segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
A ASCENÇÃO E A QUEDA (I)
A civilização ocidental representa o momento onde a espécie humana
conheceu a melhor qualidade de vida da sua história: nunca tantos
viveram tanto e tão bem como hoje no Ocidente. Este triunfo
civilizacional não foi alcançado do nada. Pelo contrário: foi fruto de
todo um processo árduo de evolução da barbárie para um mundo onde se
pode viver em paz, segurança e liberdade. Hoje, por regra, um ocidental,
nem depende da sorte para sobreviver num mundo que não controla, nem
vive num clima de conflito permanente onde a sua vida esteja de forma
constante em risco. Pelo contrário: o homem ocidental pode viver a sua
vida explorando os seus desejos, dando-se ao luxo de manifestar
livremente as suas vontades e moldar a sua vida da forma como muito bem
entende. Aliás, os grandes debates do Século XXI no Ocidente centram-se
precisamente em todos os direitos, garantias e liberdades que se devem
dar como adquiridas por parte de todos os cidadãos ocidentais por igual.
E de tal forma triunfante a civilização ocidental é que muitos no seu
seio advogam que esses direitos, liberdades e garantias devem ser
oferecidos ao mundo inteiro, a todos por igual e sem excepção. Tal
desiderato é absolutamente inédito na história universal.
Diz o ditado que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. A ser verdade o dito - e normalmente é - a queda da civilização ocidental será estrondosa e monumental, sobrando apenas a questão de saber quando tal fantástico evento ocorrerá - e de que forma. Tal como com a vida de cada um, as civilizações, aparecem, afirmam-se, vencem e conquistam apenas para, a partir de algum momento, declinarem, caírem e das duas uma: ou desaparecerem sem rasto num imenso oceano de esquecimento ou, no melhor cenário, verem os seus despojos finais acantonados atrás das vitrines dos museus daqueles que lhes sucederem. Assim foi com todos e, naturalmente, assim será connosco. Para muitos, os sinais da decadência estão por todo o lado e a queda já está a acontecer: decréscimo de poder no mundo, infertilidade generalizada, degeneração dos valores civilizacionais, etc., são os argumentos oferecidos. Para outros, a ascenção continua e a verdadeira civilização ainda não encontrou o seu apogeu: a revolução tecnológica contínua, o progresso material, a melhoria da qualidade de vida, os "avanços sociais", etc., são os contra-argumentos. Para os pessimistas, o pico civilizacional foi lá atrás; para os progressistas - optimistas, ela ainda estará por cumprir. Também é difícil encontrar concórdia sobre o que faz, ou fez, uma civilização: uns dirão que é o respeito pelas suas tradições, outros dirão que é a partilha de determinados ideais; alguns pensarão que se faz de exércitos, fronteiras e poder, outros dirão que é a cultura, a arte e o pensamento. Provavelmente, todos terão razão: a força de uma comunidade advém de um passado partilhado mas também de um futuro que se quer continuar a partilhar; igualmente, a pujança civilizacional faz-se de poder mas também da arte e engenho para o exercer - no mínimo dentro da sua comunidade. Para isso, fundamental será a única coisa que é comum a todos esses factores: a necessidade imperiosa que uma civilização tem de oferecer um certo sentido de pertença e identidade, uma perspectiva da vida e do mundo, uma narrativa se preferirem, que construída em conjunto, partilhada pela maioria, ofereça a força aos exércitos, a visão às artes e o rasgo e entusiasmo na busca pelo aperfeiçoamento constante da vida comum em nome de determinados valores partilhados.
Resumindo: uma civilização é mais do que um modo de vida, é uma comunidade - um viver em comum, com os outros que, de alguma forma, são como eu. Por esta perspectiva, o declínio civilizacional pode, então, ser diagnosticado quando este viver comum se desagrega, quer num lento processo de deterioração das bases civilizacionais, quer num processo de divisão através da emergência de um conjunto de blocos que se tornam independentes, antagónicos mesmo, entre si: quando esses blocos são tão heterogéneos que não conseguem sequer encontrar plataformas de entendimento que lhes permita continuar a conviver de forma pacífica e próspera, e quando o ódio de uns pelos outros quebra os últimos laços de fraternidade que obrigavam à necessidade última do compromisso social, nesse momento, fruto dessa fraqueza, dessa divisão, o todo perde a força de se impor no mundo e, naturalmente, mais cedo do que tarde, acaba por soçobrar perante aqueles que se querem impor sobre si. Concomitantemente, quer por cisão, quer por desistência, a queda será o momento último em que o declínio se efectiva em absoluto numa realidade onde aqueles que partilham os valores da civilização moribunda se vêem por alguma razão impedidos de os colocar em prática: o seu modo de vida acabou.
(Continua)
Diz o ditado que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. A ser verdade o dito - e normalmente é - a queda da civilização ocidental será estrondosa e monumental, sobrando apenas a questão de saber quando tal fantástico evento ocorrerá - e de que forma. Tal como com a vida de cada um, as civilizações, aparecem, afirmam-se, vencem e conquistam apenas para, a partir de algum momento, declinarem, caírem e das duas uma: ou desaparecerem sem rasto num imenso oceano de esquecimento ou, no melhor cenário, verem os seus despojos finais acantonados atrás das vitrines dos museus daqueles que lhes sucederem. Assim foi com todos e, naturalmente, assim será connosco. Para muitos, os sinais da decadência estão por todo o lado e a queda já está a acontecer: decréscimo de poder no mundo, infertilidade generalizada, degeneração dos valores civilizacionais, etc., são os argumentos oferecidos. Para outros, a ascenção continua e a verdadeira civilização ainda não encontrou o seu apogeu: a revolução tecnológica contínua, o progresso material, a melhoria da qualidade de vida, os "avanços sociais", etc., são os contra-argumentos. Para os pessimistas, o pico civilizacional foi lá atrás; para os progressistas - optimistas, ela ainda estará por cumprir. Também é difícil encontrar concórdia sobre o que faz, ou fez, uma civilização: uns dirão que é o respeito pelas suas tradições, outros dirão que é a partilha de determinados ideais; alguns pensarão que se faz de exércitos, fronteiras e poder, outros dirão que é a cultura, a arte e o pensamento. Provavelmente, todos terão razão: a força de uma comunidade advém de um passado partilhado mas também de um futuro que se quer continuar a partilhar; igualmente, a pujança civilizacional faz-se de poder mas também da arte e engenho para o exercer - no mínimo dentro da sua comunidade. Para isso, fundamental será a única coisa que é comum a todos esses factores: a necessidade imperiosa que uma civilização tem de oferecer um certo sentido de pertença e identidade, uma perspectiva da vida e do mundo, uma narrativa se preferirem, que construída em conjunto, partilhada pela maioria, ofereça a força aos exércitos, a visão às artes e o rasgo e entusiasmo na busca pelo aperfeiçoamento constante da vida comum em nome de determinados valores partilhados.
Resumindo: uma civilização é mais do que um modo de vida, é uma comunidade - um viver em comum, com os outros que, de alguma forma, são como eu. Por esta perspectiva, o declínio civilizacional pode, então, ser diagnosticado quando este viver comum se desagrega, quer num lento processo de deterioração das bases civilizacionais, quer num processo de divisão através da emergência de um conjunto de blocos que se tornam independentes, antagónicos mesmo, entre si: quando esses blocos são tão heterogéneos que não conseguem sequer encontrar plataformas de entendimento que lhes permita continuar a conviver de forma pacífica e próspera, e quando o ódio de uns pelos outros quebra os últimos laços de fraternidade que obrigavam à necessidade última do compromisso social, nesse momento, fruto dessa fraqueza, dessa divisão, o todo perde a força de se impor no mundo e, naturalmente, mais cedo do que tarde, acaba por soçobrar perante aqueles que se querem impor sobre si. Concomitantemente, quer por cisão, quer por desistência, a queda será o momento último em que o declínio se efectiva em absoluto numa realidade onde aqueles que partilham os valores da civilização moribunda se vêem por alguma razão impedidos de os colocar em prática: o seu modo de vida acabou.
(Continua)
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
UM CÓDIGO POLITICAMENTE CORRECTO, JÁ!
Como parece estar na moda identificar discriminações, eu, não querendo ficar atrás, indignei-me hoje quando percebi que existe uma opressão imensa sobre os militantes da esquerda democrática levada a cabo aquando da conspiração fascista da direita reaccionária que levou à instauração do código da estrada: é inadmissível numa sociedade igualitária, fraterna e justa que aos automóveis que vêm da direita lhes seja dada sempre prioridade. Não é justo que alguém apenas por vir da direita tenha prioridade sobre quem vem da esquerda. Por que razão há-de o automobilista da direita chegar a horas e o da esquerda não? Exige-se justiça JÁ! Em primeiro lugar, proponho um sinal STOP em cada esquina de cada cruzamento. Aí, os automobilistas deverão debater de forma esclarecida, seguida de necessária votação, sobre quem deverá ter as prioridades; em segundo lugar, proponho uma comissão de inquérito, seguida da necessária convenção popular, para elaborar um guião para a justiça rodoviária que implemente a paridade entre as prioridades da esquerda e da direita, de forma alternada, regulamentada e digna. Em cruzamentos onde tal paridade não possa ser atingida deve ser consultado o ministério das obras públicas para proceder às necessárias alterações físicas dos locais injustos. Após esta importante reforma prometo que os sinais de STOP serão removidos, por completo, pois o trânsito fluirá sem reservas, entraves ou problemas. Deste modo, justo e progressista, alcança-se, não apenas a necessária superação de uma injustiça indigna mas, também, estimula-se o investimento público, em particular o sector das construções públicas, fundamental ao progresso rumo ao futuro.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017
IMPERATIVO CATEGORICAMENTE CORRECTO
O imperativo categórico Kantiano ao longo dos tempos:
1785 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal".
2000 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo imaginar que estás a ser permanentemente observado por dois milhões de pessoas através da televisão".
2010 - "Age apenas segundo uma mínima tal que te permita não ser vilipendiado no espaço público por múltiplas minorias que controlam mediaticamente a definição do que é moralmente aceitável".
1785 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal".
2000 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo imaginar que estás a ser permanentemente observado por dois milhões de pessoas através da televisão".
2010 - "Age apenas segundo uma mínima tal que te permita não ser vilipendiado no espaço público por múltiplas minorias que controlam mediaticamente a definição do que é moralmente aceitável".
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sábado, 14 de janeiro de 2017
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
BREVES NOTAS SOBRE A LIBERDADE: O Neo-Esclavagismo Racionalista
Se,
por um lado, é verdade que o espírito do nosso tempo se faz de uma
crença inabalável nos méritos do Homem, por outro lado, esse
imenso optimismo humanista, ao alicerçar-se numa das maiores ilusões
intelectuais da nossa História, é bem capaz de encerrar dentro de
si próprio as sementes da nossa própria destruição. Que ilusão é
essa? A ideia completamente fantasiosa de que superámos, ou
poderemos superar, a violência da nossa condição humana - aquela
que quase destruiu a Europa e o mundo ainda há pouco mais de setenta
anos - e que continuamos a subir uma escada evolutiva infinita, sempre
a progredir, sempre a melhorar, rumo a um ideal de progresso e
florescimento humano que, mesmo que seja impossível de atingir na
sua plenitude, se encontra no topo dessa mesma escada. De acordo com
essa ideia, hoje somos melhores, mais inteligentes e, acima de tudo,
mais evoluídos
do que aqueles outros humanos que nos antecederam, seres perdidos na
História e na barbárie hoje definitivamente ultrapassada. O rumo,
pensa-se - ou talvez fosse melhor dizer: intui-se
-, é por definição sorridente: se a evolução nos trouxe até
aqui, e o aqui é infinitamente melhor do que o que já fomos no
passado, então o futuro só pode trazer mais evolução, mais
progresso e, consequentemente, mais desenvolvimentos, avanços e
melhorias. Sonham-se com os avanços tecnológicos do amanhã e
imaginam-se os mundos quase perfeitos que os nosso filhos e, quiçá,
fruto dos descobrimentos medicinais, nós também ainda teremos o
prazer de desfrutar nas décadas e séculos que estão por vir.
Esta ilusão progressista, uma mera promessa, serve de isco para uma ideia anterior que a
sustenta: a noção que, de algum modo, há um destino, um telos,
uma finalidade, para o universo e, consequentemente, para os homens
também. É nesse telos que se descobre a razão, e o sentido, do mundo e, por conseguinte, da existência humana. Antes do advento da modernidade secular em que vivemos, esse
porvir era oferecido pela religião, e era conhecido tanto pela fé
como pela razão; hoje, com o triunfo do materialismo, sobra-nos a
razão. Muita desta crença nas nossas próprias valias humanas, tal
como na nossa capacidade de controlar o mundo, deriva de olharmos
para nós próprios através daquilo que nos distingue dos demais: a
nossa racionalidade. E, cheios de convicção nos méritos da nossa
razão, assumimos que essa razão tem um carácter divino: aquilo que
ela estabelece, tal como a antiga palavra de Deus, é aquilo que é
verdade. Consequentemente, algo que é racional, por definição, é
tido como algo que é verdadeiro (mesmo no nosso linguarejar, "ter
razão" implica afirmar algo que é verdade e que deve ser
aceite como tal por todos); e como uma coisa que é verdadeira não
pode ser falsa, também uma coisa que é racional não o pode ser. E
assim chegamos à noção de que dois postulados racionalmente
válidos não podem ser contraditórios pois, como uma verdade não
pode entrar em conflito com outra verdade, se dois postulados são
igualmente racionais, e por isso verdadeiros, então terão que ser
compatíveis entre si. Esta compatibilidade, ou melhor será dizer: a
busca por essa compatibilidade, norteia muito do nosso tempo: para
cada conflito, para cada percalço, para cada questão, recorrendo à
nossa racionalidade, a custo, lá encontraremos a solução. E de
solução em solução evoluímos, e dessa forma, porque convencidos
do ritmo seguro e infalível da nossa razão, antevemos cheios de
certeza que o futuro que os nossos passos buscam é melhor e, acima
de tudo, mais verdadeiro. É dessa verdade que achamos ir descobrindo
que vem o optimismo e a crença no progresso; e é dessa verdade
racional que imaginamos dentro de nós que vem o carácter
proto-divino que nos arrogamos de possuir. Assim, o absoluto, eterno e divino,
para o homem contemporâneo herdeiro de Kant, é o racional que temos
dentro de nós. Nietzsche exclamou pelo morte de Deus mas, na
verdade, na boa tradição Tomista, Ele apenas foi substituído por uma outra crença, uma crença
na harmonia racional do universo.
No entanto, se é verdade que a ideia de não contradição entre duas hipóteses igualmente racionais é uma
noção válida no campo das ciências abstractas e matemáticas,
também não será menos verdade que no campo das vidas dos homens,
das suas morais e dos seus dilemas, representa uma noção que não
poderia ser mais errada. E a vida dos homens, ao contrário dos
robôs, não se faz apenas de matemática. No mundo moral, o valores
colidem. No mundo dos homens, postulados igualmente válidos podem
ser incompatíveis ou concorrentes. É tão racionalmente válido eu
desejar viver numa sociedade segura como numa sociedade livre
- mas apostar numa delas implica invariavelmente prejudicar a outra;
eu posso querer ser corajoso - mas a prudência não
deixa de ser fundamental a uma vida bem vivida; eu posso sonhar com a
justiça a presidir à organização social da minha
comunidade - mas a solidariedade e a clemência também
são valores importantes numa comunidade. No final, implica
perceber-se que se os valores colidem entre si mais do que descobrir
qual a receita certa, ou verdadeira, para o dilema social, a
verdadeira questão é escolher qual a combinação de valores
que desejamos para as nossas vidas.
E a diferença é abissal.
Isto porque acreditar-se numa solução pressupõe sempre que as
coisas são de alguma forma predeterminadas: uma solução que é a
certa, e por isso verdadeira, será uma solução que terá que estar
de acordo com um padrão universal de verdade, padrão esse que nos
antecede a nós humanos que apenas nos pretendemos aproximar dele. A
verdade é eterna, imutável e divina, a verdade é verdade
independentemente de nós. Mas, mais do que isso, a verdade é apenas
uma. E deste modo chegamos à implicação determinista, a
grande consequência não falada dos modelos racionalistas. Sem o arbítrio de Deus, onde apenas a razão é verdadeira e universal, onde o que é verdadeiro e universal antecede a consciência humana, e onde a solução que pretendemos para o dilema moral é racional, então a solução que se persegue será verdadeira, universal e antecede a consciência humana.. Assim sendo, a solução já existirá antes de ser conhecida
pelos humanos. Nada se cria, apenas se descobre. Nada se
decide por nós próprios, apenas se revela o que devemos fazer. Em
suma: não somos livres para escolher, apenas para perceber o que é
suposto que nós façamos. É a morte da liberdade.
A alternativa é a do livre-arbítrio: assumir que escolher implica
criar. Escolher verdadeiramente sem soluções pré-definidas
como boas ou más implica assumir-se que o mundo é nosso para criar por entre as opções que temos pela frente - e não limitados pelas certezas de uns quantos supostamente iluminados.
E com essa profunda liberdade vem a correspondente responsabilidade.
Já o determinismo racionalista retira o jugo da responsabilidade do
pescoço humano e coloca-o num pseudo-critério racional que, sendo
universal, sendo absoluto e infalível, assume a responsabilidade da escolha, escolha essa que deixa de ser humana para passar a ser
cósmica, universal, racional. Determinismo implica fatalismo,
destino e fado. Já a liberdade implica criar, fazer
e sonhar.
O
paradoxo é que o determinismo, ao vender a ilusão de solução
universal, sendo esta falsa, acaba por aprisionar-nos a um rumo que,
não sendo necessariamente o melhor, condiciona-nos aos caprichos daqueles que nos garantem ter descoberto as soluções para os dilemas dos homens. São
os novos messias: os heróis racionalistas que definem o que é
racional, ou bom, o que se deve fazer, ou não, sempre cheios de
certezas, sempre cheios de soluções. Ponha-se um actor, de bata branca, caderno de notas na mão, a afirmar que os últimos estudos garantem isto ou aquilo e o sucesso é garantido, seja esse sucesso vender detergente, carros, pessoas ou ideias. Já
o caminho da verdadeira liberdade, a de pensar, escolher e criar,
essa apenas oferece a vertigem do abismo: um universo sem sentido oferecido a
priori e
que, por isso mesmo, assusta. Muito. Mas também abre a vida à
infinitude de destinos que as nossas escolhas podem criar.
Assim, concluindo, por um
lado, temos o falso conforto temporário (porque as "soluções"
esbarram sempre na próxima esquina) que a ilusão de uma certeza
sobre o sentido para a vida nos oferece - e a sensação de controlo que dela deriva, tanto a
individual como a comunitária; por outro lado, temos a vertigem, e a
responsabilidade, de termos os nossos próprios destinos, quaisquer
que sejam, nas nossas mãos. Do primeiro, deriva o centralismo, o controlo, a conformidade, o monismo; do segundo, a espontaneidade, a autonomia, a criatividade, a diversidade. Entre um e outro, como sempre, se faz a
diferença - enorme! - entre escravos e homens-livres. Mesmo que a
esse grilho mental nos dias de hoje se dê o nome de razão.
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FILOSOFIA
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
FILHOS PRÓDIGOS
Nos tempos de hoje vive-se a noção de que evoluímos positivamente: fisicamente, de mamíferos menos evoluídos; intelectualmente, de antecessores menos inteligentes; socialmente, de comunidades menos avançadas. Aliás, a ideia é precisamente a de "avanço": progresso, desenvolvimento, evolução, tudo a aumentar de forma positiva do passado para o presente - e a promessa de que assim pode continuar rumo a um futuro que se imagina como virtuoso e cheio de maravilhas salvíficas. No entanto, esta ideia é uma ideia muito recente, filha bastarda do iluminismo e do racionalismo científico que lhe sucedeu. Antes disto tudo, e durante a maior parte da existência humana, a representação do sentido da História era a oposta, a de decadência: o passado é que era idílico e paradisíaco e a existência humana representava uma queda desse Olimpo divino, no caso Grego, ou do Paraíso de Adão e Eva, no caso bíblico. A queda na imperfeição humana separava-nos da perfeição divina e condenava-nos a aceitar a tragédia como parte da vida. Nos dias de hoje a intuição é a oposta: todos os problemas terão uma solução, o optimismo garante a salvação (a derrota é ser pessimista), não há limites para o futuro (científicos, físicos ou morais), a vida eterna pode ser aqui e agora, haja tempo e saúde para lá chegar. No entanto, no seu âmago, a realidade da vida humana é muito mais coerente com a visão antiga do que com a moderna: tornamo-nos seres conscientes durante o paraíso que é a infância, na terra dos sonhos e da magia, isto apenas para dela inesperadamente cairmos quando tomamos noção dos paradoxos, das limitações e das tragédias que compõem a vida adulta. Aliás, a maçã, símbolo da fertilidade, que a serpente, símbolo fálico, oferece a Eva, e que esta prova, é a perfeita representação para a inevitabilidade da puberdade e a obrigação de com ela perder-se o paraíso que é a infância. A adolescência é a queda; a vida adulta é o embate no chão, na base de tudo, ou seja, no tomar noção da condição humana: a morte dos próximos, as perdas múltiplas, a consciência da finitude, etc., etc. Ser adulto implica lidar com o facto de sermos aquilo que somos. Ser realista, portanto. Mas nos dias de hoje em que o regresso ao paraíso perdido na infância está sempre prometido no futuro sempre presente ao virar da próxima esquina não há razões para se ter que crescer: para quê aceitar o que nos magoa se no futuro aquilo que nos magoa pode ser simplesmente mudado, eliminado, ou seja: resolvido? E dessa forma adia-se o amadurecimento. E prolonga-se a infância. E pune-se o realismo: para quê falar dos perigos e das obrigações do mundo dos adultos quando tudo à nossa volta nos ensina a viver de, e para os, sonhos? A abundância que a revolução industrial, a grande filha do Iluminismo, nos trouxe permitiu banquetear-nos na indolência, na arrogância e no luxo de não vermos o mundo tal como ele é mas tal como nós gostaríamos que ele fosse. E, tal como o filho pródigo, nesse luxo, nessa arrogância, e nessa indolência, desbaratamos a abundância material, moral e civilizacional que nos foi legada. Resta saber se haverá tempo para a redenção.
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NADA
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
domingo, 6 de novembro de 2016
LINHAS DIREITAS T2
Entretanto, o Linhas Direitas está de regresso para a sua segunda temporada. Teve direito a teaser e já vai no terceiro episódio.
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POLÍTICA
TO DIVIDE
"To divide (and not merely to distinguish as facets or aspects of one substance) body and soul, science and craft or art, the individual and society, description and evaluation; philosophical, scientific and historical judgement, empirical and metaphysical statements, as if any of these could be independent of one another, is for Herder false, superficial and misleading. (...) One upon a time men 'were all things: poets, philosophers, land surveyors, legislators, musicians, warriors'. In those days there was unity of theory and practice, of man and citizen, a unity that the division of labour destroyed; after that men became 'half thinkers and half feelers'. There is, [Herder] remarks, something amiss about moralists who do not act; epic poets who are unheroic, orators who are not statesmen, and aestheticians who cannot create anything. Once doctrines are accepted uncritically - as dogmatic, unaltered, eternal truths - they become dead formulae, or else their meaning is fearfully distorted. Such ossifications and decay lead to nonsense in thought and monstrous behaviour in practice".
Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 419-20
Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 419-20
DOOMED TO CHOOSE
"What is here entailed is that the highest ends for which men have rightly striven and sometimes died are strictly incompatible with one another. Even if it were possible to revive the glories of the past, as those... pre-historicist thinkers who called for the return to the heroic virtues of Greece or Rome, we could not revive and unite them all. If we chose to emulate the Greeks, we cannot also emulate the Hebrews; if we model ourselves on the Chinese..., we cannot also be the Florentines of the Renaissance, or the innocent, serene, hospitable savages of the eighteen-century imagination. Even if, per impossible, we could chose among these ideals, which should we select? Since there is no common standard in terms of which to grade them, there can be no final solution to the problem of what men as such should aim at. The proposition that this question can, at last in principle, be answered correctly and finally, which few had seriously doubted since Plato had taken it for granted, is undermined. (...) But if this is so, then the notion of the perfect civilization in which the ideal human being realizes his full potentialities is patently absurd: not merely difficult to formulate, or impossible to realize in practice, but incoherent and unintelligible. This is perhaps the sharpest blow ever delivered against the classical philosophy of the West, to which the notion of perfection - the possibility, at least in principle, of universal, timeless solutions of problems of value - is essential".
Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 430-1
Isaiah Berlin, 'Herder and the Enlightment', in: Isaiah Berlin, The Proper Study of Mankind, Farrar, Straus & Giroux, 2000, pp. 430-1
terça-feira, 1 de novembro de 2016
ON THE IMPORTANCE OF POLITICAL CULTURE
[Before the 1905 revolution] The Russian peasant household [dvor] was organized on a simple authoritarian model, under which full authority over the members and their belongings was entrusted to one person, known as bol'shak or khoziain. This family patriarch was usually the father...: he assigned farm and household duties, he disposed of propriety, he adjudicated domestic disputes,, and he represented the household in its dealings with the outside world. Customary peasant law endowed him with unquestioned authority over his dvor: in many ways, he was heir to the authority of the serf owner. Since the Emancipation Edict of 1861, the bol'shak was also authorized by the government to turn over members of his household to administrative organs for punishment. He was the paterfamilias in the most archaic sense of the word, a replica in miniature of the Tsar.
(...) The household allowed no room for individuality: it was a collective which submerged the individual in the group. Second, given that the will of the bol'shak was absolute and his orders binding, life in the dvor accustomed the peasant to authoritarian government and the absence of norms (laws) to regulate personal relations. Third, the household made no allowence for private property: all belongings were held in common. Male members acquired outright ownership of the household's movable property only at its dissolution, at which time it once again turned into the collective property of the new household. Finally, there was no continuity between households, and consequently neither pride in ancestry nor family status in the village, such as characterized Western European and Japanese rural societies. In sum, the Great Russian peasant, living in his natural environment, had no opportunity to acquire a sense of individual identity, respect for law and property, or social status in the village - qualities indispensable for the evolution of more advanced forms of political and economic organization".
Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp. 93-5
(...) The household allowed no room for individuality: it was a collective which submerged the individual in the group. Second, given that the will of the bol'shak was absolute and his orders binding, life in the dvor accustomed the peasant to authoritarian government and the absence of norms (laws) to regulate personal relations. Third, the household made no allowence for private property: all belongings were held in common. Male members acquired outright ownership of the household's movable property only at its dissolution, at which time it once again turned into the collective property of the new household. Finally, there was no continuity between households, and consequently neither pride in ancestry nor family status in the village, such as characterized Western European and Japanese rural societies. In sum, the Great Russian peasant, living in his natural environment, had no opportunity to acquire a sense of individual identity, respect for law and property, or social status in the village - qualities indispensable for the evolution of more advanced forms of political and economic organization".
Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp. 93-5
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HISTÓRIA,
LITERATURA
sábado, 22 de outubro de 2016
ON PRIVATE PROPERTY
"Russia's absolutism showed particular qualities that distinguished it from that of the Bourbon's, Stuart's, or Hohenzollern's. European travellers to Muscovy in the sixteenth and seventeenth centuries, when ancien régime absolutism stood at its zenith, were impressed by the differences between what they were accustomed to at home and what they saw in Russia. The peculiar features of Russian absolutism in its early form, which lasted from the fourteenth until late eighteenth century, were marked by the virtual absence of the institution of private property, which in the West confronted royal power with effective limits to its authority. In Russia, the very concept of property (in the Roman sense of dominion over objects) was unknown until introduced in the second half of the eighteenth century by the German-born Catherine II. Muscovite Russia had been run like a private estate, its inhabitants and territories, with everything they contained, being treated as property of the Crown. (...)
The Great Russian peasant, with centuries of serfdom in his bones, not only did not crave for civil and political rights, but... held such notions in contempt. Government had to be willful and strong - that is, able to exact unquestioned obedience. A limited government, subject to external restraints and tolerant to criticism, seemed to him a contradiction in terms. To the officials charged with administering the country and familiar with these peasant attitudes, a Western-type constitutional order spelled one thing only: anarchy. The peasants would interpret it to mean the release from al of obligations to the state which they fulfilled only because they had no choice: no more taxes, no more recruits, and, above all, no more tolerance of private property in land".
Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp.54-56
The Great Russian peasant, with centuries of serfdom in his bones, not only did not crave for civil and political rights, but... held such notions in contempt. Government had to be willful and strong - that is, able to exact unquestioned obedience. A limited government, subject to external restraints and tolerant to criticism, seemed to him a contradiction in terms. To the officials charged with administering the country and familiar with these peasant attitudes, a Western-type constitutional order spelled one thing only: anarchy. The peasants would interpret it to mean the release from al of obligations to the state which they fulfilled only because they had no choice: no more taxes, no more recruits, and, above all, no more tolerance of private property in land".
Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, pp.54-56
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LITERATURA
sábado, 15 de outubro de 2016
STRANGERS TO THE FATE OF ALL OF THE REST
"The first thing that strikes the observation is an innumerable multitude of men, all equal and alike, incessantly endeavouring to procure the petty and paltry pleasures with which they glut their lives. Each of them, living apart, is a stranger to the fate of all of the rest; his children and his private friends constitute to him the whole of mankind. As for the rest of his follow citizens, he is close to them, but does not see them; he touches them, but he does not feel them; he exists only in himself and for himself alone; and if his kindred still remain to him, he may be said at any rate to have lost his country.
Above this race of men stands an immense and tutelary power, which takes upon itself alone to secure their gratifications and to watch their fate. That power is absolute, minute, regular, provident, and mild. It would be like the authority of a parent if, like that authority, its object was to prepare men for manhood; but it seeks, on the contrary, to keep them in perpetual childhood: it is well content that the people should rejoice, provided that they think of nothing but rejoicing. For their happiness such a government willingly labours, but it chooses to be the sole agent and the only arbiter of that happiness; it provides for their security, foresees and supplies their necessities, facilitates their pleasures, manages their principal concerns, directs their industry, regulates the descent of property, and subdivides their inheritances: what remains, but to spare them all the care of thinking and the trouble of living?
Thus it every day renders the exercise of the free agency of man less useful and less frequent; it circumscribes the will within a narrower range and gradually robs a man of all of the uses of himself. The principle of equality has prepared man for these things; it has predisposed men to endure them and often look on them as benefits.
After having thus successively taken each member of the community in its powerful grasp and fashioned him at will, the supreme power then extends its arm over the whole community. It covers the surface of society with a network of small complicated rules, minute and uniform, through which the most original minds and the most energetic characters cannot penetrate, to rise above the crowd. The will of man is not shattered, but softened, bent, and restrained form acting. Such a power does not destroy, but it prevents existence; it does not tyrannise, but it compresses, enervates, extinguishes, and stupefies a people, till each nation is reduced to nothing better than a flock of timid and industrous animals, of which the government is the shepherd".
Alexis de Tocqueville, Democracy in America, II, 4, VI (1835)
Above this race of men stands an immense and tutelary power, which takes upon itself alone to secure their gratifications and to watch their fate. That power is absolute, minute, regular, provident, and mild. It would be like the authority of a parent if, like that authority, its object was to prepare men for manhood; but it seeks, on the contrary, to keep them in perpetual childhood: it is well content that the people should rejoice, provided that they think of nothing but rejoicing. For their happiness such a government willingly labours, but it chooses to be the sole agent and the only arbiter of that happiness; it provides for their security, foresees and supplies their necessities, facilitates their pleasures, manages their principal concerns, directs their industry, regulates the descent of property, and subdivides their inheritances: what remains, but to spare them all the care of thinking and the trouble of living?
Thus it every day renders the exercise of the free agency of man less useful and less frequent; it circumscribes the will within a narrower range and gradually robs a man of all of the uses of himself. The principle of equality has prepared man for these things; it has predisposed men to endure them and often look on them as benefits.
After having thus successively taken each member of the community in its powerful grasp and fashioned him at will, the supreme power then extends its arm over the whole community. It covers the surface of society with a network of small complicated rules, minute and uniform, through which the most original minds and the most energetic characters cannot penetrate, to rise above the crowd. The will of man is not shattered, but softened, bent, and restrained form acting. Such a power does not destroy, but it prevents existence; it does not tyrannise, but it compresses, enervates, extinguishes, and stupefies a people, till each nation is reduced to nothing better than a flock of timid and industrous animals, of which the government is the shepherd".
Alexis de Tocqueville, Democracy in America, II, 4, VI (1835)
Etiquetas:
LITERATURA,
POLÍTICA
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