quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

BACK ON THE HORSE

                                                                               Daqui.

UM CÓDIGO POLITICAMENTE CORRECTO, JÁ!

Como parece estar na moda identificar discriminações, eu, não querendo ficar atrás, indignei-me hoje quando percebi que existe uma opressão imensa sobre os militantes da esquerda democrática levada a cabo aquando da conspiração fascista da direita reaccionária que levou à instauração do código da estrada: é inadmissível numa sociedade igualitária, fraterna e justa que aos automóveis que vêm da direita lhes seja dada sempre prioridade. Não é justo que alguém apenas por vir da direita tenha prioridade sobre quem vem da esquerda. Por que razão há-de o automobilista da direita chegar a horas e o da esquerda não? Exige-se justiça JÁ! Em primeiro lugar, proponho um sinal STOP em cada esquina de cada cruzamento. Aí, os automobilistas deverão debater de forma esclarecida, seguida de necessária votação, sobre quem deverá ter as prioridades; em segundo lugar, proponho uma comissão de inquérito, seguida da necessária convenção popular, para elaborar um guião para a justiça rodoviária que implemente a paridade entre as prioridades da esquerda e da direita, de forma alternada, regulamentada e digna. Em cruzamentos onde tal paridade não possa ser atingida deve ser consultado o ministério das obras públicas para proceder às necessárias alterações físicas dos locais injustos. Após esta importante reforma prometo que os sinais de STOP serão removidos, por completo, pois o trânsito fluirá sem reservas, entraves ou problemas. Deste modo, justo e progressista, alcança-se, não apenas a necessária superação de uma injustiça indigna mas, também, estimula-se o investimento público, em particular o sector das construções públicas, fundamental ao progresso rumo ao futuro.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

IMPERATIVO CATEGORICAMENTE CORRECTO

O imperativo categórico Kantiano ao longo dos tempos:

1785 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal".

2000 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo imaginar que estás a ser permanentemente observado por dois milhões de pessoas através da televisão".

2010 - "Age apenas segundo uma mínima tal que te permita não ser vilipendiado no espaço público por múltiplas minorias que controlam mediaticamente a definição do que é moralmente aceitável".

sábado, 14 de janeiro de 2017

MOTIONLESS

                                                                    Daqui.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

BREVES NOTAS SOBRE A LIBERDADE: O Neo-Esclavagismo Racionalista

Se, por um lado, é verdade que o espírito do nosso tempo se faz de uma crença inabalável nos méritos do Homem, por outro lado, esse imenso optimismo humanista, ao alicerçar-se numa das maiores ilusões intelectuais da nossa História, é bem capaz de encerrar dentro de si próprio as sementes da nossa própria destruição. Que ilusão é essa? A ideia completamente fantasiosa de que superámos, ou poderemos superar, a violência da nossa condição humana - aquela que quase destruiu a Europa e o mundo ainda há pouco mais de setenta anos - e que continuamos a subir uma escada evolutiva infinita, sempre a progredir, sempre a melhorar, rumo a um ideal de progresso e florescimento humano que, mesmo que seja impossível de atingir na sua plenitude, se encontra no topo dessa mesma escada. De acordo com essa ideia, hoje somos melhores, mais inteligentes e, acima de tudo, mais evoluídos do que aqueles outros humanos que nos antecederam, seres perdidos na História e na barbárie hoje definitivamente ultrapassada. O rumo, pensa-se - ou talvez fosse melhor dizer: intui-se -, é por definição sorridente: se a evolução nos trouxe até aqui, e o aqui é infinitamente melhor do que o que já fomos no passado, então o futuro só pode trazer mais evolução, mais progresso e, consequentemente, mais desenvolvimentos, avanços e melhorias. Sonham-se com os avanços tecnológicos do amanhã e imaginam-se os mundos quase perfeitos que os nosso filhos e, quiçá, fruto dos descobrimentos medicinais, nós também ainda teremos o prazer de desfrutar nas décadas e séculos que estão por vir.
Esta ilusão progressista, uma mera promessa, serve de isco para uma ideia anterior que a sustenta: a noção que, de algum modo, há um destino, um telos, uma finalidade, para o universo e, consequentemente, para os homens também. É nesse telos que se descobre a razão, e o sentido, do mundo e, por conseguinte, da existência humana. Antes do advento da modernidade secular em que vivemos, esse porvir era oferecido pela religião, e era conhecido tanto pela fé como pela razão; hoje, com o triunfo do materialismo, sobra-nos a razão. Muita desta crença nas nossas próprias valias humanas, tal como na nossa capacidade de controlar o mundo, deriva de olharmos para nós próprios através daquilo que nos distingue dos demais: a nossa racionalidade. E, cheios de convicção nos méritos da nossa razão, assumimos que essa razão tem um carácter divino: aquilo que ela estabelece, tal como a antiga palavra de Deus, é aquilo que é verdade. Consequentemente, algo que é racional, por definição, é tido como algo que é verdadeiro (mesmo no nosso linguarejar, "ter razão" implica afirmar algo que é verdade e que deve ser aceite como tal por todos); e como uma coisa que é verdadeira não pode ser falsa, também uma coisa que é racional não o pode ser. E assim chegamos à noção de que dois postulados racionalmente válidos não podem ser contraditórios pois, como uma verdade não pode entrar em conflito com outra verdade, se dois postulados são igualmente racionais, e por isso verdadeiros, então terão que ser compatíveis entre si. Esta compatibilidade, ou melhor será dizer: a busca por essa compatibilidade, norteia muito do nosso tempo: para cada conflito, para cada percalço, para cada questão, recorrendo à nossa racionalidade, a custo, lá encontraremos a solução. E de solução em solução evoluímos, e dessa forma, porque convencidos do ritmo seguro e infalível da nossa razão, antevemos cheios de certeza que o futuro que os nossos passos buscam é melhor e, acima de tudo, mais verdadeiro. É dessa verdade que achamos ir descobrindo que vem o optimismo e a crença no progresso; e é dessa verdade racional que imaginamos dentro de nós que vem o carácter proto-divino que nos arrogamos de possuir. Assim, o absoluto, eterno e divino, para o homem contemporâneo herdeiro de Kant, é o racional que temos dentro de nós. Nietzsche exclamou pelo morte de Deus mas, na verdade, na boa tradição Tomista, Ele apenas foi substituído por uma outra crença, uma crença na harmonia racional do universo.
No entanto, se é verdade que a ideia de não contradição entre duas hipóteses igualmente racionais é uma noção válida no campo das ciências abstractas e matemáticas, também não será menos verdade que no campo das vidas dos homens, das suas morais e dos seus dilemas, representa uma noção que não poderia ser mais errada. E a vida dos homens, ao contrário dos robôs, não se faz apenas de matemática. No mundo moral, o valores colidem. No mundo dos homens, postulados igualmente válidos podem ser incompatíveis ou concorrentes. É tão racionalmente válido eu desejar viver numa sociedade segura como numa sociedade livre - mas apostar numa delas implica invariavelmente prejudicar a outra; eu posso querer ser corajoso - mas a prudência não deixa de ser fundamental a uma vida bem vivida; eu posso sonhar com a justiça a presidir à organização social da minha comunidade - mas a solidariedade e a clemência também são valores importantes numa comunidade. No final, implica perceber-se que se os valores colidem entre si mais do que descobrir qual a receita certa, ou verdadeira, para o dilema social, a verdadeira questão é escolher qual a combinação de valores que desejamos para as nossas vidas.
E a diferença é abissal.
Isto porque acreditar-se numa solução pressupõe sempre que as coisas são de alguma forma predeterminadas: uma solução que é a certa, e por isso verdadeira, será uma solução que terá que estar de acordo com um padrão universal de verdade, padrão esse que nos antecede a nós humanos que apenas nos pretendemos aproximar dele. A verdade é eterna, imutável e divina, a verdade é verdade independentemente de nós. Mas, mais do que isso, a verdade é apenas uma. E deste modo chegamos à implicação determinista, a grande consequência não falada dos modelos racionalistas. Sem o arbítrio de Deus, onde apenas a razão é verdadeira e universal, onde o que é verdadeiro e universal antecede a consciência humana, e onde a solução que pretendemos para o dilema moral é racional, então a solução que se persegue será verdadeira, universal e antecede a consciência humana.. Assim sendo, a solução já existirá antes de ser conhecida pelos humanos. Nada se cria, apenas se descobre. Nada se decide por nós próprios, apenas se revela o que devemos fazer. Em suma: não somos livres para escolher, apenas para perceber o que é suposto que nós façamos. É a morte da liberdade.
A alternativa é a do livre-arbítrio: assumir que escolher implica criar. Escolher verdadeiramente sem soluções pré-definidas como boas ou más implica assumir-se que o mundo é nosso para criar por entre as opções que temos pela frente - e não limitados pelas certezas de uns quantos supostamente iluminados. E com essa profunda liberdade vem a correspondente responsabilidade. Já o determinismo racionalista retira o jugo da responsabilidade do pescoço humano e coloca-o num pseudo-critério racional que, sendo universal, sendo absoluto e infalível, assume a responsabilidade da escolha, escolha essa que deixa de ser humana para passar a ser cósmica, universal, racional. Determinismo implica fatalismo, destino e fado. Já a liberdade implica criar, fazer e sonhar.
O paradoxo é que o determinismo, ao vender a ilusão de solução universal, sendo esta falsa, acaba por aprisionar-nos a um rumo que, não sendo necessariamente o melhor, condiciona-nos aos caprichos daqueles que nos garantem ter descoberto as soluções para os dilemas dos homens. São os novos messias: os heróis racionalistas que definem o que é racional, ou bom, o que se deve fazer, ou não, sempre cheios de certezas, sempre cheios de soluções. Ponha-se um actor, de bata branca, caderno de notas na mão, a afirmar que os últimos estudos garantem isto ou aquilo e o sucesso é garantido, seja esse sucesso vender detergente, carros, pessoas ou ideias. Já o caminho da verdadeira liberdade, a de pensar, escolher e criar, essa apenas oferece a vertigem do abismo: um universo sem sentido oferecido a priori e que, por isso mesmo, assusta. Muito. Mas também abre a vida à infinitude de destinos que as nossas escolhas podem criar. 
Assim, concluindo, por um lado, temos o falso conforto temporário (porque as "soluções" esbarram sempre na próxima esquina) que a ilusão de uma certeza sobre o sentido para a vida nos oferece - e a sensação de controlo que dela deriva, tanto a individual como a comunitária; por outro lado, temos a vertigem, e a responsabilidade, de termos os nossos próprios destinos, quaisquer que sejam, nas nossas mãos. Do primeiro, deriva o centralismo, o controlo, a conformidade, o monismo; do segundo, a espontaneidade, a autonomia, a criatividade, a diversidade. Entre um e outro, como sempre, se faz a diferença - enorme! - entre escravos e homens-livres. Mesmo que a esse grilho mental nos dias de hoje se dê o nome de razão.

TEACHING MATH

                                                 (Via Eduardo Freitas no FB)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

FILHOS PRÓDIGOS

Nos tempos de hoje vive-se a noção de que evoluímos positivamente: fisicamente, de mamíferos menos evoluídos; intelectualmente, de antecessores menos inteligentes; socialmente, de comunidades menos avançadas. Aliás, a ideia é precisamente a de "avanço": progresso, desenvolvimento, evolução, tudo a aumentar de forma positiva do passado para o presente - e a promessa de que assim pode continuar rumo a um futuro que se imagina como virtuoso e cheio de maravilhas salvíficas. No entanto, esta ideia é uma ideia muito recente, filha bastarda do iluminismo e do racionalismo científico que lhe sucedeu. Antes disto tudo, e durante a maior parte da existência humana, a representação do sentido da História era a oposta, a de decadência: o passado é que era idílico e paradisíaco e a existência humana representava uma queda desse Olimpo divino, no caso Grego, ou do Paraíso de Adão e Eva, no caso bíblico. A queda na imperfeição humana separava-nos da perfeição divina e condenava-nos a aceitar a tragédia como parte da vida. Nos dias de hoje a intuição é a oposta: todos os problemas terão uma solução, o optimismo garante a salvação (a derrota é ser pessimista), não há limites para o futuro (científicos, físicos ou morais), a vida eterna pode ser aqui e agora, haja tempo e saúde para lá chegar. No entanto, no seu âmago, a realidade da vida humana é muito mais coerente com a visão antiga do que com a moderna: tornamo-nos seres conscientes durante o paraíso que é a infância, na terra dos sonhos e da magia, isto apenas para dela inesperadamente cairmos quando tomamos noção dos paradoxos, das limitações e das tragédias que compõem a vida adulta. Aliás, a maçã, símbolo da fertilidade, que a serpente, símbolo fálico, oferece a Eva, e que esta prova, é a perfeita representação para a inevitabilidade da puberdade e a obrigação de com ela perder-se o paraíso que é a infância. A adolescência é a queda; a vida adulta é o embate no chão, na base de tudo, ou seja, no tomar noção da condição humana: a morte dos próximos, as perdas múltiplas, a consciência da finitude, etc., etc. Ser adulto implica lidar com o facto de sermos aquilo que somos. Ser realista, portanto. Mas nos dias de hoje em que o regresso ao paraíso perdido na infância está sempre prometido no futuro sempre presente ao virar da próxima esquina não há razões para se ter que crescer: para quê aceitar o que nos magoa se no futuro aquilo que nos magoa pode ser simplesmente mudado, eliminado, ou seja: resolvido? E dessa forma adia-se o amadurecimento. E prolonga-se a infância. E pune-se o realismo: para quê falar dos perigos e das obrigações do mundo dos adultos quando tudo à nossa volta nos ensina a viver de, e para os, sonhos? A abundância que a revolução industrial, a grande filha do Iluminismo, nos trouxe permitiu banquetear-nos na indolência, na arrogância e no luxo de não vermos o mundo tal como ele é mas tal como nós gostaríamos que ele fosse. E, tal como o filho pródigo, nesse luxo, nessa arrogância, e nessa indolência, desbaratamos a abundância material, moral e civilizacional que nos foi legada. Resta saber se haverá tempo para a redenção.

domingo, 6 de novembro de 2016

LINHAS DIREITAS T2

Entretanto, o Linhas Direitas está de regresso para a sua segunda temporada. Teve direito a teaser e já vai no terceiro episódio.

TO DIVIDE

"To divide (and not merely to distinguish as facets or aspects of one substance) body and soul, science and craft or art, the individual and society, description and evaluation; philosophical, scientific and historical judgement, empirical and metaphysical statements, as if any of these could be independent of one another, is for Herder false, superficial and misleading. (...) One upon a time men 'were all things: poets, philosophers, land surveyors, legislators, musicians, warriors'. In those days there was unity of theory and practice, of man and citizen, a unity that the division of labour destroyed; after that men became 'half thinkers and half feelers'. There is, [Herder] remarks, something amiss about moralists who do not act; epic poets who are unheroic, orators who are not statesmen, and aestheticians who cannot create anything. Once doctrines are accepted uncritically - as dogmatic, unaltered, eternal truths - they become dead formulae, or else their meaning is fearfully distorted. Such ossifications and decay lead to nonsense in thought and monstrous behaviour in practice".

Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 419-20

DOOMED TO CHOOSE

"What is here entailed is that the highest ends for which men have rightly striven and sometimes died are strictly incompatible with one another. Even if it were possible to revive the glories of the past, as those... pre-historicist thinkers who called for the return to the heroic virtues of Greece or Rome, we could not revive and unite them all. If we chose to emulate the Greeks, we cannot also emulate the Hebrews; if we model ourselves on the Chinese..., we cannot also be the Florentines of the Renaissance, or the innocent, serene, hospitable savages of the eighteen-century imagination. Even if, per impossible, we could chose among these ideals, which should we select? Since there is no common standard in terms of which to grade them, there can be no final solution to the problem of what men as such should aim at. The proposition that this question can, at last in principle, be answered correctly and finally, which few had seriously doubted since Plato had taken it for granted, is undermined. (...) But if this is so, then the notion of the perfect civilization in which the ideal human being realizes his full potentialities is patently absurd: not merely difficult to formulate, or impossible to realize in practice, but incoherent and unintelligible. This is perhaps the sharpest blow ever delivered against the classical philosophy of the West, to which the notion of perfection - the possibility, at least in principle, of universal, timeless solutions of problems of value - is essential".

Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 430-1

terça-feira, 1 de novembro de 2016

RESPECTING GUNNAR

                                                                          Daqui.

ON THE IMPORTANCE OF POLITICAL CULTURE

[Before the 1905 revolution] The Russian peasant household [dvor] was organized on a simple authoritarian model, under which full authority over the members and their belongings was entrusted to one person, known as bol'shak or khoziain. This family patriarch was usually the father...: he assigned farm and household duties, he disposed of propriety, he adjudicated domestic disputes,, and he represented the household in its dealings with the outside world. Customary peasant law endowed him with unquestioned authority over his dvor: in many ways, he was heir to the authority of the serf owner. Since the Emancipation Edict of 1861, the bol'shak was also authorized by the government to turn over members of his household to administrative organs for punishment. He was the paterfamilias in the most archaic sense of the word, a replica in miniature of the Tsar.
(...) The household allowed no room for individuality: it was a collective which submerged the individual in the group. Second, given that the will of the bol'shak was absolute and his orders binding, life in the dvor accustomed the peasant to authoritarian government and the absence of norms (laws) to regulate personal relations. Third, the household made no allowence for private property: all belongings were held in common. Male members acquired outright ownership of the household's movable property only at its dissolution, at which time it once again turned into the collective property of the new household. Finally, there was no continuity between households, and consequently neither pride in ancestry nor family status in the village, such as characterized Western European and Japanese rural societies. In sum, the Great Russian peasant, living in his natural environment, had no opportunity to acquire a sense of individual identity, respect for law and property, or social status in the village - qualities indispensable for the evolution of more advanced forms of political and economic organization".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp. 93-5

sábado, 22 de outubro de 2016

ON PRIVATE PROPERTY

"Russia's absolutism showed particular qualities that distinguished it from that of the Bourbon's, Stuart's, or Hohenzollern's. European travellers to Muscovy in the sixteenth and seventeenth centuries, when ancien régime absolutism stood at its zenith, were impressed by the differences between what they were accustomed to at home and what they saw in Russia. The peculiar features of Russian absolutism in its early form, which lasted from the fourteenth until late eighteenth century, were marked by the virtual absence  of the institution of private property, which in the West confronted royal power with effective limits to its authority. In Russia, the very concept of property (in the Roman sense of dominion over objects) was unknown until introduced in the second half of the eighteenth century by the German-born Catherine II. Muscovite Russia had been run like a private estate, its inhabitants and territories, with everything they contained, being treated as property of the Crown. (...)
The Great Russian peasant, with centuries of serfdom in his bones, not only did not crave for civil and political rights, but... held such notions in contempt. Government had to be willful and strong - that is, able to exact unquestioned obedience. A limited government, subject to external restraints and tolerant to criticism, seemed to him a contradiction in terms. To the officials charged with administering the country and familiar with these peasant attitudes, a Western-type constitutional order spelled one thing only: anarchy. The peasants would interpret it to mean the release from al of obligations to the state which they fulfilled only because they had no choice: no more taxes, no more recruits, and, above all, no more tolerance of private property in land".

Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp.54-56

sábado, 15 de outubro de 2016

STRANGERS TO THE FATE OF ALL OF THE REST

"The first thing that strikes the observation is an innumerable multitude of men, all equal and alike, incessantly endeavouring to procure the petty and paltry pleasures with which they glut their lives. Each of them, living apart, is a stranger to the fate of all of the rest; his children and his private friends constitute to him the whole of mankind. As for the rest of his follow citizens, he is close to them, but does not see them; he touches them, but he does not feel them; he exists only in himself and for himself alone; and if his kindred still remain to him, he may be said at any rate to have lost his country.
Above this race of men stands an immense and tutelary power, which takes upon itself alone to secure their gratifications and to watch their fate. That power is absolute, minute, regular, provident, and mild. It would be like the authority of a parent if, like that authority, its object was to prepare men for manhood; but it seeks, on the contrary, to keep them in perpetual childhood: it is well content that the people should rejoice, provided that they think of nothing but rejoicing. For their happiness such a government willingly labours, but it chooses to be the sole agent and the only arbiter of that happiness; it provides for their security, foresees and supplies their necessities, facilitates their pleasures, manages their principal concerns, directs their industry, regulates the descent of property, and subdivides their inheritances: what remains, but to spare them all the care of thinking and the trouble of living?
Thus it every day renders the exercise of the free agency of man less useful and less frequent; it circumscribes the will within a narrower range and gradually robs a man of all of the uses of himself. The principle of equality has prepared man for these things; it has predisposed men to endure them and often look on them as benefits.
After having thus successively taken each member of the community in its powerful grasp and fashioned him at will, the supreme power then extends its arm over the whole community. It covers the surface of society with a network of small complicated rules, minute and uniform, through which the most original minds and the most energetic characters cannot penetrate, to rise above the crowd. The will of man is not shattered, but softened, bent, and restrained form acting. Such a power does not destroy, but it prevents existence; it does not tyrannise, but it compresses, enervates, extinguishes, and stupefies a people, till each nation is reduced to nothing better than a flock of timid and industrous animals, of which the government is the shepherd".

Alexis de Tocqueville, Democracy in America, II, 4, VI (1835)

domingo, 18 de setembro de 2016

A AFIADORA DE FACAS

Quando me cruzo com as afirmações da deputada Mortágua logo Berlin me vem à cabeça: "single minded monists, ruthless fanatics, men possessed by an all-embracing coherent vision do not know the doubts and agonies of those who cannot wholly blind themselves to reality". Mesmo sem compreender nada do mundo, ou das pessoas, a senhora acha-se no direito de o vergar, a ele e a nós, à sua imaginada superior vontade. E do seu feliz desígnio, custe o que custar, nada resultará além da miséria daqueles os quais a senhora em seu nome se arroga de falar. Oiçamos a música do amolador: eles estão a afiar as facas. E o porco, mesmo que vegetariano, somos nós.

TAXTOON

 Via Luís Paixão Martins, no Facebook.

sábado, 17 de setembro de 2016

AS LIÇÕES DE VIDA DE FRASIER CRANE



Fazem hoje precisamente vinte e três anos que estreou na televisão norte-americana o primeiro episódio da série Frasier. Com um elenco de luxo composto por Kelsey Grammer, David Hyde Pierce, John Mahoney, Jane Leaves e Peri Gilpin, Frasier representa o mais bem sucedido spin off da história da televisão. Narrando as aventuras e desventuras de Frasier Crane após a sua saída de Boston e o decorrente abandono do bar Cheers, as onze temporadas de Frasier representam, por ventura apenas acompanhadas de Seinfeld, a época de ouro da sitcom americana. Naturalmente que séries como o já referido Cheers, ou Family Ties, ou ainda o revolucionário All in The Family com Archie Bunker, fazem todas parte do imaginário infantil de quem, como eu, nasceu e cresceu nos anos 70 e 80 do defunto Século XX. No entanto, Frasier, para mim, encontra-se uns quantos andares acima de todos os outros. Primeiro, e mais obviamente, pelos actores e enredos. Frasier apresenta um elenco de categoria inigualável: desde Grammer que, com a sua formação em Julliard e um percurso nascido no teatro regional e desaguado na Broadway, tinha explodido no panorama televisivo, transformando o irrelevante Frasier Crane numa das mais prezadas personagens do super sucesso da década de 80: Cheers; passando por David Hyde Piarce com seu imbatível talento para a comédia física repescado de uma obscura comédia (The Powers That Be, 1992-3) onde o neurótico Niles já existia ainda sem ninguém saber, não esquecendo John Mahoney, um late bloomer que apenas começou a actuar aos quarenta pela mão de John Malkovic, e terminando na componente feminina onde Jane Leeves, apesar do seu não muito bem conseguido sotaque de Manchester apenas evidente para quem conheça o sotaque de Manchester, sempre conseguiu encher o ecrã, em especial quando, de forma sempre inocente, se mantinha a leste do interesse latente, intrusivo, por vezes quase perverso, do tímido e altamente desajustado Niles, transformando os dois naquele que terá sido um dos mais bem conseguidos interesses românticos da TV. Finalmente, Peri Gilpin no papel de uma mulher independente propensa ao sexo ocasional mas longe, muito longe, do cinismo e superficialidade relacional próprios do sexo citadino do Século XXI, todos compõem um ramalhete de excelência que foi capaz de transportar para a televisão a finesse do teatro que, doze anos depois de terminado, ainda perdura como o paradigma da boa representação televisiva. Uma referência ainda para a qualidade dos actores convidados: desde a sempre fascinante Bebe Neuwirth no papel de ex-mulher de Frasier até aos outros trabalhadores da radio KACL (os actores que, por exemplo, dão vida a Bulldog Briscoe ou Gil Chesterton são sempre formidáveis), terminando naqueles que aparecem apenas por um ou dois episódios, uma participação em Frasier tornou-se num carimbo de qualidade interpretativa e uma medalha no peito de qualquer actor. Da mesma forma, o grupo de escritores, apesar de algumas mudanças entre as temporadas 8 e 10 felizmente corrigidas na brilhante temporada final, conseguiu manter o nível do enredo sempre entre o alto gabarito e o nada abaixo de genial: não conheço outra séria de televisão que consiga fazer uma piada mencionando o racionalismo panteísta de Espinosa ou um gewurztraminer de colheita tardia. Aliás, uma das características que separa Frasier de todos os outros é precisamente a profundidade intelectual: se, por um lado, é verdade que é um certo pedantismo cultural que preside à recriação do mundo de elite onde Frasier e Niles, normalmente sem sucesso, bem se tentam integrar, por outro lado, não deixa também de ser verdade que é a tensão entre o amor à excelência, ao belo, e ao transcendente da vida com a inescapável boçalidade humana que, agarrada ao ego, se banqueteia com o superficial, a imagem e com o que o outro pensa - no fundo a tensão entre o arauto da experiência do homus socialis e o abismo da mesquinhez da red carpet - que é responsável pelo brilhantismo de Frasier. Naturalmente, para escrever tamanha farsa social é fundamental que se tenha um profundo conhecimento das realidades que se procura retratar; e os autores de Frasier claramente têm: desde a música clássica, à ópera, ao vinho (a competição entre Frasier e Niles pelo título de Corkmaster será um pináculo da comédia televisiva), ao fine dining (quem nunca quis ir visitar o Le Cigare Volant?), passando pela pintura, literatura ou alta-costura, por todas as artes a série nos passeia oferecendo, por um lado, para quem as aprecia, um bónus cultural  que mais nenhuma série faz, quer, por outro lado, criando uma sátira social com uma profundidade inigualável: hoje, Frasier (ainda) será uma das melhores comédias da televisão; daqui por duzentos ou trezentos anos será uma enciclopédia que configurará um telescópio (mesmo que sem ser da Universidade de Cornell) directamente apontado sobre a sociedade americana (e não só) do final do Século XX. A esta intemporalidade ajuda a opção deliberada dos autores de evitarem as referências fáceis ao soundbyte pop do momento: nomes de pessoas famosas, eventos reais da altura ou caricaturas do que passava na TV, tudo isso é inexistente em Frasier. A série torna-se assim, tal como uma enorme peça de teatro clássico, numa sintetização do fundamental deixando de lado todo o ruído, ou lixo, com que todos temos que lidar no dia a dia. Uma espécie de transcendência ocorre aqui: identificamo-nos com a vida representada apesar de, e aqui reside o verdadeiro pretenciosismo da série, nos fazer olhar para cima, para a versão ideal, limpa, quase perfeita das interacções ridículas que as altamente imperfeitas personagens levam a cabo. No entanto, essas personagens são constantemente guiadas pelos mais nobres sentimentos e pelas mais belas virtudes. E aqui encontramos a verdadeira genialidade cómica de Frasier: na farsa e no ridículo que as melhores versões possíveis de nós próprios continuam a configurar. Neste sentido, Frasier é profundamente humano. E consolador: que resta fazer aquando da constatação do ridículo que somos para além de rirmos? Finalmente, e não menos importante, apesar de talvez ausente (tal como muitas das referências mais elevadas) para os espectadores mais jovens, em Frasier, encontro muitas das importantes lições de vida que são fundamentais a qualquer humano adulto. Na farsa social, por exemplo, torna-se evidente a infelicidade que uma vida orientada para a imagem e o superficial que os outros vêem em nós pode causar, apesar de o canto das sereias ser sempre apelativo aos egos de cada um. Mesmo que essa infelicidade seja terminar num beco traseiro no meio de abelhas e caixotes do lixo, e o canto das sereias fosse a importância de conseguir entrar na próxima - progressivamente mais restrita (e cara) - sala de um centro de spa, também aí nos identificamos com a caricaturada pulsão que motiva os comportamentos das personagens - e nos comiseramos com o triste fim que tal pulsão encontrou.  E se Frasier Crane se deixa seduzir pela fama, ou Niles pela ostentação, a tempo lá estará o enredo a fazê-los, mesmo contrariados, arrepiar caminho - ou, pelo menos, a falhar estrondosamente. E assim, na verdade, Frasier e Niles estão lá a sacrificar-se por nós: onde eles falham, nós, sem sair do sofá nem pagarmos os embaraços a que eles se sujeitam, podemos aprender que aquele não é o caminho. Outra lição será a importância da família que transparece sempre naquele apartamento: confortável (ou não configurasse ele em primeiríssimo plano uma réplica exacta do sofá que Coco Chanel tinha no seu atelier de Paris) mas, mais do que qualquer coisa, cheio de vida, de ligação emocional, de partilha, quer do bom quer do mau; uma casa cheia, e por isso bem capaz de oferecer companhia à solidão que tantas vezes sentimos. Aliás, tanto assim é não fosse Frasier toda uma série acerca da redenção da relação entre pai e filho, por um lado, e entre irmãos por outro. Mas, em última instância, para mim, a grande lição de Frasier encontra-se na falência última do perfeccionismo em que o nosso mundo é tão pródigo: às ambições mais que perfeitas de Frasier e Niles, ou aos interesses amorosos de Frasier, ou ainda à obsessão de suposto auto-conhecimento através da psiquiatria que ambos exercem, sempre a imperfeição do mundo se lhes coloca no caminho para lhes estragar os planos. A verdade é que num mundo imperfeito, cheio de falhas, - adulto, portanto - não há lugar para sonhos perfeitos. E é esse sonho perfeccionista infantil que impede sempre a cada momento a felicidade de Frasier: onde de outra forma ele poderia encontrar a felicidade, termina sempre a concentrar-se na falha que lhe lembra que o mundo não é perfeito - o que para um perfeccionista equivale a dizer que não é bom, harmónico ou belo. No entanto, a vida, sendo profundamente imperfeita, não deixa de ser a única coisa de jeito, ou de valor, que temos. Frasier transforma a incapacidade de lidar com a imperfeição em comédia e com isso relembra, ou ensina-nos, a mais bela das lições: na impossibilidade do perfeito, resta-nos amar a imperfeição - e rirmos com ela - sem nunca desistirmos de tentar fazer o melhor que conseguirmos com aquilo que temos. Frasier Crane nunca desistiu e quando, no último episódio, nos deixa, rumo ao desconhecido, com o poema Ulysses de Tennyson, é impossível não sentirmos nós também, tal como a sua família, a dor da separação. É por essa razão que a primeira coisa que faço quando vejo esse último, belo apesar de, porque não queremos nunca que o fim de algo inspirador chegue, altamente indesejável episódio, é voltar a ver o episódio-piloto, o tal que faz vinte e três anos hoje: é que se é verdade que Frasier nos ajuda a resolver e largar o imaginário infantil de vidas perfeitas, não deixa de ser verdade que ele próprio pode continuar a configurar aquele último refúgio de imaginária perfeição que a maioridade da minha idade ainda me permite usufruir.

sábado, 7 de maio de 2016

PATERNALISM

"In the world today individual stupidity and wickedness are forgiven more easily than failure to be identified with a recognised party or attitude, to achieve an approved political or economic or intellectual status. In earlier periods, when more than one authority rules human life, a man might escape the pressure of the State by taking refuge in the fortress of the opposition - of an organised Church or dissident feudal establishment. The mere fact of conflict between authorities allowed room for a narrow and shifting, but still never entirely non-existent, no man's land, where private lives might still precariously be lived, because neither side dared to go too far for fear of too greatly strengthening the other. Today the very virtues of even the best-intentioned paternalistic State, its genuine anxiety to reduce destruction and disease and inequality, to penetrate all the neglected nooks and crannies of life which may stand in need of its justice and its bounty - its very success in those beneficent activities - have narrowed the area within which the individual may commit blunders, and curtailed his liberties in the interest (the very real interest) of his welfare or of his sanity, his health, his security, his freedom from want and fear. His area of choice has grown smaller not in the name of some opposing principle - as in the ark Ages or during the rise of nationalities - but in order to create a situation in which the very possibility of opposed principles, with all their unlimited capacity to cause mental stress and danger and destructive collisions, is eliminated in favour of a simpler and better regulated life, a robust faith in an efficiently working order, untroubled by agonising moral conflict".

Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p. 91

sexta-feira, 6 de maio de 2016

THE SHIFT

"In western Europe this tendency has taken the milder form of a shift of emphasis away from disagreement about political principles (and from party struggles which at least in part sprang from genuine differences of outlook) towards disagreements, ultimate technical, about methods - about the best ways of achieving that degree of minimum economic or social stability without which arguments concerned with fundamental principles and the ends of life are felt to be 'abstract', 'academic' and unrelated to the urgent needs of the hour. It leads to that noticeably growing lack of interest in long-term political issues - as opposed to current day-to-day economic or social problems - on the part of the populations of the Western European continent which is occasionally deplore by shocked American and British observers, who mistakenly ascribe it to the growth of cynicism and disenchantment with ideals.
No doubt all abandonment of old values for new may appear to the surviving adherents of the former as conscienceless disregard for morality as such. If so, it is a great delusion. There is all too little disbelief, whether conscienceless or apathetic, in the new values. On the contrary, they are clung to unreasoning faith and that blind intolerance towards scepticism which springs, as often as not, from an inner bankruptcy or terror, the hope against hope that here at least is a safe haven, narrow, dark, cut off, but secure. Growing numbers of human beings are prepared to purchase this sense of security even at the cost of allowing vast tracts of life to be controlled by persons who, whether consciously or not, act systematically to narrow the horizon of human activity to manageable proportions, to train human beings into more easily combined parts - interchangeable, almost prefabricated - of a total pattern. In the face of such a strong desire to stabilise, if need be, at the lowest level - upon the floor from which you cannot fall, which cannot betray you, let you down - all the ancient political principles begin to vanish, feeble symbols of creeds no longer relevant to new realities".

Isaiah Berlin, Political Ideas in the 20th Century (1950), in: Liberty, ed. Henry Hardy, Oxford University Press, 2008, p.83