são os utópicos: revolucionários não contra aqueles que apenas se limitam a dizer que o rei vai nu mas, sim, revolucionários birrentos contra o mundo e contra a forma como as coisas são. Não espanta pois que os mais afoitos, e que mais enchem a boca com a miséria dos outros, são precisamente aqueles a quem nunca faltou nada a não ser, lá está, a desilusão. Ficaram crianças que, no seu mimo, no seu infantil egoísmo, acham legítimo impor as suas impetuosas e irreflectidas vontades, seja a bem, seja a mal, a todos os outros. No final sobrará, como sempre, a enorme desilusão, restando apenas a dúvida sobre o preço que ela custará - quer aos que se desiludem, quer aos que morrem a tentar derrotar os demónios que imaginam a cada canto, quer àqueles que - os mesmos de sempre - no final acabam a pagar a conta da brincadeira: o pagode.
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NADA
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
O VÍCIO SOCIALISTA
A propósito de uma imberbe possibilidade de colaboração com alguns colegas de outras áreas num projecto de investigação andei a ler umas coisas sobre a adição (no sentido anglófilo "addiction"). Em bom português, o vício: a forma como se apresenta, impõe e as condições onde, eventualmente, se consegue ultrapassá-lo. Na prática, o vício aparece como algo que se revela de uma forma tão forte no presente que o indivíduo, preso ao desejo momentâneo, perde a capacidade de prezar os seus próprios objectivos de longo prazo em nome dessa gratificação imediata. Assim, não será de estranhar que indivíduos que não estejam clara e fortemente comprometidos com objectivos, ou perspectivas, de longo prazo (família, sucesso profissional, alguma meta longínqua, etc.) sejam mais permeáveis a ceder ao presente: é onde o futuro não se vislumbra que o imediato se assume como uma opção mais forte, e por isso mais apetecível. Naturalmente - porque é a área que me ocupa -, algumas possibilidades como este mecanismo do vício pode ser traduzido para o campo da comunidade saltaram-me logo à mente. Por um lado, a forma como a sociedade actual onde o Estado vai progressivamente usurpando o papel anteriormente consignado à família vai nublar um dos horizontes fundamentais para impermeabilizar indivíduos mais em risco face à adição: que objectivo maior poderá haver que nos force a recusar o imediato em nome do longo termo além da responsabilidade que temos para com as nossas famílias - quer aqueles que apenas gostam de nós, quer aqueles que dependem de nós? Depois, naturalmente, ocorreu-me como o crescente papel do Estado na vida das pessoas pode legitimar-se ele próprio perante os indivíduos através de um mecanismo de adição: desde o paternalismo que promete o conforto e o alívio imediato de um problema através de uma solução legislativa até à forma como todo o discurso político se foca "nos problemas concretos dos cidadãos", ou meramente em chavões que representam programas populares - e por isso aliciantes -, mas sempre se deixa de fora a necessidade de apresentar estratégias de longo prazo credíveis, em tudo isto se manifesta o mecanismo do vício. E assim se encontra uma explicação para a facilidade com que alguns se deslumbram pelos cantos das sereias que vendem mundos perfeitos, mesmo que ainda há bem pouco tempo essas mesmas sereias os tenham deixado na mais perfeita bancarrota - ou seja numa ressaca completa. É o vício, camaradas, é o vício que os alimenta. E, como qualquer dealer numa esquina obscura, é assim que encontramos os pressurosos socialistas, perante os "clientes" bem agarrados, já nem se dando ao trabalho de mentir, disfarçar ou dourar as consequências negativas do seu produto para a felicidade a longo prazo do seu cliente. Não. É com o desprezo dos traficantes que os senhores que nos governam destilam ódio, fazem o contrário do que apregoam e, sentindo-se acima de todos, sem pudor, saqueiam a seu belo prazer as oportunidades que se lhes apresentam. É a impunidade de quem não sente que se tenha de justificar: isto porque, afinal, que mais pode um agarrado fazer além de comer e calar?
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POLÍTICA
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
U Turn
O Linhas Direitas está de regresso. Neste episódio #13, eu o Afonso Vaz Pinto e o Pedro Telles lamentamos a desgraça que é a geringonça governamental, o estado e
futuro mais próximo da direita em Portugal e, ainda, a eventual criação
de um partido liberal em Portugal. Também disponível no ITunes.
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POLÍTICA
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
ALGUMAS NOTAS TEÓRICAS SOBRE A QUESTÃO LIBERAL PORTUGUESA
Tem havido nos círculos liberais um interessante debate a propósito da hipotética criação de um Partido Liberal (PL) em Portugal. Se, por um lado, a capacidade de afirmação do ideário liberal é, do meu ponto de vista, fundamental para retirar Portugal do ciclo vicioso socialista, e socializante, em que se vai afundando, por outro lado, tenho sérias dúvidas que a criação de um PL seja o melhor caminho para o fazer. As razões que me assistem nessa dúvida são primeiro teóricas e depois práticas.
No que concerne às razões teóricas preocupa-me sobremaneira uma divisão ontológica que separa liberais de uma forma fundamental, profunda e, quiçá, inconciliável, o que poderá condenar o movimento por um PL a um eterno debate autofágico, sem resolução e, consequentemente, todo o movimento ao falhanço. Como vejo a perspectiva liberal como a via para a prosperidade nacional, um falhanço estrondoso, com repercussões mediáticas, de um projecto partidário liberal pode acabar por fazer mais mal que bem à causa maior que lhe é anterior: libertar Portugal das amarras do socialismo.
A divisão ontológica, na verdade, parece-me, deriva de uma divisão que separa os indivíduos - todos, não apenas os liberais - em duas atitudes fundamentalmente diferentes perante a vida: a primeira é fundamentalmente optimista e a segunda, por oposição, assenta num pessimismo antropológico. Os primeiros crêem que os problemas da comunidade política podem ter uma resolução, uma resolução concreta que é a melhor, a mais adequada e aquela que de forma optimizada pode criar harmonia, ou pelo menos justiça, entre os homens. Essa resolução é, portanto, uma espécie de solução, em muitos casos revolucionária. E uma solução apresenta um conjunto de preceitos finalísticos, de um certo modo estáticos, que, imagina-se, ao serem aplicados levariam a uma sociedade idealizada, senão perfeita pelo menos a mais perfeita, ou justa, que se poderia obter. É o resultado final da acção liberal que imaginam: uma sociedade revolucionada, fiel e totalmente derivada dos princípios que acreditam serem os melhores.
Esta visão optimista alicerça - normal mas não exclusivamente - o seu ideário e argumentário, que muitos desejam traduzido em acção revolucionária, na razão. É através da lógica e do racionalismo que justificam os preceitos que gostariam de poder implementar e as razões pelas quais ao serem implementados seriam bem sucedidos. Do mesmo modo, através da causalidade demonstram como uma sociedade pode atingir o resultado final desde o seu momento fundador: todo o processo é lógico, calculável e o resultado final será atingido se os preceitos racionais que teorizam forem postos em prática de forma correcta. A esta posição racionalista não apelido de 'optimismo liberal' porque o epíteto 'optimismo' pode - e deve - ser recusado no que concerne aos liberais uma vez que muitos dos liberais deste tipo assentam também o seu argumentário de recusa do colectivo ou do Estado na natureza imperfeita e, imperfeiçoável, do Homem. No entanto, se por um lado é verdade que o racionalismo voluntarista antropológico deriva maioritariamente em soluções socialistas, não deixa também de ser verdade que os liberais deste tipo, mesmo que em nome da natureza imperfeita do Homem (um argumento pessimista), não deixam de apresentar soluções racionalistas e perfeccionistas. Para que não haja confusões, para efeitos desta distinção, estes dois últimos adjectivos parecem-me apropriados.
Este perfeccionismo racionalista encontra adeptos famosos à esquerda, naturalmente - e aí incluo o liberalismo igualitário Rawlsiano -, mas também em toda uma gama de adeptos do libertarianismo ou anarco-capitalismo que, apesar de advogarem o oposto do igualitarismo socialista, não deixam de utilizar argumentos do mesmo tipo: um plano revolucionário racional que se argumenta ser o melhor, ou mais justo, para o individuo - e, derivado deste, para a comunidade - mesmo que esse plano racional seja a recusa racional de toda e qualquer espécie de plano.
Do outro lado, temos os pessimistas antropológicos. Ora, esta perspectiva também não acredita no aperfeiçoamento da natureza humana mas, ao contrário dos racionalistas e perfeccionistas, também recusam que haja soluções perfeitas, ou que haja sequer formas particularmente bem sucedidas de alterar o comportamento normal dos indivíduos em comunidade: onde os primeiros advogam certezas, estes apenas encontram dúvidas. Para o pessimista antropológico, o carácter imperfeito da natureza humana implica o carácter imperfeito da comunidade política. Fica, desde logo, de parte a possibilidade de crer-se numa solução teórica óptima, ou a melhor possível, para os problemas da comunidade. Assim, tanto se recusa o voluntarismo do socialista utópico e bem intencionado como o mesmo voluntarismo utópico e bem intencionado do libertário. O resultado de uma acção liberal é, por definição, desconhecido: implica lidar com inúmeros factores imprevisíveis, com aliados e adversários inesperados e com circunstâncias incontroláveis na totalidade. Aliás, é precisamente por estas razões que desconfia do Estado e não o vê, por regra, como a melhor forma de organização social. No entanto, e fundamentalmente é isto que o separa do perfeccionista liberal, ao pessimista que não crê em soluções óptimas o resultado óptimo da sua acção está-lhe escondido. E é precisamente este desconhecimento - a incapacidade de saber o resultado final do próprio processo liberal - que o define: enquanto que os racionalistas liberais apresentam um argumentário racional que demonstra o estado final e ideal de uma sociedade liberal, a este segundo tipo de liberal, na ausência do resultado final, sobra-lhe o ponto de partida e o processo. Do primeiro, retira aprendizagem; do segundo, retira a acção que, naturalmente, nunca será revolucionária porque esta implicaria a criação de algo que não se conhece, de consequências imprevisíveis e, eventualmente, irresponsáveis.
E o que norteia o processo? Enquanto que aos racionalistas é o mecanismo lógico, frio, causal da razão do ponto A (onde estamos) para o ponto B (o resultado final), os liberais pessimistas, sem ponto B, socorrem-se dos valores liberais que entendem que devem ser paulatinamente postos em prática, da melhor forma que seja possível, a todo e qualquer momento, e que lhes permita avançar do ponto A para um ponto indefinido no futuro que, desejam eles, seja um ponto mais liberal, porque melhor, mas sempre desconhecido e indemonstrável de forma infalível a priori. Não deixam de ser racionais na abordagem, mas na ausência de um plano total racional, sobra uma prática que entendem como razoável e que é norteada por um código de conduta (um conjunto de valores permanentes) ao invés de um plano finalístico, perfeccionista e absoluto.
A este segundo tipo de liberais que recusam planos perfeccionistas, que recusam o racionalismo absoluto e que advogam um conjunto de valores liberais que vão aplicando, de forma diferente consoante as circunstâncias, eu chamo conservadorismo liberal. Isto porque é uma postura de desconfiança (inclusive de si próprios), de prudência (não pode haver liberdade sem responsabilidade) e verdadeiramente liberal porque se recusa a aplicação total de um determinado modelo racional que limite a acção dos indivíduos a uma determinada leitura da realidade, tudo em nome de um modelo abstracto, teórico e imutável. A nota importante aqui é que um liberal deste tipo é conservador apenas neste sentido ontológico, não tem que o ser (apesar de também o poder ser, são variáveis independentes desde que não impostas pelo Estado) no sentido prático que damos ao termo, o conservador nos costumes. Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Não será difícil de ver nas minhas palavras que eu partilho da segunda possibilidade. Acho-a preferível à primeira porque encontro no perfeccionismo liberal todos os problemas, e vícios, que vejo nas soluções perfeitas da esquerda: o voluntarismo teórico, a ingenuidade quanto à natureza humana, a abstracção da realidade da vida, o perfeccionismo impossível e a crença na salvação humana através da razão. Em suma: para mim, um verdadeiro liberal não pode ser escravo de nada, nem mesmo da razão, porque não a vê como infalível, muito pelo contrário.
Aquilo que divide estes dois tipos de liberais é tão profundo como aquilo que separa os socialistas dos liberais. É precisamente por essa razão que não acredito na practicabilidade, pelo menos nos moldes actuais, de um PL. Isto porque os liberais conservadores têm uma capacidade de compromisso, nomeadamente com os partidos da direita democrática portuguesa, que os liberais perfeccionistas não têm: os conservadores podemos vê-los inclusive (como é o meu caso) integrados, mesmo que em minoria, afastados, ou apenas como votantes, no PSD ou no CDS; já os liberais perfeccionistas, normalmente mais radicais, tendem a excluir toda a direita democrática como socialista, incluindo nesse "socialismo" os liberais conservadores que acima descrevi.
Considerando tudo isto, parece-me, os perfeccionistas terão maior entusiasmo por um PL. E se assim for esse partido será tendencialmente mais revolucionário - o que significa que será tendencialmente libertário, eventualmente anarco-capitalista - e, por essa razão, menos capaz de ser apelativo eleitoralmente e, também, menos capaz de gerar consensos internos porque existe uma elevada probabilidade de enredar-se num debate infindável sobre o grau purista da verdadeira solução liberal, ou no que consiste o verdadeiro liberalismo. E tal como à esquerda, quanto mais radicais são as posições menos se consegue vislumbrar o entendimento: da mesma forma como, em última análise a "união" das esquerdas gera um conflito irresolúvel e uma multidão de grupos e grupinhos de dimensão progressivamente mais reduzida, também o liberalismo radical encontrará o mesmo destino: apenas os perfeccionistas se preocupam em definir o que é a verdade - e todos acreditam tê-la encontrado, apenas para reconhecer que aquilo que uns encontram é fundamentalmente diferente do que os outros já encontraram.
Naturalmente as nuances serão muitas. Definir com exactidão o liberalismo e as diversas formas que este pode tomar é tarefa muito mais abrangente do que um artigo deste tipo pode fazer. Da mesma forma, serão com certeza muitas as excepções a esta dicotomia. Mas estou convencido que o perfeccionismo racionalista militante impedirá uma coligação com o liberalismo conservador, quer com aqueles que votam e participam nos partidos da direita portuguesa, quer com aqueles que não têm partido em que votar: com os primeiros a aliança falhará porque partidos como o PSD e o CDS, mesmo que com muitíssimas dificuldades, acabam por ser mais permeáveis ao liberalismo conservador que aqui descrevi do que os próprios libertários mais puristas; com os segundos a aliança falhará porque nunca conseguirão concordar no método ou em linhas programáticas partilhadas na coerência que um partido político implica.
O que fazer então? Em primeiro lugar, perceber que a questão não pode ser apenas se se deve formar um PL ou não: se alguém quiser formar um partido, e tiver condições práticas para o fazer, acabará por fazê-lo. Logo, de nada serve afirmar que não se deve fazer um partido: nenhum liberal se pode considerar dono do "movimento" liberal. A mim, enquanto indivíduo, resta-me decidir militar ou não militar, eventualmente votar ou nem sequer votar em todo e qualquer partido, isto dependente de advogar um programa com o qual eu concorde, ou aceite como preferível ou, em oposição, que rejeite como uma alternativa eleitoral não credível.
Por tudo isto, para mim, a questão essencial será muito mais como avançar a causa liberal em Portugal. E aqui parece-me que um partido (que exclui formalmente os liberais já militantes de outros partidos e, por essa razão, para ser bem sucedido deveria ter a capacidade de os atrair para as suas fileiras) poderá ser um objectivo para alguns, mas apenas a prazo e apenas em determinadas circunstâncias. A causa liberal ficaria muito mais bem servida por uma plataforma liberal que congregue massa crítica académica e partidária e que tenha a capacidade de gerar o debate, fazer propostas políticas, linhas programáticas e, inclusive, participar em eventuais coligações políticas com o PSD e\ou o CDS. Dessa forma pode influenciar-se os partidos já existentes ao mesmo tempo que se avança na solidificação de uma linha programática liberalizante que contribua de forma activa para a difusão dos princípios liberais na academia, nos media e, principalmente, na sociedade. Se essa plataforma se transformará em partido no futuro, seja ele breve ou longínquo, isso já será uma questão que, imagino, nem o mais perfeito perfeccionista saberá responder.
No que concerne às razões teóricas preocupa-me sobremaneira uma divisão ontológica que separa liberais de uma forma fundamental, profunda e, quiçá, inconciliável, o que poderá condenar o movimento por um PL a um eterno debate autofágico, sem resolução e, consequentemente, todo o movimento ao falhanço. Como vejo a perspectiva liberal como a via para a prosperidade nacional, um falhanço estrondoso, com repercussões mediáticas, de um projecto partidário liberal pode acabar por fazer mais mal que bem à causa maior que lhe é anterior: libertar Portugal das amarras do socialismo.
A divisão ontológica, na verdade, parece-me, deriva de uma divisão que separa os indivíduos - todos, não apenas os liberais - em duas atitudes fundamentalmente diferentes perante a vida: a primeira é fundamentalmente optimista e a segunda, por oposição, assenta num pessimismo antropológico. Os primeiros crêem que os problemas da comunidade política podem ter uma resolução, uma resolução concreta que é a melhor, a mais adequada e aquela que de forma optimizada pode criar harmonia, ou pelo menos justiça, entre os homens. Essa resolução é, portanto, uma espécie de solução, em muitos casos revolucionária. E uma solução apresenta um conjunto de preceitos finalísticos, de um certo modo estáticos, que, imagina-se, ao serem aplicados levariam a uma sociedade idealizada, senão perfeita pelo menos a mais perfeita, ou justa, que se poderia obter. É o resultado final da acção liberal que imaginam: uma sociedade revolucionada, fiel e totalmente derivada dos princípios que acreditam serem os melhores.
Esta visão optimista alicerça - normal mas não exclusivamente - o seu ideário e argumentário, que muitos desejam traduzido em acção revolucionária, na razão. É através da lógica e do racionalismo que justificam os preceitos que gostariam de poder implementar e as razões pelas quais ao serem implementados seriam bem sucedidos. Do mesmo modo, através da causalidade demonstram como uma sociedade pode atingir o resultado final desde o seu momento fundador: todo o processo é lógico, calculável e o resultado final será atingido se os preceitos racionais que teorizam forem postos em prática de forma correcta. A esta posição racionalista não apelido de 'optimismo liberal' porque o epíteto 'optimismo' pode - e deve - ser recusado no que concerne aos liberais uma vez que muitos dos liberais deste tipo assentam também o seu argumentário de recusa do colectivo ou do Estado na natureza imperfeita e, imperfeiçoável, do Homem. No entanto, se por um lado é verdade que o racionalismo voluntarista antropológico deriva maioritariamente em soluções socialistas, não deixa também de ser verdade que os liberais deste tipo, mesmo que em nome da natureza imperfeita do Homem (um argumento pessimista), não deixam de apresentar soluções racionalistas e perfeccionistas. Para que não haja confusões, para efeitos desta distinção, estes dois últimos adjectivos parecem-me apropriados.
Este perfeccionismo racionalista encontra adeptos famosos à esquerda, naturalmente - e aí incluo o liberalismo igualitário Rawlsiano -, mas também em toda uma gama de adeptos do libertarianismo ou anarco-capitalismo que, apesar de advogarem o oposto do igualitarismo socialista, não deixam de utilizar argumentos do mesmo tipo: um plano revolucionário racional que se argumenta ser o melhor, ou mais justo, para o individuo - e, derivado deste, para a comunidade - mesmo que esse plano racional seja a recusa racional de toda e qualquer espécie de plano.
Do outro lado, temos os pessimistas antropológicos. Ora, esta perspectiva também não acredita no aperfeiçoamento da natureza humana mas, ao contrário dos racionalistas e perfeccionistas, também recusam que haja soluções perfeitas, ou que haja sequer formas particularmente bem sucedidas de alterar o comportamento normal dos indivíduos em comunidade: onde os primeiros advogam certezas, estes apenas encontram dúvidas. Para o pessimista antropológico, o carácter imperfeito da natureza humana implica o carácter imperfeito da comunidade política. Fica, desde logo, de parte a possibilidade de crer-se numa solução teórica óptima, ou a melhor possível, para os problemas da comunidade. Assim, tanto se recusa o voluntarismo do socialista utópico e bem intencionado como o mesmo voluntarismo utópico e bem intencionado do libertário. O resultado de uma acção liberal é, por definição, desconhecido: implica lidar com inúmeros factores imprevisíveis, com aliados e adversários inesperados e com circunstâncias incontroláveis na totalidade. Aliás, é precisamente por estas razões que desconfia do Estado e não o vê, por regra, como a melhor forma de organização social. No entanto, e fundamentalmente é isto que o separa do perfeccionista liberal, ao pessimista que não crê em soluções óptimas o resultado óptimo da sua acção está-lhe escondido. E é precisamente este desconhecimento - a incapacidade de saber o resultado final do próprio processo liberal - que o define: enquanto que os racionalistas liberais apresentam um argumentário racional que demonstra o estado final e ideal de uma sociedade liberal, a este segundo tipo de liberal, na ausência do resultado final, sobra-lhe o ponto de partida e o processo. Do primeiro, retira aprendizagem; do segundo, retira a acção que, naturalmente, nunca será revolucionária porque esta implicaria a criação de algo que não se conhece, de consequências imprevisíveis e, eventualmente, irresponsáveis.
E o que norteia o processo? Enquanto que aos racionalistas é o mecanismo lógico, frio, causal da razão do ponto A (onde estamos) para o ponto B (o resultado final), os liberais pessimistas, sem ponto B, socorrem-se dos valores liberais que entendem que devem ser paulatinamente postos em prática, da melhor forma que seja possível, a todo e qualquer momento, e que lhes permita avançar do ponto A para um ponto indefinido no futuro que, desejam eles, seja um ponto mais liberal, porque melhor, mas sempre desconhecido e indemonstrável de forma infalível a priori. Não deixam de ser racionais na abordagem, mas na ausência de um plano total racional, sobra uma prática que entendem como razoável e que é norteada por um código de conduta (um conjunto de valores permanentes) ao invés de um plano finalístico, perfeccionista e absoluto.
A este segundo tipo de liberais que recusam planos perfeccionistas, que recusam o racionalismo absoluto e que advogam um conjunto de valores liberais que vão aplicando, de forma diferente consoante as circunstâncias, eu chamo conservadorismo liberal. Isto porque é uma postura de desconfiança (inclusive de si próprios), de prudência (não pode haver liberdade sem responsabilidade) e verdadeiramente liberal porque se recusa a aplicação total de um determinado modelo racional que limite a acção dos indivíduos a uma determinada leitura da realidade, tudo em nome de um modelo abstracto, teórico e imutável. A nota importante aqui é que um liberal deste tipo é conservador apenas neste sentido ontológico, não tem que o ser (apesar de também o poder ser, são variáveis independentes desde que não impostas pelo Estado) no sentido prático que damos ao termo, o conservador nos costumes. Uma coisa nada tem a ver com a outra.
Não será difícil de ver nas minhas palavras que eu partilho da segunda possibilidade. Acho-a preferível à primeira porque encontro no perfeccionismo liberal todos os problemas, e vícios, que vejo nas soluções perfeitas da esquerda: o voluntarismo teórico, a ingenuidade quanto à natureza humana, a abstracção da realidade da vida, o perfeccionismo impossível e a crença na salvação humana através da razão. Em suma: para mim, um verdadeiro liberal não pode ser escravo de nada, nem mesmo da razão, porque não a vê como infalível, muito pelo contrário.
Aquilo que divide estes dois tipos de liberais é tão profundo como aquilo que separa os socialistas dos liberais. É precisamente por essa razão que não acredito na practicabilidade, pelo menos nos moldes actuais, de um PL. Isto porque os liberais conservadores têm uma capacidade de compromisso, nomeadamente com os partidos da direita democrática portuguesa, que os liberais perfeccionistas não têm: os conservadores podemos vê-los inclusive (como é o meu caso) integrados, mesmo que em minoria, afastados, ou apenas como votantes, no PSD ou no CDS; já os liberais perfeccionistas, normalmente mais radicais, tendem a excluir toda a direita democrática como socialista, incluindo nesse "socialismo" os liberais conservadores que acima descrevi.
Considerando tudo isto, parece-me, os perfeccionistas terão maior entusiasmo por um PL. E se assim for esse partido será tendencialmente mais revolucionário - o que significa que será tendencialmente libertário, eventualmente anarco-capitalista - e, por essa razão, menos capaz de ser apelativo eleitoralmente e, também, menos capaz de gerar consensos internos porque existe uma elevada probabilidade de enredar-se num debate infindável sobre o grau purista da verdadeira solução liberal, ou no que consiste o verdadeiro liberalismo. E tal como à esquerda, quanto mais radicais são as posições menos se consegue vislumbrar o entendimento: da mesma forma como, em última análise a "união" das esquerdas gera um conflito irresolúvel e uma multidão de grupos e grupinhos de dimensão progressivamente mais reduzida, também o liberalismo radical encontrará o mesmo destino: apenas os perfeccionistas se preocupam em definir o que é a verdade - e todos acreditam tê-la encontrado, apenas para reconhecer que aquilo que uns encontram é fundamentalmente diferente do que os outros já encontraram.
Naturalmente as nuances serão muitas. Definir com exactidão o liberalismo e as diversas formas que este pode tomar é tarefa muito mais abrangente do que um artigo deste tipo pode fazer. Da mesma forma, serão com certeza muitas as excepções a esta dicotomia. Mas estou convencido que o perfeccionismo racionalista militante impedirá uma coligação com o liberalismo conservador, quer com aqueles que votam e participam nos partidos da direita portuguesa, quer com aqueles que não têm partido em que votar: com os primeiros a aliança falhará porque partidos como o PSD e o CDS, mesmo que com muitíssimas dificuldades, acabam por ser mais permeáveis ao liberalismo conservador que aqui descrevi do que os próprios libertários mais puristas; com os segundos a aliança falhará porque nunca conseguirão concordar no método ou em linhas programáticas partilhadas na coerência que um partido político implica.
O que fazer então? Em primeiro lugar, perceber que a questão não pode ser apenas se se deve formar um PL ou não: se alguém quiser formar um partido, e tiver condições práticas para o fazer, acabará por fazê-lo. Logo, de nada serve afirmar que não se deve fazer um partido: nenhum liberal se pode considerar dono do "movimento" liberal. A mim, enquanto indivíduo, resta-me decidir militar ou não militar, eventualmente votar ou nem sequer votar em todo e qualquer partido, isto dependente de advogar um programa com o qual eu concorde, ou aceite como preferível ou, em oposição, que rejeite como uma alternativa eleitoral não credível.
Por tudo isto, para mim, a questão essencial será muito mais como avançar a causa liberal em Portugal. E aqui parece-me que um partido (que exclui formalmente os liberais já militantes de outros partidos e, por essa razão, para ser bem sucedido deveria ter a capacidade de os atrair para as suas fileiras) poderá ser um objectivo para alguns, mas apenas a prazo e apenas em determinadas circunstâncias. A causa liberal ficaria muito mais bem servida por uma plataforma liberal que congregue massa crítica académica e partidária e que tenha a capacidade de gerar o debate, fazer propostas políticas, linhas programáticas e, inclusive, participar em eventuais coligações políticas com o PSD e\ou o CDS. Dessa forma pode influenciar-se os partidos já existentes ao mesmo tempo que se avança na solidificação de uma linha programática liberalizante que contribua de forma activa para a difusão dos princípios liberais na academia, nos media e, principalmente, na sociedade. Se essa plataforma se transformará em partido no futuro, seja ele breve ou longínquo, isso já será uma questão que, imagino, nem o mais perfeito perfeccionista saberá responder.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
PUBLIC BENEFIT
"Among the innumerable monuments of architecture constructed by the Romans ,how many have escaped the notice of history. how few have resisted the ravages of time and barbarism! And yet even the majestic ruins that are still scattered over Italy and the provinces would be sufficient to prove that those countries were once the seat of a polite and powerful empire. Their greatness alone, or their beauty, might deserve our attention; but they are rendered more interesting by two important circumstances, which connect the agreeable history of the arts with the more useful history of human manners. Many of those works were erected at private expense, and almost all were intended for public benefit".
Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire (1788)
[Wordsworth Classics of World Literature, 1998, Ch 2, p. 37]
Edward Gibbon, The Decline and Fall of the Roman Empire (1788)
[Wordsworth Classics of World Literature, 1998, Ch 2, p. 37]
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HISTÓRIA,
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
AGENTS OF HISTORY
"Their view; it is cosmic. Not a man here, a child there, but an abstraction: race, land. Volk. Land. Blut. Ehre. Not of honourable men but of Ehre itself, honour; the abstract is real, the actual is invisible to them. Die Gute, but not good men, this good man. It is their sense of space and time. They see through the here, the now, into the vast black deep beyond, the unchanging. And that is fatal to life. Because eventually there will be no life; there was once only the dust particles in space, the hot hydrogen gases, nothing more, and it will come again. This is an interval, ein Augenblick. The cosmic process is hurrying on, crushing life back into the granite and methane; the wheel turns for all life. It is all temporary. And these - these madmen - respond to the granite, the dust, the longing of the inanimate; they want to aid Natur.
And, he thought, I know why. They want to be the agents, not the victims of history. They identify with God's power and believe they are godlike. That is their basic madness. They are overcome by some archetype; their egos have expanded psychotically so that they cannot tell where they begin and the godhead leaves off. It is not hubris, not pride; it is inflation of the ego to its ultimate - confusion between him who worships and that which is worshipped. Man has not eaten God; God has eaten man.
What they do not comprehend is man's helplessness. I am weak, small, of no consequence to the universe. It does not notice me; I live on unseen. But why is that bad? Isn't it better that way? Whom the gods notice they destroy. Be small... and you will escape the jealousy of the great".
Philip K. Dick, The Man in the High Castle (1962)
[in: Philip K. Dick, The Man in the High Castle, Penguin Classics, 2001, pp. 45-6]
And, he thought, I know why. They want to be the agents, not the victims of history. They identify with God's power and believe they are godlike. That is their basic madness. They are overcome by some archetype; their egos have expanded psychotically so that they cannot tell where they begin and the godhead leaves off. It is not hubris, not pride; it is inflation of the ego to its ultimate - confusion between him who worships and that which is worshipped. Man has not eaten God; God has eaten man.
What they do not comprehend is man's helplessness. I am weak, small, of no consequence to the universe. It does not notice me; I live on unseen. But why is that bad? Isn't it better that way? Whom the gods notice they destroy. Be small... and you will escape the jealousy of the great".
Philip K. Dick, The Man in the High Castle (1962)
[in: Philip K. Dick, The Man in the High Castle, Penguin Classics, 2001, pp. 45-6]
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LITERATURA
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
CONTROL FREAKING E SOCIALISMO
A necessidade de controlo representa duas coisas: por um lado, um abdicar face ao medo, por outro um isolamento face ao mundo. Uma abdicação, porque representa a ilusão de transcendência face às potenciais adversidades: criando a ilusão de que se está no controlo, alimenta-se a utopia de que nada de mal nos vai acontecer. Lá está: o medo - em última instância da morte. Representa também um isolamento porque querermos controlar o que nos acontece implica termos que eliminar as possibilidades de imprevistos ocorrerem: e apenas retirando o mundo, e os outros, das nossas vidas (ou, pelo menos, de onde nos possam magoar) as conseguimos controlar. Apenas reduzindo as vidas a nós próprios as podemos dominar em absoluto. Naturalmente, o esforço é inglório: nem o mundo se reduz a nós próprios, nem se pode tirar satisfação de uma vida onde as ocorrências são decididas unicamente por nós próprios: é a solidão. No entanto, é dessa isolada insatisfação que se alimenta ainda mais a necessidade de maior controlo porque, precisamente, a razão inicial que levou a tudo se querer controlar foi a recusa da infelicidade, infelicidade essa que a crescente insatisfação alimenta cada vez mais. E assim, inadvertidamente, cria-se um ciclo vicioso do qual é difícil sair: quanto mais se aperfeiçoa o controlo, maior é a insatisfação - o perfeccionismo controlador deriva num processo degenerador de isolamento, insatisfação permanente e, não havendo mais ninguém para culpar, de ódio-próprio. A infelicidade é, pois, o preço que se paga pela transitória - e falsa - sensação de segurança que o controlo oferece. Nas comunidades ocorre o mesmo fenómeno. Quando a doença mental que é o controlo do mundo passa do indivíduo para a comunidade, o esforço colectivo é tão inglório quanto o individual: onde no processo individual o indivíduo perde a felicidade pela ilusão de controlo - segurança, no processo colectivo a comunidade perde a liberdade e, consequentemente, a par da possibilidade de cada indivíduo existir por si próprio, desaparece também a capacidade da comunidade gerar prosperidade (o maior garante de paz e segurança). Claro está que numa comunidade maioritariamente composta por pessoas genericamente isoladas - ignorantes face ao mundo, e profundamente influenciada por doentes do controlo, essa perda de liberdade em nome de uma segurança utópica será celebrada como o caminho da felicidade: o grande aliado do socialismo das sociedades pós-modernas é o crescente isolamento dos homens face ao mundo - e a sua arma é a oferta ilusória da salvação.
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