"It is only by reducing people of flesh and blood to a mere idea that one can ignore the will of the majority in the name of democracy and institute a dictatorship in the name of freedom".
Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, p. 132
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
CHOOSING VALUES
"Some inequalities (say, those based on birth) are condemned as arbitrary and irrational, others (say, those based on efficiency) are not, which seems to indicate that values other than equality for its own sake affect the ideals even of passionate egalitarians. A part of what we mean by rationality is the art of applying, and combining, reconciling, choosing among general principles in a manner for which complete theoretical explanation (or justification) can never, in principle, be given".
Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83
Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83
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FILOSOFIA
sábado, 11 de fevereiro de 2017
O TEMPO NOVO
Durante as últimas décadas, as democracias europeias têm sido governadas por dirigentes políticos que, ao invés de se preocuparem a governar em nome do povo, se têm ocupado a convencer o povo sobre o que é que este deve querer, ou não, para si próprio. Através de todos os meios, principalmente através de um meio mediático medíocre e corrupto, por todo o continente se tem propagandeado que o que está certo é advogar-se uma Europa multi-cultural, multi-religiosa e aberta a todas as civilizações exógenas, mesmo as mais hostis e violentas, tidas todas como iguais. Quem não concordasse com o axioma oficial logo era enlameado na praça pública como racista, xenófobo ou proto-assassino. A Europa multi-cultural, diziam-nos, é terra de paz, prosperidade e fraternidade - para todos no mundo. Esqueceram-se, no entanto, daqueles que já cá estavam.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.
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POLÍTICA
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
POPULISMO
O populismo de Trump é directamente proporcional ao populismo dos que histrionicamente o criticam. Mas não só: em Portugal, Sócrates foi populista. Costa é populista. Marcelo é populista. Já Passos, que fala do mundo real, nada tem de populista. Logo, é impopular. Porque é a sociedade destes tempos que vivemos que é ela própria populista: gritam
todos muito alto pelos seus direitos sem ter a mínima
preocupação de os alicerçar na realidade, ao mesmo tempo que esperneiam
cada vez que a coisa não corre como cada um quer. Parecenças com Trump não são meras coincidências. Os jornais são populistas. As TV's são populistas. E por isso gostam muito do BE, que é populista. A Le Pen também é populista e, como tal, porque bons vendedores de banha da cobra não se preocupam com esquerda e direita, prometem ambos, a Le Pen e o BE, exactamente a mesma coisa: o sol na eira e a chuva no nabal. Ou seja, mundos e fundos que não há como pagar. E o discurso da mentira, da propaganda, da artimanha, só cola porque foram anos e anos de governações medíocres, arrogantes, moralmente superiores, tudo cheio de terceiras vias infalíveis, de fins da história. E isso também foi populismo, porque não era, nem nunca poderia ter sido, real. E, no meio de tanta merda, depois de tanto engano, o povo diz que se farta. E entre os populistas de um lado, os populistas do outro, ou os do meio, venha nem que seja o diabo, desde que seja diferente. Foi assim com Trump. E tudo indica será assim com Le Pen.
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POLÍTICA
POLITICAL ENTITY
"Every religious, moral, economic, ethical, or other antithesis transforms into a political one if it is sufficiently strong to group human beings effectively according to friend and enemy. The political does not reside in the battle itself, which possesses its own technical, psychological, and military laws, but in the mode of behaviour which is determined by this possibility, by clearly evaluating the concrete situation and thereby being able to distinguish correctly the real friend and the real enemy. A religious community which wages wars against members of other religious communities or engages in other wars is already more than a religious community; it is a political entity".
Carl Schmitt, The Concept of the Political, University Chicago Press, 2007, p. 37
Carl Schmitt, The Concept of the Political, University Chicago Press, 2007, p. 37
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POLÍTICA
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
A PROPÓSITO DAS BICICLETAS
Na cidade onde vivo, Bruxelas, existe uma enorme obsessão por
bicicletas. Por todo o lado existem ciclovias e às bicicletas são
conferidos direitos especiais: circulam na estrada, circulam nas
passadeiras, passam sinais encarnados, andam em ruas de trânsito
proibido e podem circular, tanto no sentido do trânsito automóvel,
como em sentido oposto ao permitido aos carros, mesmo quando as ruas
são de sentido único. Ao mesmo tempo, incentiva-se fortemente a
utilização da bicicleta, inclusive por pais com filhos bebés, quer
em cadeiras especiais, quer em reboques ou acrescentes para o efeito,
quer seguindo as crianças nas suas próprias bicicletas, pelas ruas,
atrás dos pais.
A razão por detrás de tudo isto é que a
bicicleta é tida como um meio de transporte saudável, não poluente
e sustentável. E é. No entanto, também é verdade que numa cidade
de trânsito caótico, como Bruxelas, cheia de automóveis, e onde se
conduz por regra geral mal, torna-se perigoso andar de bicicleta: 28%
dos mortos na estrada na Bélgica em 2015 foram ciclistas;
ou, a título de exemplo, no Reino Unido um ciclista tem 17
vezes mais probabilidades de morrer na estrada do que um
automobilista.
No entanto, estes factos não parecem ter impacto algum, quer nos
cuidados a ter por parte das pessoas, quer em medidas eventuais a
tomar por parte das autoridades. Não seria melhor obrigar os
ciclistas a um comportamento igualmente responsável, tal como se
obriga aos automobilistas, por forma a garantir a sua segurança, e a
dos seus filhos quando é o caso, em vez de, ao privilegiar por
absoluto a bicicleta face aos automóveis, ter como efeito secundário
uma menor segurança rodoviária? E o que dizer dos pais que, apesar
dos facínoras diversos que poluem as estradas belgas, andam
livremente pelas ruas com os seus filhos como se de um calmo e seguro
passeio pelo parque fosse? Ao valor que atribuímos ao facto de a
bicicleta ser um meio de transporte mais sustentável não deveríamos
contrapor o valor ainda mais importante da segurança rodoviária,
especialmente no caso das crianças? E isso não obrigaria a perceber
que a defesa por absoluto da bicicleta e a demonização do automóvel
não contribui para a segurança rodoviária, incluindo em especial a
dos próprios ciclistas?
Muito pelo contrário. Como é apanágio do tempo em que vivemos, vá
alguém criticar os exageros - atente-se que falo apenas dos exageros
e não da causa em si - absolutizantes dos cavaleiros da verdade,
neste caso a "verdade" do axioma "os automóveis
estão a destruir o planeta Terra", e será apelidado de
"retrógrado", "burro", "egoísta" ou,
talvez, "assassino ecológico". Vá alguém reclamar do
perigo, em particular para os próprios, que representa a condução
absolutamente irresponsável de bicicletas na cidade - como abunda
por aqui - e, naturalmente, em caso de acidente, a culpa será do
automobilista porque, lá está, é um automobilista. Nos
entretantos, fecham-se as ruas ao trânsito, incentiva-se a fundo a
"mobilidade sustentável" e, nem por um momento, se pára
para pensar que, por melhor que seja para o ambiente uma bicicleta, e
é verdade que o é, não deixa de ser um valor que deverá ser
negociado, complementado e mitigado com outros valores, nomeadamente
o da segurança, que são igualmente fundamentais. A grande verdade que a Esquerda, e boa parte da Direita também, se recusa a aceitar é que os valores nunca são absolutos: eles conflictam, colidem entre si. E cabe ao julgamento humano escolher sobre a forma como quer resolver, a cada passo, tais conflitos. É um inevitabilidade da condição humana que qualquer um pode verificar por si próprio desde que se muna de algum bom senso.
Aliás, a essência da Democracia encontra-se precisamente na capacidade de
negociar conflitos de valores e ideias diferentes, que interessam a diferentes
pessoas de forma diferente, e que podem ter diferentes resoluções. No entanto, ao assumirmos que a verdade é una, que
os valores são absolutos e que aqueles que não concordam com as
premissas da moda são "bárbaros", "retrógrados"
ou "pouco evoluídos" e que, por serem maus, devem ver as
suas ideias desconsideradas, então não estamos apenas a tomar más
decisões: estamos a matar a Democracia. Precisamente aquela palavra
em nome da qual os paladinos da verdade única tanto gostam de
afirmar agir.
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POLÍTICA
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
A WILD DANCE
"[According to Hamman] Nature is no ordered whole: so-called sensible men are blinkered beings who walk with a firm tread because they are blind to the true and profoundly disturbing character of reality, sheltered from it by their man-made contraptions; if they glimpse it as it is - a wild dance - they would go out of their minds. How dare these pathetic pedants impose on the vast world of continuous, fertile, unpredictable, divine creation their own narrow, desiccated categories?"
Isaiah Berlin, 'Hume and German Anti-Rationalism', in: Isaiah Berlin, Against the Current: Essays in History of Ideas, Oxford University Press, 1981, p. 169
Isaiah Berlin, 'Hume and German Anti-Rationalism', in: Isaiah Berlin, Against the Current: Essays in History of Ideas, Oxford University Press, 1981, p. 169
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FILOSOFIA
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
A ASCENÇÃO E A QUEDA (II)
O sucesso da civilização ocidental representa, ou deveria
representar, naturalmente, um orgulho para aqueles que dela fazem parte;
no entanto, tal orgulho obriga a uma responsabilidade acrescida de
tentar compreender as razões do sucesso. O que permitiu ao Ocidente
chegar onde nenhuma outra civilização tinha chegado antes? Em primeiro
lugar, o conhecimento da história que permitiu aprender com os
erros dos outros. Os humanos, como todos os seres vivos, aprendem por
tentativa e erro: apenas vendo onde as coisas correram mal podemos
emendar a mão, corrigirmos, e aprender a fazer melhor. A civilização
ocidental não nasce por acaso, fruto de teorizações abstractas levadas a
cabo por alguns homens de génio: a civilização ocidental nasce em cima
dos escombros das civilizações passadas; foi fazendo do seu conhecimento
conhecimento nosso, foi apropriando-nos do que vimos de bom e
rejeitando o que vimos como mau que nos construímos gradual e lentamente
a nós próprios. Adaptando a frase famosa de Kant, foi nos ombros de
grandes civilizações passadas que construímos a nossa. O acesso ao
conhecimento e, acima de tudo, a sua disseminação foram absolutamente
fundamentais na construção da nossa civilização: apenas numa comunidade
em que o conhecimento (e através dele a capacidade de correctamente
interpretar a realidade das coisas) foi oferecido gradualmente a cada
vez mais pessoas se pôde erigir uma comunidade alicerçada na força de
todos, e não apenas no rasgo e na força do líder. É essa característica
principal que permite que, ao contrário das outras, a civilização
ocidental tenha evoluído para uma cultura de participação ao invés de uma cultura de subordinação: e apenas uma cultura onde todos são chamados a participar poderia permitir prosperidade económica junto com democracia política, a base da liberdade tal como a conhecemos. É o grande legado dos nossos antepassados uma sociedade norteada pela liberdade de, e para, pensar, agir e trocar; onde impera a defesa dos indivíduos alicerçada nos seus direitos e na sua esfera única, e inviolável, de acção individual (protegida pelo direito à propriedade privada).
Em segundo lugar, a especificidade que o Cristianismo ofereceu ao Ocidente, ou seja: os seus valores. A tolerância, a solidariedade, o necessário balanço da liberdade com a igualdade, ao contrário do que a muitos possa parecer a uma primeira vista, incorpora na perfeição os valores e ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, a seu tempo, souberam também os nossos antepassados separar o temporal do secular. Essa separação soube dar o espaço para os indivíduos tratarem dos assuntos terrenos como melhor lhes aprouvesse. Mas o desígnio divino que os orientava continuava presente dando, por um lado, sentido ao mundo e, por outro, garantindo valor a esse mesmo mundo material que não poderia ser desprezado porque, tendo sido o local de encarnação de Deus feito homem (e matéria), ganhava uma dignidade inestimável. Deste modo, fornecidos de um sentido para a vida, motivados para conquistar e melhorar o mundo (a obra de Deus), organizados em função de valores funcionais, justos e reconhecidos como tal, souberam os nossos antepassados construir uma civilização próspera, poderosa e, a seu tempo, que soube oferecer a maior dádiva que uma comunidade pode garantir aos seus membros: paz e segurança.
Uma vez aí chegados, e para impedir a decadência, sobra proteger o que herdámos. E para isso impôs-se uma luta centenária entre aqueles que tudo queriam mudar em nome de valores ou ideias que entendiam ser melhores e os outros, aqueles que se apoiavam no valor da tradição como forma de proteger aquilo que já havia sido conquistado. As instituições, sólidas, respeitadas, transmitiram por gerações as leis e os conhecimentos do passado; as famílias fizeram o mesmo, mas em especial com os valores. Mas a cultura de participação e de crescente afirmação e florescimento da liberdade individual permitiu incorporar a mudança num processo gradativo de melhoramento generalizado das condições de vida das pessoas. As instituições visaram sempre manter; quem obrigou à mudança foram os indivíduos, que armados da crescente liberdade para o poder fazer; souberam conquistar, por si próprios, um futuro melhor para os seus filhos. E aqui residia a força civilizacional: numa multidão que pelo trabalho e dedicação escalava a montanha social rumo a uma melhor situação de vida.
Mas, acima de tudo, também, ocuparam-se as pessoas de aceitar o sentido para a vida e para o mundo que o transcendente comum e partilhado lhes oferecia. O mundo, e as suas dificuldades, era aceite tal como ele era, a justiça suprema encontrava-se apenas no além e a melhor forma para lidar com as agruras da vida era aceitá-las como naturais e imutáveis. Com a serenidade que ter o futuro para além da morte definido garante, com a força que a união espiritual dos povos consagra e com uma postura realista perante o mundo, a civilização prosperou até atingir o grau de riqueza do qual, salvo excepções, ainda beneficiamos hoje.
(Continua)
Em segundo lugar, a especificidade que o Cristianismo ofereceu ao Ocidente, ou seja: os seus valores. A tolerância, a solidariedade, o necessário balanço da liberdade com a igualdade, ao contrário do que a muitos possa parecer a uma primeira vista, incorpora na perfeição os valores e ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, a seu tempo, souberam também os nossos antepassados separar o temporal do secular. Essa separação soube dar o espaço para os indivíduos tratarem dos assuntos terrenos como melhor lhes aprouvesse. Mas o desígnio divino que os orientava continuava presente dando, por um lado, sentido ao mundo e, por outro, garantindo valor a esse mesmo mundo material que não poderia ser desprezado porque, tendo sido o local de encarnação de Deus feito homem (e matéria), ganhava uma dignidade inestimável. Deste modo, fornecidos de um sentido para a vida, motivados para conquistar e melhorar o mundo (a obra de Deus), organizados em função de valores funcionais, justos e reconhecidos como tal, souberam os nossos antepassados construir uma civilização próspera, poderosa e, a seu tempo, que soube oferecer a maior dádiva que uma comunidade pode garantir aos seus membros: paz e segurança.
Uma vez aí chegados, e para impedir a decadência, sobra proteger o que herdámos. E para isso impôs-se uma luta centenária entre aqueles que tudo queriam mudar em nome de valores ou ideias que entendiam ser melhores e os outros, aqueles que se apoiavam no valor da tradição como forma de proteger aquilo que já havia sido conquistado. As instituições, sólidas, respeitadas, transmitiram por gerações as leis e os conhecimentos do passado; as famílias fizeram o mesmo, mas em especial com os valores. Mas a cultura de participação e de crescente afirmação e florescimento da liberdade individual permitiu incorporar a mudança num processo gradativo de melhoramento generalizado das condições de vida das pessoas. As instituições visaram sempre manter; quem obrigou à mudança foram os indivíduos, que armados da crescente liberdade para o poder fazer; souberam conquistar, por si próprios, um futuro melhor para os seus filhos. E aqui residia a força civilizacional: numa multidão que pelo trabalho e dedicação escalava a montanha social rumo a uma melhor situação de vida.
Mas, acima de tudo, também, ocuparam-se as pessoas de aceitar o sentido para a vida e para o mundo que o transcendente comum e partilhado lhes oferecia. O mundo, e as suas dificuldades, era aceite tal como ele era, a justiça suprema encontrava-se apenas no além e a melhor forma para lidar com as agruras da vida era aceitá-las como naturais e imutáveis. Com a serenidade que ter o futuro para além da morte definido garante, com a força que a união espiritual dos povos consagra e com uma postura realista perante o mundo, a civilização prosperou até atingir o grau de riqueza do qual, salvo excepções, ainda beneficiamos hoje.
(Continua)
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CRÓNICAS DO ADMIRÁVEL MUNDO NOVO,
FILOSOFIA,
POLÍTICA
ON TYRANNY
"On the other hand, when we were brought face to face with tyranny - with a kind of tyranny taht surpassed the boldest imagination of the most powerful thinkers of the past - our political science failed to recognize it".
Leo Strauss, On Tyranny, in: On Tyranny, University Chicago Press, 2013, p.23
Leo Strauss, On Tyranny, in: On Tyranny, University Chicago Press, 2013, p.23
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
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