terça-feira, 31 de janeiro de 2017
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
A PROPÓSITO DAS BICICLETAS
Na cidade onde vivo, Bruxelas, existe uma enorme obsessão por
bicicletas. Por todo o lado existem ciclovias e às bicicletas são
conferidos direitos especiais: circulam na estrada, circulam nas
passadeiras, passam sinais encarnados, andam em ruas de trânsito
proibido e podem circular, tanto no sentido do trânsito automóvel,
como em sentido oposto ao permitido aos carros, mesmo quando as ruas
são de sentido único. Ao mesmo tempo, incentiva-se fortemente a
utilização da bicicleta, inclusive por pais com filhos bebés, quer
em cadeiras especiais, quer em reboques ou acrescentes para o efeito,
quer seguindo as crianças nas suas próprias bicicletas, pelas ruas,
atrás dos pais.
A razão por detrás de tudo isto é que a
bicicleta é tida como um meio de transporte saudável, não poluente
e sustentável. E é. No entanto, também é verdade que numa cidade
de trânsito caótico, como Bruxelas, cheia de automóveis, e onde se
conduz por regra geral mal, torna-se perigoso andar de bicicleta: 28%
dos mortos na estrada na Bélgica em 2015 foram ciclistas;
ou, a título de exemplo, no Reino Unido um ciclista tem 17
vezes mais probabilidades de morrer na estrada do que um
automobilista.
No entanto, estes factos não parecem ter impacto algum, quer nos
cuidados a ter por parte das pessoas, quer em medidas eventuais a
tomar por parte das autoridades. Não seria melhor obrigar os
ciclistas a um comportamento igualmente responsável, tal como se
obriga aos automobilistas, por forma a garantir a sua segurança, e a
dos seus filhos quando é o caso, em vez de, ao privilegiar por
absoluto a bicicleta face aos automóveis, ter como efeito secundário
uma menor segurança rodoviária? E o que dizer dos pais que, apesar
dos facínoras diversos que poluem as estradas belgas, andam
livremente pelas ruas com os seus filhos como se de um calmo e seguro
passeio pelo parque fosse? Ao valor que atribuímos ao facto de a
bicicleta ser um meio de transporte mais sustentável não deveríamos
contrapor o valor ainda mais importante da segurança rodoviária,
especialmente no caso das crianças? E isso não obrigaria a perceber
que a defesa por absoluto da bicicleta e a demonização do automóvel
não contribui para a segurança rodoviária, incluindo em especial a
dos próprios ciclistas?
Muito pelo contrário. Como é apanágio do tempo em que vivemos, vá
alguém criticar os exageros - atente-se que falo apenas dos exageros
e não da causa em si - absolutizantes dos cavaleiros da verdade,
neste caso a "verdade" do axioma "os automóveis
estão a destruir o planeta Terra", e será apelidado de
"retrógrado", "burro", "egoísta" ou,
talvez, "assassino ecológico". Vá alguém reclamar do
perigo, em particular para os próprios, que representa a condução
absolutamente irresponsável de bicicletas na cidade - como abunda
por aqui - e, naturalmente, em caso de acidente, a culpa será do
automobilista porque, lá está, é um automobilista. Nos
entretantos, fecham-se as ruas ao trânsito, incentiva-se a fundo a
"mobilidade sustentável" e, nem por um momento, se pára
para pensar que, por melhor que seja para o ambiente uma bicicleta, e
é verdade que o é, não deixa de ser um valor que deverá ser
negociado, complementado e mitigado com outros valores, nomeadamente
o da segurança, que são igualmente fundamentais. A grande verdade que a Esquerda, e boa parte da Direita também, se recusa a aceitar é que os valores nunca são absolutos: eles conflictam, colidem entre si. E cabe ao julgamento humano escolher sobre a forma como quer resolver, a cada passo, tais conflitos. É um inevitabilidade da condição humana que qualquer um pode verificar por si próprio desde que se muna de algum bom senso.
Aliás, a essência da Democracia encontra-se precisamente na capacidade de
negociar conflitos de valores e ideias diferentes, que interessam a diferentes
pessoas de forma diferente, e que podem ter diferentes resoluções. No entanto, ao assumirmos que a verdade é una, que
os valores são absolutos e que aqueles que não concordam com as
premissas da moda são "bárbaros", "retrógrados"
ou "pouco evoluídos" e que, por serem maus, devem ver as
suas ideias desconsideradas, então não estamos apenas a tomar más
decisões: estamos a matar a Democracia. Precisamente aquela palavra
em nome da qual os paladinos da verdade única tanto gostam de
afirmar agir.
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POLÍTICA
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
A WILD DANCE
"[According to Hamman] Nature is no ordered whole: so-called sensible men are blinkered beings who walk with a firm tread because they are blind to the true and profoundly disturbing character of reality, sheltered from it by their man-made contraptions; if they glimpse it as it is - a wild dance - they would go out of their minds. How dare these pathetic pedants impose on the vast world of continuous, fertile, unpredictable, divine creation their own narrow, desiccated categories?"
Isaiah Berlin, 'Hume and German Anti-Rationalism', in: Isaiah Berlin, Against the Current: Essays in History of Ideas, Oxford University Press, 1981, p. 169
Isaiah Berlin, 'Hume and German Anti-Rationalism', in: Isaiah Berlin, Against the Current: Essays in History of Ideas, Oxford University Press, 1981, p. 169
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FILOSOFIA
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
A ASCENÇÃO E A QUEDA (II)
O sucesso da civilização ocidental representa, ou deveria
representar, naturalmente, um orgulho para aqueles que dela fazem parte;
no entanto, tal orgulho obriga a uma responsabilidade acrescida de
tentar compreender as razões do sucesso. O que permitiu ao Ocidente
chegar onde nenhuma outra civilização tinha chegado antes? Em primeiro
lugar, o conhecimento da história que permitiu aprender com os
erros dos outros. Os humanos, como todos os seres vivos, aprendem por
tentativa e erro: apenas vendo onde as coisas correram mal podemos
emendar a mão, corrigirmos, e aprender a fazer melhor. A civilização
ocidental não nasce por acaso, fruto de teorizações abstractas levadas a
cabo por alguns homens de génio: a civilização ocidental nasce em cima
dos escombros das civilizações passadas; foi fazendo do seu conhecimento
conhecimento nosso, foi apropriando-nos do que vimos de bom e
rejeitando o que vimos como mau que nos construímos gradual e lentamente
a nós próprios. Adaptando a frase famosa de Kant, foi nos ombros de
grandes civilizações passadas que construímos a nossa. O acesso ao
conhecimento e, acima de tudo, a sua disseminação foram absolutamente
fundamentais na construção da nossa civilização: apenas numa comunidade
em que o conhecimento (e através dele a capacidade de correctamente
interpretar a realidade das coisas) foi oferecido gradualmente a cada
vez mais pessoas se pôde erigir uma comunidade alicerçada na força de
todos, e não apenas no rasgo e na força do líder. É essa característica
principal que permite que, ao contrário das outras, a civilização
ocidental tenha evoluído para uma cultura de participação ao invés de uma cultura de subordinação: e apenas uma cultura onde todos são chamados a participar poderia permitir prosperidade económica junto com democracia política, a base da liberdade tal como a conhecemos. É o grande legado dos nossos antepassados uma sociedade norteada pela liberdade de, e para, pensar, agir e trocar; onde impera a defesa dos indivíduos alicerçada nos seus direitos e na sua esfera única, e inviolável, de acção individual (protegida pelo direito à propriedade privada).
Em segundo lugar, a especificidade que o Cristianismo ofereceu ao Ocidente, ou seja: os seus valores. A tolerância, a solidariedade, o necessário balanço da liberdade com a igualdade, ao contrário do que a muitos possa parecer a uma primeira vista, incorpora na perfeição os valores e ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, a seu tempo, souberam também os nossos antepassados separar o temporal do secular. Essa separação soube dar o espaço para os indivíduos tratarem dos assuntos terrenos como melhor lhes aprouvesse. Mas o desígnio divino que os orientava continuava presente dando, por um lado, sentido ao mundo e, por outro, garantindo valor a esse mesmo mundo material que não poderia ser desprezado porque, tendo sido o local de encarnação de Deus feito homem (e matéria), ganhava uma dignidade inestimável. Deste modo, fornecidos de um sentido para a vida, motivados para conquistar e melhorar o mundo (a obra de Deus), organizados em função de valores funcionais, justos e reconhecidos como tal, souberam os nossos antepassados construir uma civilização próspera, poderosa e, a seu tempo, que soube oferecer a maior dádiva que uma comunidade pode garantir aos seus membros: paz e segurança.
Uma vez aí chegados, e para impedir a decadência, sobra proteger o que herdámos. E para isso impôs-se uma luta centenária entre aqueles que tudo queriam mudar em nome de valores ou ideias que entendiam ser melhores e os outros, aqueles que se apoiavam no valor da tradição como forma de proteger aquilo que já havia sido conquistado. As instituições, sólidas, respeitadas, transmitiram por gerações as leis e os conhecimentos do passado; as famílias fizeram o mesmo, mas em especial com os valores. Mas a cultura de participação e de crescente afirmação e florescimento da liberdade individual permitiu incorporar a mudança num processo gradativo de melhoramento generalizado das condições de vida das pessoas. As instituições visaram sempre manter; quem obrigou à mudança foram os indivíduos, que armados da crescente liberdade para o poder fazer; souberam conquistar, por si próprios, um futuro melhor para os seus filhos. E aqui residia a força civilizacional: numa multidão que pelo trabalho e dedicação escalava a montanha social rumo a uma melhor situação de vida.
Mas, acima de tudo, também, ocuparam-se as pessoas de aceitar o sentido para a vida e para o mundo que o transcendente comum e partilhado lhes oferecia. O mundo, e as suas dificuldades, era aceite tal como ele era, a justiça suprema encontrava-se apenas no além e a melhor forma para lidar com as agruras da vida era aceitá-las como naturais e imutáveis. Com a serenidade que ter o futuro para além da morte definido garante, com a força que a união espiritual dos povos consagra e com uma postura realista perante o mundo, a civilização prosperou até atingir o grau de riqueza do qual, salvo excepções, ainda beneficiamos hoje.
(Continua)
Em segundo lugar, a especificidade que o Cristianismo ofereceu ao Ocidente, ou seja: os seus valores. A tolerância, a solidariedade, o necessário balanço da liberdade com a igualdade, ao contrário do que a muitos possa parecer a uma primeira vista, incorpora na perfeição os valores e ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, a seu tempo, souberam também os nossos antepassados separar o temporal do secular. Essa separação soube dar o espaço para os indivíduos tratarem dos assuntos terrenos como melhor lhes aprouvesse. Mas o desígnio divino que os orientava continuava presente dando, por um lado, sentido ao mundo e, por outro, garantindo valor a esse mesmo mundo material que não poderia ser desprezado porque, tendo sido o local de encarnação de Deus feito homem (e matéria), ganhava uma dignidade inestimável. Deste modo, fornecidos de um sentido para a vida, motivados para conquistar e melhorar o mundo (a obra de Deus), organizados em função de valores funcionais, justos e reconhecidos como tal, souberam os nossos antepassados construir uma civilização próspera, poderosa e, a seu tempo, que soube oferecer a maior dádiva que uma comunidade pode garantir aos seus membros: paz e segurança.
Uma vez aí chegados, e para impedir a decadência, sobra proteger o que herdámos. E para isso impôs-se uma luta centenária entre aqueles que tudo queriam mudar em nome de valores ou ideias que entendiam ser melhores e os outros, aqueles que se apoiavam no valor da tradição como forma de proteger aquilo que já havia sido conquistado. As instituições, sólidas, respeitadas, transmitiram por gerações as leis e os conhecimentos do passado; as famílias fizeram o mesmo, mas em especial com os valores. Mas a cultura de participação e de crescente afirmação e florescimento da liberdade individual permitiu incorporar a mudança num processo gradativo de melhoramento generalizado das condições de vida das pessoas. As instituições visaram sempre manter; quem obrigou à mudança foram os indivíduos, que armados da crescente liberdade para o poder fazer; souberam conquistar, por si próprios, um futuro melhor para os seus filhos. E aqui residia a força civilizacional: numa multidão que pelo trabalho e dedicação escalava a montanha social rumo a uma melhor situação de vida.
Mas, acima de tudo, também, ocuparam-se as pessoas de aceitar o sentido para a vida e para o mundo que o transcendente comum e partilhado lhes oferecia. O mundo, e as suas dificuldades, era aceite tal como ele era, a justiça suprema encontrava-se apenas no além e a melhor forma para lidar com as agruras da vida era aceitá-las como naturais e imutáveis. Com a serenidade que ter o futuro para além da morte definido garante, com a força que a união espiritual dos povos consagra e com uma postura realista perante o mundo, a civilização prosperou até atingir o grau de riqueza do qual, salvo excepções, ainda beneficiamos hoje.
(Continua)
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ON TYRANNY
"On the other hand, when we were brought face to face with tyranny - with a kind of tyranny taht surpassed the boldest imagination of the most powerful thinkers of the past - our political science failed to recognize it".
Leo Strauss, On Tyranny, in: On Tyranny, University Chicago Press, 2013, p.23
Leo Strauss, On Tyranny, in: On Tyranny, University Chicago Press, 2013, p.23
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
A ASCENÇÃO E A QUEDA (I)
A civilização ocidental representa o momento onde a espécie humana
conheceu a melhor qualidade de vida da sua história: nunca tantos
viveram tanto e tão bem como hoje no Ocidente. Este triunfo
civilizacional não foi alcançado do nada. Pelo contrário: foi fruto de
todo um processo árduo de evolução da barbárie para um mundo onde se
pode viver em paz, segurança e liberdade. Hoje, por regra, um ocidental,
nem depende da sorte para sobreviver num mundo que não controla, nem
vive num clima de conflito permanente onde a sua vida esteja de forma
constante em risco. Pelo contrário: o homem ocidental pode viver a sua
vida explorando os seus desejos, dando-se ao luxo de manifestar
livremente as suas vontades e moldar a sua vida da forma como muito bem
entende. Aliás, os grandes debates do Século XXI no Ocidente centram-se
precisamente em todos os direitos, garantias e liberdades que se devem
dar como adquiridas por parte de todos os cidadãos ocidentais por igual.
E de tal forma triunfante a civilização ocidental é que muitos no seu
seio advogam que esses direitos, liberdades e garantias devem ser
oferecidos ao mundo inteiro, a todos por igual e sem excepção. Tal
desiderato é absolutamente inédito na história universal.
Diz o ditado que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. A ser verdade o dito - e normalmente é - a queda da civilização ocidental será estrondosa e monumental, sobrando apenas a questão de saber quando tal fantástico evento ocorrerá - e de que forma. Tal como com a vida de cada um, as civilizações, aparecem, afirmam-se, vencem e conquistam apenas para, a partir de algum momento, declinarem, caírem e das duas uma: ou desaparecerem sem rasto num imenso oceano de esquecimento ou, no melhor cenário, verem os seus despojos finais acantonados atrás das vitrines dos museus daqueles que lhes sucederem. Assim foi com todos e, naturalmente, assim será connosco. Para muitos, os sinais da decadência estão por todo o lado e a queda já está a acontecer: decréscimo de poder no mundo, infertilidade generalizada, degeneração dos valores civilizacionais, etc., são os argumentos oferecidos. Para outros, a ascenção continua e a verdadeira civilização ainda não encontrou o seu apogeu: a revolução tecnológica contínua, o progresso material, a melhoria da qualidade de vida, os "avanços sociais", etc., são os contra-argumentos. Para os pessimistas, o pico civilizacional foi lá atrás; para os progressistas - optimistas, ela ainda estará por cumprir. Também é difícil encontrar concórdia sobre o que faz, ou fez, uma civilização: uns dirão que é o respeito pelas suas tradições, outros dirão que é a partilha de determinados ideais; alguns pensarão que se faz de exércitos, fronteiras e poder, outros dirão que é a cultura, a arte e o pensamento. Provavelmente, todos terão razão: a força de uma comunidade advém de um passado partilhado mas também de um futuro que se quer continuar a partilhar; igualmente, a pujança civilizacional faz-se de poder mas também da arte e engenho para o exercer - no mínimo dentro da sua comunidade. Para isso, fundamental será a única coisa que é comum a todos esses factores: a necessidade imperiosa que uma civilização tem de oferecer um certo sentido de pertença e identidade, uma perspectiva da vida e do mundo, uma narrativa se preferirem, que construída em conjunto, partilhada pela maioria, ofereça a força aos exércitos, a visão às artes e o rasgo e entusiasmo na busca pelo aperfeiçoamento constante da vida comum em nome de determinados valores partilhados.
Resumindo: uma civilização é mais do que um modo de vida, é uma comunidade - um viver em comum, com os outros que, de alguma forma, são como eu. Por esta perspectiva, o declínio civilizacional pode, então, ser diagnosticado quando este viver comum se desagrega, quer num lento processo de deterioração das bases civilizacionais, quer num processo de divisão através da emergência de um conjunto de blocos que se tornam independentes, antagónicos mesmo, entre si: quando esses blocos são tão heterogéneos que não conseguem sequer encontrar plataformas de entendimento que lhes permita continuar a conviver de forma pacífica e próspera, e quando o ódio de uns pelos outros quebra os últimos laços de fraternidade que obrigavam à necessidade última do compromisso social, nesse momento, fruto dessa fraqueza, dessa divisão, o todo perde a força de se impor no mundo e, naturalmente, mais cedo do que tarde, acaba por soçobrar perante aqueles que se querem impor sobre si. Concomitantemente, quer por cisão, quer por desistência, a queda será o momento último em que o declínio se efectiva em absoluto numa realidade onde aqueles que partilham os valores da civilização moribunda se vêem por alguma razão impedidos de os colocar em prática: o seu modo de vida acabou.
(Continua)
Diz o ditado que quanto mais alto se sobe de mais alto se cai. A ser verdade o dito - e normalmente é - a queda da civilização ocidental será estrondosa e monumental, sobrando apenas a questão de saber quando tal fantástico evento ocorrerá - e de que forma. Tal como com a vida de cada um, as civilizações, aparecem, afirmam-se, vencem e conquistam apenas para, a partir de algum momento, declinarem, caírem e das duas uma: ou desaparecerem sem rasto num imenso oceano de esquecimento ou, no melhor cenário, verem os seus despojos finais acantonados atrás das vitrines dos museus daqueles que lhes sucederem. Assim foi com todos e, naturalmente, assim será connosco. Para muitos, os sinais da decadência estão por todo o lado e a queda já está a acontecer: decréscimo de poder no mundo, infertilidade generalizada, degeneração dos valores civilizacionais, etc., são os argumentos oferecidos. Para outros, a ascenção continua e a verdadeira civilização ainda não encontrou o seu apogeu: a revolução tecnológica contínua, o progresso material, a melhoria da qualidade de vida, os "avanços sociais", etc., são os contra-argumentos. Para os pessimistas, o pico civilizacional foi lá atrás; para os progressistas - optimistas, ela ainda estará por cumprir. Também é difícil encontrar concórdia sobre o que faz, ou fez, uma civilização: uns dirão que é o respeito pelas suas tradições, outros dirão que é a partilha de determinados ideais; alguns pensarão que se faz de exércitos, fronteiras e poder, outros dirão que é a cultura, a arte e o pensamento. Provavelmente, todos terão razão: a força de uma comunidade advém de um passado partilhado mas também de um futuro que se quer continuar a partilhar; igualmente, a pujança civilizacional faz-se de poder mas também da arte e engenho para o exercer - no mínimo dentro da sua comunidade. Para isso, fundamental será a única coisa que é comum a todos esses factores: a necessidade imperiosa que uma civilização tem de oferecer um certo sentido de pertença e identidade, uma perspectiva da vida e do mundo, uma narrativa se preferirem, que construída em conjunto, partilhada pela maioria, ofereça a força aos exércitos, a visão às artes e o rasgo e entusiasmo na busca pelo aperfeiçoamento constante da vida comum em nome de determinados valores partilhados.
Resumindo: uma civilização é mais do que um modo de vida, é uma comunidade - um viver em comum, com os outros que, de alguma forma, são como eu. Por esta perspectiva, o declínio civilizacional pode, então, ser diagnosticado quando este viver comum se desagrega, quer num lento processo de deterioração das bases civilizacionais, quer num processo de divisão através da emergência de um conjunto de blocos que se tornam independentes, antagónicos mesmo, entre si: quando esses blocos são tão heterogéneos que não conseguem sequer encontrar plataformas de entendimento que lhes permita continuar a conviver de forma pacífica e próspera, e quando o ódio de uns pelos outros quebra os últimos laços de fraternidade que obrigavam à necessidade última do compromisso social, nesse momento, fruto dessa fraqueza, dessa divisão, o todo perde a força de se impor no mundo e, naturalmente, mais cedo do que tarde, acaba por soçobrar perante aqueles que se querem impor sobre si. Concomitantemente, quer por cisão, quer por desistência, a queda será o momento último em que o declínio se efectiva em absoluto numa realidade onde aqueles que partilham os valores da civilização moribunda se vêem por alguma razão impedidos de os colocar em prática: o seu modo de vida acabou.
(Continua)
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
UM CÓDIGO POLITICAMENTE CORRECTO, JÁ!
Como parece estar na moda identificar discriminações, eu, não querendo ficar atrás, indignei-me hoje quando percebi que existe uma opressão imensa sobre os militantes da esquerda democrática levada a cabo aquando da conspiração fascista da direita reaccionária que levou à instauração do código da estrada: é inadmissível numa sociedade igualitária, fraterna e justa que aos automóveis que vêm da direita lhes seja dada sempre prioridade. Não é justo que alguém apenas por vir da direita tenha prioridade sobre quem vem da esquerda. Por que razão há-de o automobilista da direita chegar a horas e o da esquerda não? Exige-se justiça JÁ! Em primeiro lugar, proponho um sinal STOP em cada esquina de cada cruzamento. Aí, os automobilistas deverão debater de forma esclarecida, seguida de necessária votação, sobre quem deverá ter as prioridades; em segundo lugar, proponho uma comissão de inquérito, seguida da necessária convenção popular, para elaborar um guião para a justiça rodoviária que implemente a paridade entre as prioridades da esquerda e da direita, de forma alternada, regulamentada e digna. Em cruzamentos onde tal paridade não possa ser atingida deve ser consultado o ministério das obras públicas para proceder às necessárias alterações físicas dos locais injustos. Após esta importante reforma prometo que os sinais de STOP serão removidos, por completo, pois o trânsito fluirá sem reservas, entraves ou problemas. Deste modo, justo e progressista, alcança-se, não apenas a necessária superação de uma injustiça indigna mas, também, estimula-se o investimento público, em particular o sector das construções públicas, fundamental ao progresso rumo ao futuro.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017
IMPERATIVO CATEGORICAMENTE CORRECTO
O imperativo categórico Kantiano ao longo dos tempos:
1785 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal".
2000 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo imaginar que estás a ser permanentemente observado por dois milhões de pessoas através da televisão".
2010 - "Age apenas segundo uma mínima tal que te permita não ser vilipendiado no espaço público por múltiplas minorias que controlam mediaticamente a definição do que é moralmente aceitável".
1785 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal".
2000 - "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo imaginar que estás a ser permanentemente observado por dois milhões de pessoas através da televisão".
2010 - "Age apenas segundo uma mínima tal que te permita não ser vilipendiado no espaço público por múltiplas minorias que controlam mediaticamente a definição do que é moralmente aceitável".
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sábado, 14 de janeiro de 2017
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
BREVES NOTAS SOBRE A LIBERDADE: O Neo-Esclavagismo Racionalista
Se,
por um lado, é verdade que o espírito do nosso tempo se faz de uma
crença inabalável nos méritos do Homem, por outro lado, esse
imenso optimismo humanista, ao alicerçar-se numa das maiores ilusões
intelectuais da nossa História, é bem capaz de encerrar dentro de
si próprio as sementes da nossa própria destruição. Que ilusão é
essa? A ideia completamente fantasiosa de que superámos, ou
poderemos superar, a violência da nossa condição humana - aquela
que quase destruiu a Europa e o mundo ainda há pouco mais de setenta
anos - e que continuamos a subir uma escada evolutiva infinita, sempre
a progredir, sempre a melhorar, rumo a um ideal de progresso e
florescimento humano que, mesmo que seja impossível de atingir na
sua plenitude, se encontra no topo dessa mesma escada. De acordo com
essa ideia, hoje somos melhores, mais inteligentes e, acima de tudo,
mais evoluídos
do que aqueles outros humanos que nos antecederam, seres perdidos na
História e na barbárie hoje definitivamente ultrapassada. O rumo,
pensa-se - ou talvez fosse melhor dizer: intui-se
-, é por definição sorridente: se a evolução nos trouxe até
aqui, e o aqui é infinitamente melhor do que o que já fomos no
passado, então o futuro só pode trazer mais evolução, mais
progresso e, consequentemente, mais desenvolvimentos, avanços e
melhorias. Sonham-se com os avanços tecnológicos do amanhã e
imaginam-se os mundos quase perfeitos que os nosso filhos e, quiçá,
fruto dos descobrimentos medicinais, nós também ainda teremos o
prazer de desfrutar nas décadas e séculos que estão por vir.
Esta ilusão progressista, uma mera promessa, serve de isco para uma ideia anterior que a
sustenta: a noção que, de algum modo, há um destino, um telos,
uma finalidade, para o universo e, consequentemente, para os homens
também. É nesse telos que se descobre a razão, e o sentido, do mundo e, por conseguinte, da existência humana. Antes do advento da modernidade secular em que vivemos, esse
porvir era oferecido pela religião, e era conhecido tanto pela fé
como pela razão; hoje, com o triunfo do materialismo, sobra-nos a
razão. Muita desta crença nas nossas próprias valias humanas, tal
como na nossa capacidade de controlar o mundo, deriva de olharmos
para nós próprios através daquilo que nos distingue dos demais: a
nossa racionalidade. E, cheios de convicção nos méritos da nossa
razão, assumimos que essa razão tem um carácter divino: aquilo que
ela estabelece, tal como a antiga palavra de Deus, é aquilo que é
verdade. Consequentemente, algo que é racional, por definição, é
tido como algo que é verdadeiro (mesmo no nosso linguarejar, "ter
razão" implica afirmar algo que é verdade e que deve ser
aceite como tal por todos); e como uma coisa que é verdadeira não
pode ser falsa, também uma coisa que é racional não o pode ser. E
assim chegamos à noção de que dois postulados racionalmente
válidos não podem ser contraditórios pois, como uma verdade não
pode entrar em conflito com outra verdade, se dois postulados são
igualmente racionais, e por isso verdadeiros, então terão que ser
compatíveis entre si. Esta compatibilidade, ou melhor será dizer: a
busca por essa compatibilidade, norteia muito do nosso tempo: para
cada conflito, para cada percalço, para cada questão, recorrendo à
nossa racionalidade, a custo, lá encontraremos a solução. E de
solução em solução evoluímos, e dessa forma, porque convencidos
do ritmo seguro e infalível da nossa razão, antevemos cheios de
certeza que o futuro que os nossos passos buscam é melhor e, acima
de tudo, mais verdadeiro. É dessa verdade que achamos ir descobrindo
que vem o optimismo e a crença no progresso; e é dessa verdade
racional que imaginamos dentro de nós que vem o carácter
proto-divino que nos arrogamos de possuir. Assim, o absoluto, eterno e divino,
para o homem contemporâneo herdeiro de Kant, é o racional que temos
dentro de nós. Nietzsche exclamou pelo morte de Deus mas, na
verdade, na boa tradição Tomista, Ele apenas foi substituído por uma outra crença, uma crença
na harmonia racional do universo.
No entanto, se é verdade que a ideia de não contradição entre duas hipóteses igualmente racionais é uma
noção válida no campo das ciências abstractas e matemáticas,
também não será menos verdade que no campo das vidas dos homens,
das suas morais e dos seus dilemas, representa uma noção que não
poderia ser mais errada. E a vida dos homens, ao contrário dos
robôs, não se faz apenas de matemática. No mundo moral, o valores
colidem. No mundo dos homens, postulados igualmente válidos podem
ser incompatíveis ou concorrentes. É tão racionalmente válido eu
desejar viver numa sociedade segura como numa sociedade livre
- mas apostar numa delas implica invariavelmente prejudicar a outra;
eu posso querer ser corajoso - mas a prudência não
deixa de ser fundamental a uma vida bem vivida; eu posso sonhar com a
justiça a presidir à organização social da minha
comunidade - mas a solidariedade e a clemência também
são valores importantes numa comunidade. No final, implica
perceber-se que se os valores colidem entre si mais do que descobrir
qual a receita certa, ou verdadeira, para o dilema social, a
verdadeira questão é escolher qual a combinação de valores
que desejamos para as nossas vidas.
E a diferença é abissal.
Isto porque acreditar-se numa solução pressupõe sempre que as
coisas são de alguma forma predeterminadas: uma solução que é a
certa, e por isso verdadeira, será uma solução que terá que estar
de acordo com um padrão universal de verdade, padrão esse que nos
antecede a nós humanos que apenas nos pretendemos aproximar dele. A
verdade é eterna, imutável e divina, a verdade é verdade
independentemente de nós. Mas, mais do que isso, a verdade é apenas
uma. E deste modo chegamos à implicação determinista, a
grande consequência não falada dos modelos racionalistas. Sem o arbítrio de Deus, onde apenas a razão é verdadeira e universal, onde o que é verdadeiro e universal antecede a consciência humana, e onde a solução que pretendemos para o dilema moral é racional, então a solução que se persegue será verdadeira, universal e antecede a consciência humana.. Assim sendo, a solução já existirá antes de ser conhecida
pelos humanos. Nada se cria, apenas se descobre. Nada se
decide por nós próprios, apenas se revela o que devemos fazer. Em
suma: não somos livres para escolher, apenas para perceber o que é
suposto que nós façamos. É a morte da liberdade.
A alternativa é a do livre-arbítrio: assumir que escolher implica
criar. Escolher verdadeiramente sem soluções pré-definidas
como boas ou más implica assumir-se que o mundo é nosso para criar por entre as opções que temos pela frente - e não limitados pelas certezas de uns quantos supostamente iluminados.
E com essa profunda liberdade vem a correspondente responsabilidade.
Já o determinismo racionalista retira o jugo da responsabilidade do
pescoço humano e coloca-o num pseudo-critério racional que, sendo
universal, sendo absoluto e infalível, assume a responsabilidade da escolha, escolha essa que deixa de ser humana para passar a ser
cósmica, universal, racional. Determinismo implica fatalismo,
destino e fado. Já a liberdade implica criar, fazer
e sonhar.
O
paradoxo é que o determinismo, ao vender a ilusão de solução
universal, sendo esta falsa, acaba por aprisionar-nos a um rumo que,
não sendo necessariamente o melhor, condiciona-nos aos caprichos daqueles que nos garantem ter descoberto as soluções para os dilemas dos homens. São
os novos messias: os heróis racionalistas que definem o que é
racional, ou bom, o que se deve fazer, ou não, sempre cheios de
certezas, sempre cheios de soluções. Ponha-se um actor, de bata branca, caderno de notas na mão, a afirmar que os últimos estudos garantem isto ou aquilo e o sucesso é garantido, seja esse sucesso vender detergente, carros, pessoas ou ideias. Já
o caminho da verdadeira liberdade, a de pensar, escolher e criar,
essa apenas oferece a vertigem do abismo: um universo sem sentido oferecido a
priori e
que, por isso mesmo, assusta. Muito. Mas também abre a vida à
infinitude de destinos que as nossas escolhas podem criar.
Assim, concluindo, por um
lado, temos o falso conforto temporário (porque as "soluções"
esbarram sempre na próxima esquina) que a ilusão de uma certeza
sobre o sentido para a vida nos oferece - e a sensação de controlo que dela deriva, tanto a
individual como a comunitária; por outro lado, temos a vertigem, e a
responsabilidade, de termos os nossos próprios destinos, quaisquer
que sejam, nas nossas mãos. Do primeiro, deriva o centralismo, o controlo, a conformidade, o monismo; do segundo, a espontaneidade, a autonomia, a criatividade, a diversidade. Entre um e outro, como sempre, se faz a
diferença - enorme! - entre escravos e homens-livres. Mesmo que a
esse grilho mental nos dias de hoje se dê o nome de razão.
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FILOSOFIA
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
FILHOS PRÓDIGOS
Nos tempos de hoje vive-se a noção de que evoluímos positivamente: fisicamente, de mamíferos menos evoluídos; intelectualmente, de antecessores menos inteligentes; socialmente, de comunidades menos avançadas. Aliás, a ideia é precisamente a de "avanço": progresso, desenvolvimento, evolução, tudo a aumentar de forma positiva do passado para o presente - e a promessa de que assim pode continuar rumo a um futuro que se imagina como virtuoso e cheio de maravilhas salvíficas. No entanto, esta ideia é uma ideia muito recente, filha bastarda do iluminismo e do racionalismo científico que lhe sucedeu. Antes disto tudo, e durante a maior parte da existência humana, a representação do sentido da História era a oposta, a de decadência: o passado é que era idílico e paradisíaco e a existência humana representava uma queda desse Olimpo divino, no caso Grego, ou do Paraíso de Adão e Eva, no caso bíblico. A queda na imperfeição humana separava-nos da perfeição divina e condenava-nos a aceitar a tragédia como parte da vida. Nos dias de hoje a intuição é a oposta: todos os problemas terão uma solução, o optimismo garante a salvação (a derrota é ser pessimista), não há limites para o futuro (científicos, físicos ou morais), a vida eterna pode ser aqui e agora, haja tempo e saúde para lá chegar. No entanto, no seu âmago, a realidade da vida humana é muito mais coerente com a visão antiga do que com a moderna: tornamo-nos seres conscientes durante o paraíso que é a infância, na terra dos sonhos e da magia, isto apenas para dela inesperadamente cairmos quando tomamos noção dos paradoxos, das limitações e das tragédias que compõem a vida adulta. Aliás, a maçã, símbolo da fertilidade, que a serpente, símbolo fálico, oferece a Eva, e que esta prova, é a perfeita representação para a inevitabilidade da puberdade e a obrigação de com ela perder-se o paraíso que é a infância. A adolescência é a queda; a vida adulta é o embate no chão, na base de tudo, ou seja, no tomar noção da condição humana: a morte dos próximos, as perdas múltiplas, a consciência da finitude, etc., etc. Ser adulto implica lidar com o facto de sermos aquilo que somos. Ser realista, portanto. Mas nos dias de hoje em que o regresso ao paraíso perdido na infância está sempre prometido no futuro sempre presente ao virar da próxima esquina não há razões para se ter que crescer: para quê aceitar o que nos magoa se no futuro aquilo que nos magoa pode ser simplesmente mudado, eliminado, ou seja: resolvido? E dessa forma adia-se o amadurecimento. E prolonga-se a infância. E pune-se o realismo: para quê falar dos perigos e das obrigações do mundo dos adultos quando tudo à nossa volta nos ensina a viver de, e para os, sonhos? A abundância que a revolução industrial, a grande filha do Iluminismo, nos trouxe permitiu banquetear-nos na indolência, na arrogância e no luxo de não vermos o mundo tal como ele é mas tal como nós gostaríamos que ele fosse. E, tal como o filho pródigo, nesse luxo, nessa arrogância, e nessa indolência, desbaratamos a abundância material, moral e civilizacional que nos foi legada. Resta saber se haverá tempo para a redenção.
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