sexta-feira, 21 de abril de 2017
O CURRAL
Longe vão os tempos em que eu vibrava e, de forma muito atenta e permanente, seguia, e participava em, com a paixão própria dos vinte anos, os acontecimentos políticos do quotidiano. Hoje em dia, a custo, leio alguns títulos de jornal, nunca vejo televisão não-ficional, e mesmo a outra muito raramente sem ser pela Internet, e fujo a sete pés do mais ínfimo vislumbre de qualquer noticiário - aquele sotaque de jornalista aprendido, forçado, repetido ad nauseum é insuportável. Oiço, para praticar o Francês, as notícias matinais pela rádio e, durante o resto do dia, através do Facebook ou do Reddit, com um lapso temporal de duas ou três horas, a não ser que seja durante o sono, logo fico a saber da histeria do momento. Por regra, são coisas que não me interessam, às quais não atribuo qualquer importância e que me aborrecem. Outras vezes, ainda bastantes, são coisas que me indignam profundamente mas que, normalmente, ou não indignam ninguém ou, quando indignam, desaparecem passado um dia. E, nos entretantos, assalta-me todo um manancial constante de sinais, de sintomas e, cada vez mais, de verdadeiras doenças, que vão afligindo o país e a nossa civilização, e sempre sem que algo se discuta com seriedade, como se estivesse eu fadado a assistir a um filme de terror, um filme onde estamos todos enfiados mas, paradoxalmente, um filme ao qual muito pouca gente assiste: preferem estar lá fora, no recreio. No final, sobra uma sensação de profunda impotência, de crescente irrelevância, como que um torpor hipotérmico que, levemente, vai prostrando, vergando e afundando todo um modo de viver, um modo de vida que chamo de meu, e nosso, e que me entristece profundamente pensar que não chegará aos meus filhos. Aos gritos, os porcos chafurdam, e triunfam, no curral em que se transformou o espaço público e mediático. Jornalismo? Uma anedota: um bando maioritariamente composto por assalariados dos fazedores de factos públicos. Comentário público? Insuportável: uma trupe de retransmissores acéfalos do interesse que vão servindo, excepção seja feita a dois ou três articulistas de valor. A governação? Asquerosa: uma vergonha que só engana quem quer ser enganado ou a quem lhe dá jeito. E, depois, sempre, a patrulha do politicamente correcto: armados em sabedores, arrogados de saberem a verdade e a imporem a estupidificação generalizada a quem se atreve a pensar de forma diferente. Nojo. Um curral? Certamente. E, com os meus quase quarenta, entre chafurdar na lama e sentar-me, à distância, a olhar o mundo tal como ele é, a opção é evidente. Depois, claro está, sobra-me a invasão de um pessimismo existencial: de tudo o que há de feio no mundo, o pior está dentro de nós: a cegueira que deriva na estupidez que, por sua vez, deriva na arrogância e, finalmente, na prepotência, tudo, claro está, alimentado pela ambição egótica de, na pequenez, reduzir a infinitude do mundo à nossa pequena e limitada condição. No final, se é para isto, então não se perde grande coisa. Ao menos isso.
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POLÍTICA
quinta-feira, 20 de abril de 2017
DA ACTUALIDADE
"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos que se conquista o internamento no manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação".
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 175, Assírio & Alvim, 2009, p. 194
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 175, Assírio & Alvim, 2009, p. 194
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LITERATURA
terça-feira, 4 de abril de 2017
DO IDEAL
"... e, com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda desta caravana da Humanidade, que se vai demandando a Meca da perfectibilidade".
in: A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco, Ulisseia, 1986, p. 132
in: A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco, Ulisseia, 1986, p. 132
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domingo, 26 de março de 2017
sexta-feira, 24 de março de 2017
O CAFÉ
Aqui há uns quantos anos atrás, mais de vinte já, ainda miúdos, à noite costumávamos parar sempre ali pelo Deck, no Estoril. O dinheiro, normalmente curto, durava mais investido em latas de cerveja vendidas na antiga Mobil e, de costas largas por sermos mais de vinte a almoçarmos todos os dias da semana ali no Deck, dávamo-nos ao luxo de as ir beber para o final da esplanada, por debaixo de uma árvore grande que ainda lá está, não lhe sei o tipo nem o nome, mas larga umas bolotas rijas e peganhentas. O Sr. Victor, o dono do Deck, tolerava a coisa. Afinal, vinte miúdos ali a almoçar cinco dias por semana dão jeito, a esplanada era grande e não estava cheia.
No entanto, houve um dia, algures durante a primeira metade dos anos 90, em que, talvez irritado com outra coisa qualquer, o Sr. Victor mandou o Quim dizer-nos para consumirmos alguma coisa. O Quim era o empregado mais novo do Deck: todo jovem gostava de mostrar que era quase tão novo como nós, dizia piadas enquanto dava cotoveladas e piscadelas para comprovar a cumplicidade etária. Naquela noite, estava encavacado. Pouco à vontade, lá nos disse que o Sr. Victor dizia que não podíamos estar ali a beber cervejas compradas noutro sítio, que pedíssemos alguma coisa. Éramos uns dez, talvez, já não me lembro. Em resposta, um do grupo, armado em esperto, cheio de preguiçosa insolência disse que, se era para pedir alguma coisa, então queria um café. Ninguém quis mais nada. O Quim lá foi em busca do tal café e a conversa retomou. Passam uns minutos, e nada de café. Por fim, lá vem o Quim de novo mas não traz o café na mão. Curiosos, aguardamos pela chegada dele, parecia uns centímetros mais baixo, vinha ainda mais encolhido. Quando chega alguém pergunta pelo café. E ele responde: "o Sr. Victor manda dizer para irem buscar o café onde foram buscar as cervejas". E vai-se embora, aliviado da missão. O grupo agita-se e indigna-se. "Então", diz um, "mas a gente vem para aqui todos os dias, somos sei lá quantos aqui a almoçar e agora é isto?". Concórdia geral. "Se é para ir buscar o café a outro lado então vamos todos", incita outro. Assentimento unânime.
Levantamo-nos, ofendidos, e, alçando as pernas sobre o varandim de ferro que dividia o Deck do seu concorrente vizinho, o Yate, trocamos de esplanada. Logo veio o Sr. Rodrigues, um galego que falava um português perfeito, perguntar-nos se queríamos alguma coisa, lá veio o café, pelo caminho verificou se as latas estavam vazias, as que estavam cheias ficavam, as vazias levantava-as. Encantamento geral, aquilo sim era serviço! Nos entretantos, mais alguns se juntavam ao grupo, e logo se repetia a estória, e logo se indignava o recém-chegado.
Do outro lado da cerca, o Sr. Victor, de braços cruzados, olhava lá de longe, encostado à goela da porta do Deck. Do Yate, de soslaio, o grupo vigiava e conspirava: exigia-se acção. Ora, a medida proposta era a evidente: os almoços passariam a ser tomados no Yate. Alguém relembrou o principal problema logístico: o bitoque do Yate custava 800 escudos, mais 100 que o do Deck. No entanto, retorquiu outro, até acabava por valer a pena porque o bitoque do Yate era de vaca, em vez do bitoque de porco do Deck, tinha mais batatas fritas e o molho era melhor. E foi assim que nos mudámos de armas e bagagens para o Yate, aliás, não tenho ideia de ter voltado a almoçar no Deck, e já lá vão mais de vinte anos. À Quarta-Feira o Yate fechava e nem aí dávamos a mão à palmatória, aproveitando a folga para ir comer uma pizza ao Don Formaggio.
Pelo caminho, foram ficando alguns momentos dignos de maior registo, como o dia em que os deuses nos deram razão na contenda com o Sr. Victor e choveu no Deck e no Yate não. Foi a única vez que vi o fim da chuva, e foi mesmo ali naquela divisória de ferro pintada de azul. Noutra ocasião, motivo de orgulho meu, bati o record de permanência na esplanada do Yate, mesmo que continuássemos a apelidar a actividade por "estar no Deck", tendo chegado após o jantar e saindo apenas depois do almoço do dia seguinte. E nunca estive sozinho, apenas que variava a companhia.
Os anos passaram, a coisa ficou e a estória, por alguma razão, passou a merecer o estatuto de estória para contar. Creio ter sido algures por 98 que, acompanhando uma namorada, fui a um jantar de aniversário de uma amiga dela onde eu não conhecia ninguém. Fiquei ao lado de um tipo simpático que, tal como eu, "era de Cascais". "Ah é?", interessei-me eu, "então e de onde", perguntei. Era de S. João. E eu? Eu era do Estoril, e depois lá surgiu a referência aos Salesianos do Estoril, "ah, andavas nos Salesianos?", pergunta ele, "andava, pois", respondo eu, e logo ele afirma que se eu tinha andado nos Salesianos então isso queria dizer que costumava ir ao Deck. Na mouche, pensei eu, e logo lhe disse que sim, que era isso mesmo, horas e horas passadas no Deck, apenas para logo corrigir e dizer "quer dizer, Deck não, Yate". O interlocutor, creio que se chama Miguel, ficou curioso: "por que não o Deck?". E, claro, satisfeito por haver tema de conversa, lá lhe contei a estória do café, não me poupando a nenhum pormenor, e terminando, ufano, com a moral da estória: "sei lá quanto é que o Sr. Victor perdeu em almoços com o ter-nos mandado ir buscar o café onde tínhamos ido buscar as cervejas". Como se a cara dele denotasse algum trejeito ou expressão que não decifrei bem perguntei-lhe se ele conhecia bem o Deck. Ao que ele me responde, "sim, sim, conheço muito bem. É que, sabes, o Sr. Victor é o meu pai".
Nesse dia, quem aprendeu uma lição fui eu: com desconhecidos, é melhor guardar as estórias para mim. No outro dia, aqui há uns meses, passei pela primeira vez em alguns anos pela frente da esplanada do Yate e do Deck. Foi com muita surpresa que vi que o Yate fechou e é agora o jardim de cerveja Deck-Beer. A cerca de ferro já não está lá e é o Miguel, um tipo simpático e que, com o passar os anos se vê perfeitamente que é a cara do pai, que montou o negócio e produz a cerveja artesanal. Anteontem, de passagem pelo Estoril, fui lá ter com uns amigos. Quem nos serviu as cervejas foi o Quim, que lá continua com a mesma farda e com o mesmo ar jovial. Mas, o que me sobressaiu mesmo foram as rugas que agora lhe decoram a cara, afinal, vinte anos já é algum tempo, e tenho ideia de que já não o via há mais cinco anos. Passados uns minutos depois de ter-me sentado, lá apareceu o meu insolente amigo que naquela noite, com o seu pedido atrevido, acabou por espoletar esta estória toda. Sentou-se e, de casaco de pele, todo bem-posto na vida, cruzou a perna, disse olá ao Quim e pediu um café.
No entanto, houve um dia, algures durante a primeira metade dos anos 90, em que, talvez irritado com outra coisa qualquer, o Sr. Victor mandou o Quim dizer-nos para consumirmos alguma coisa. O Quim era o empregado mais novo do Deck: todo jovem gostava de mostrar que era quase tão novo como nós, dizia piadas enquanto dava cotoveladas e piscadelas para comprovar a cumplicidade etária. Naquela noite, estava encavacado. Pouco à vontade, lá nos disse que o Sr. Victor dizia que não podíamos estar ali a beber cervejas compradas noutro sítio, que pedíssemos alguma coisa. Éramos uns dez, talvez, já não me lembro. Em resposta, um do grupo, armado em esperto, cheio de preguiçosa insolência disse que, se era para pedir alguma coisa, então queria um café. Ninguém quis mais nada. O Quim lá foi em busca do tal café e a conversa retomou. Passam uns minutos, e nada de café. Por fim, lá vem o Quim de novo mas não traz o café na mão. Curiosos, aguardamos pela chegada dele, parecia uns centímetros mais baixo, vinha ainda mais encolhido. Quando chega alguém pergunta pelo café. E ele responde: "o Sr. Victor manda dizer para irem buscar o café onde foram buscar as cervejas". E vai-se embora, aliviado da missão. O grupo agita-se e indigna-se. "Então", diz um, "mas a gente vem para aqui todos os dias, somos sei lá quantos aqui a almoçar e agora é isto?". Concórdia geral. "Se é para ir buscar o café a outro lado então vamos todos", incita outro. Assentimento unânime.
Levantamo-nos, ofendidos, e, alçando as pernas sobre o varandim de ferro que dividia o Deck do seu concorrente vizinho, o Yate, trocamos de esplanada. Logo veio o Sr. Rodrigues, um galego que falava um português perfeito, perguntar-nos se queríamos alguma coisa, lá veio o café, pelo caminho verificou se as latas estavam vazias, as que estavam cheias ficavam, as vazias levantava-as. Encantamento geral, aquilo sim era serviço! Nos entretantos, mais alguns se juntavam ao grupo, e logo se repetia a estória, e logo se indignava o recém-chegado.
Do outro lado da cerca, o Sr. Victor, de braços cruzados, olhava lá de longe, encostado à goela da porta do Deck. Do Yate, de soslaio, o grupo vigiava e conspirava: exigia-se acção. Ora, a medida proposta era a evidente: os almoços passariam a ser tomados no Yate. Alguém relembrou o principal problema logístico: o bitoque do Yate custava 800 escudos, mais 100 que o do Deck. No entanto, retorquiu outro, até acabava por valer a pena porque o bitoque do Yate era de vaca, em vez do bitoque de porco do Deck, tinha mais batatas fritas e o molho era melhor. E foi assim que nos mudámos de armas e bagagens para o Yate, aliás, não tenho ideia de ter voltado a almoçar no Deck, e já lá vão mais de vinte anos. À Quarta-Feira o Yate fechava e nem aí dávamos a mão à palmatória, aproveitando a folga para ir comer uma pizza ao Don Formaggio.
Pelo caminho, foram ficando alguns momentos dignos de maior registo, como o dia em que os deuses nos deram razão na contenda com o Sr. Victor e choveu no Deck e no Yate não. Foi a única vez que vi o fim da chuva, e foi mesmo ali naquela divisória de ferro pintada de azul. Noutra ocasião, motivo de orgulho meu, bati o record de permanência na esplanada do Yate, mesmo que continuássemos a apelidar a actividade por "estar no Deck", tendo chegado após o jantar e saindo apenas depois do almoço do dia seguinte. E nunca estive sozinho, apenas que variava a companhia.
Os anos passaram, a coisa ficou e a estória, por alguma razão, passou a merecer o estatuto de estória para contar. Creio ter sido algures por 98 que, acompanhando uma namorada, fui a um jantar de aniversário de uma amiga dela onde eu não conhecia ninguém. Fiquei ao lado de um tipo simpático que, tal como eu, "era de Cascais". "Ah é?", interessei-me eu, "então e de onde", perguntei. Era de S. João. E eu? Eu era do Estoril, e depois lá surgiu a referência aos Salesianos do Estoril, "ah, andavas nos Salesianos?", pergunta ele, "andava, pois", respondo eu, e logo ele afirma que se eu tinha andado nos Salesianos então isso queria dizer que costumava ir ao Deck. Na mouche, pensei eu, e logo lhe disse que sim, que era isso mesmo, horas e horas passadas no Deck, apenas para logo corrigir e dizer "quer dizer, Deck não, Yate". O interlocutor, creio que se chama Miguel, ficou curioso: "por que não o Deck?". E, claro, satisfeito por haver tema de conversa, lá lhe contei a estória do café, não me poupando a nenhum pormenor, e terminando, ufano, com a moral da estória: "sei lá quanto é que o Sr. Victor perdeu em almoços com o ter-nos mandado ir buscar o café onde tínhamos ido buscar as cervejas". Como se a cara dele denotasse algum trejeito ou expressão que não decifrei bem perguntei-lhe se ele conhecia bem o Deck. Ao que ele me responde, "sim, sim, conheço muito bem. É que, sabes, o Sr. Victor é o meu pai".
Nesse dia, quem aprendeu uma lição fui eu: com desconhecidos, é melhor guardar as estórias para mim. No outro dia, aqui há uns meses, passei pela primeira vez em alguns anos pela frente da esplanada do Yate e do Deck. Foi com muita surpresa que vi que o Yate fechou e é agora o jardim de cerveja Deck-Beer. A cerca de ferro já não está lá e é o Miguel, um tipo simpático e que, com o passar os anos se vê perfeitamente que é a cara do pai, que montou o negócio e produz a cerveja artesanal. Anteontem, de passagem pelo Estoril, fui lá ter com uns amigos. Quem nos serviu as cervejas foi o Quim, que lá continua com a mesma farda e com o mesmo ar jovial. Mas, o que me sobressaiu mesmo foram as rugas que agora lhe decoram a cara, afinal, vinte anos já é algum tempo, e tenho ideia de que já não o via há mais cinco anos. Passados uns minutos depois de ter-me sentado, lá apareceu o meu insolente amigo que naquela noite, com o seu pedido atrevido, acabou por espoletar esta estória toda. Sentou-se e, de casaco de pele, todo bem-posto na vida, cruzou a perna, disse olá ao Quim e pediu um café.
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O DIÁRIO DOS MOMENTOS PERDIDOS
LE VENT NOUS PORTERA
Noir Désir, 'Le Vent nous Portera', Des Visages des Figures, 2001
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MÚSICA
sábado, 4 de março de 2017
O PADRECO FRANCISCO
Em 1927, Freud defendia a importância da religião que, mesmo tida como uma ilusão, garantia uma forma de controlar os instintos auto-destrutivos da própria humanidade. Para ele, para podermos imaginar uma sociedade europeia sem religião seria preciso uma doutrina alternativa que, por um lado, mantivesse as características psicológicas religiosas do Cristianismo e que, por outro, garantisse o carácter sacro, formal e rígido da religião - o dogma, portanto. Passados quase cem anos não deixa de ser interessante ver como a hipótese freudiana se confirmou: primeiro, é verdade que a Europa deixou, grosso modo, de ser religiosa: a matriz cristã está lá mas a crença em Deus, no código moral da igreja ou na importância dos seus agentes é residual; segundo, há, de facto, uma doutrina alternativa que substituiu a religião mantendo todas as suas características fundamentais: a Democracia. Com as suas instituições altamente formais, o seu carácter salvífico e a crença que nela, na Democracia, reside a salvação da sociedade, assim a Europa encontrou o equivalente terreno e material para a transcendência religiosa: onde a salvação antes seria no outro mundo, a salvação agora garante-se no aqui e agora - e a Democracia é a forma de o garantir. Assim, em nome dessa crença, importa-se o dogma religioso para o plano da teoria política: as coisas ou são boas, porque democráticas, ou são anti-democráticas, e por isso más; o Bem e o Mal definem-se pela sua equivalência com o padrão democrático. E quem decide o que é democrático, ou bom, e o que não é? Os intérpretes da verdade religiosa, perdão, democrática, naturalmente. E a essência de Democracia - a discussão popular, o compromisso entre visões diferentes, a tolerância com os pontos de vista adversos, etc. - é liminarmente substituída pela imposição do ponto de vista desses arautos do democraticamente correcto através dos meios de propaganda oficial: os grandes grupos mediáticos que se alimentam, e vivem, do status quo substituindo na antecâmara digital as antigas igrejas. A Democracia, dizem eles, os bispos da nova doutrina, é a sua causa, é a sua missão. Mas logo a pervertem dando palco a quem lhes paga, ou interessa, a quem os chefes mandam falar. E depois sobram os padres e padrecos. A benzerem os fiéis (os militantes), a jurarem sobre as bíblias (os programas eleitorais) e dos seus palanques, agora púlpitos, anunciam sempre a boa-nova - a salvação! - que apesar de tardar a chegar se encontra sempre ao virar da esquina, desde que cumpram os devotos o seu dever de os eleger. Melhor exemplo de padreco não há que o Francisco Louçã: sempre compungido, de profecia em profecia, curvado e com o sermão na ponta da língua, o arauto moralista dos novos tempos caminha pela comunicação social como Jesus sobre a água: não interessa que seja contra a liberdade individual (é comunista), não interessa que seja contra a democracia (é comunista) ou contra a propriedade privada (é comunista). Não. Aquilo que interessa é que ele sabe o que é democrático, e por isso bom, e aquilo que é anti-democrático, e por isso mau. Que o que é mau coincida com o que os seus adversários fazem e o que é bom com o que os seus correligionários praticam, isso já não interessa nada. E agora, no seu auge, o Banco de Portugal. Nada mais apropriado para um Totskista inimigo da propriedade privada (o principal alicerce de uma verdadeira democracia pois os consumidores votam com a carteira sobre o que querem ver produzido) e adversário da economia de mercado no conselho consultivo de um banco central. Mas nada mais coerente! Porque, tal como muitos outros, também Louçã, apesar da sua cátedra, se deixa deslumbrar pelas lascivas curvas do grande capital - tal como os seus camaradas bloquistas que aturam as maiores safadezas do PS apenas porque lhes dá jeito. E é assim que, tal como muitos padrecos antes dele, Louçã, o maior moralista da nossa praça, vai deliciar-se nos cadeirões de couro do poder. No final, tal como Lampedusa profetizou, tudo muda para que tudo fique na mesma: afinal não é Louçã nem mais nem menos do que um Padre Amaro da política portuguesa. Deus o tenha.
quarta-feira, 1 de março de 2017
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
ABSTRACTIONISM
"It is only by reducing people of flesh and blood to a mere idea that one can ignore the will of the majority in the name of democracy and institute a dictatorship in the name of freedom".
Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, p. 132
Richard Pipes, The Russian Revolution 1899-1919, Fontana Press, 1992, p. 132
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FILOSOFIA
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
CHOOSING VALUES
"Some inequalities (say, those based on birth) are condemned as arbitrary and irrational, others (say, those based on efficiency) are not, which seems to indicate that values other than equality for its own sake affect the ideals even of passionate egalitarians. A part of what we mean by rationality is the art of applying, and combining, reconciling, choosing among general principles in a manner for which complete theoretical explanation (or justification) can never, in principle, be given".
Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83
Isaiah Berlin, Equality, in: Isaiah Berlin, "Concepts and Categories: Philosophical Essays", Oxford University Press, 1980, p.83
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FILOSOFIA
sábado, 11 de fevereiro de 2017
O TEMPO NOVO
Durante as últimas décadas, as democracias europeias têm sido governadas por dirigentes políticos que, ao invés de se preocuparem a governar em nome do povo, se têm ocupado a convencer o povo sobre o que é que este deve querer, ou não, para si próprio. Através de todos os meios, principalmente através de um meio mediático medíocre e corrupto, por todo o continente se tem propagandeado que o que está certo é advogar-se uma Europa multi-cultural, multi-religiosa e aberta a todas as civilizações exógenas, mesmo as mais hostis e violentas, tidas todas como iguais. Quem não concordasse com o axioma oficial logo era enlameado na praça pública como racista, xenófobo ou proto-assassino. A Europa multi-cultural, diziam-nos, é terra de paz, prosperidade e fraternidade - para todos no mundo. Esqueceram-se, no entanto, daqueles que já cá estavam.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.
Passadas décadas de inclusão social, de multiculturalismo, perante comunidades minoritárias que não se querem incluir - muito pelo contrário: comunidades que sonham com o dia em que a Europa adopte a cultura, religião e práticas sociais que essas comunidades deixaram nas suas terras de origem - os conflitos civilizacionais dão-se a cada rua e a cada esquina dessa inclusiva Europa. E enquanto o povo reclama, enquanto as pessoas vêem deteriorar-se a paz e a segurança que se habituaram a ter desde o final da Segunda Guerra Mundial, os seus dirigentes políticos apontam o dedo ao "medo", à "xenofobia", ao "racismo". Quem está errado é o povo, pois claro. E, de repente, com o avolumar dos casos de violência, por entre bombas, esfaqueamentos, fuzilamentos e atropelamentos, enquanto o arco da governação afirma que tudo está bem, quando é evidente que não está, para quem se poderá o povo virar? Para aqueles que apontam o dedo e dizem que o rei vai nu. E vai.
Se a isto juntarmos o facto de, por razões diversas, o bem estar económico estar em recessão, as condições de vida das populações estarem a piorar, e os seus governantes, por entre casos de mentira e corrupção, continuarem a afirmar que não se passa nada, cria-se a tempestade perfeita para a revolução. Com um discurso que aponta o dedo ao verdadeiro problema da imigração na Europa, que denuncia de forma certeira as dificuldades económicas daqueles que menos têm e que, falsamente, emulando a promessa socialista, promete a salvação pelo Estado, em França, a probabilidade de vitória de Le Pen é esmagadora. O povo, sedento de mudança, abraça o melhor de duas promessas, mesmo que ambas ilusórias: o estatismo das últimas décadas (atribuido-se à UE o ónus do seu falhanço) e o nacionalismo das suas fronteiras (onde reside a tradicional barreira de segurança face ao invasor bárbaro).
As consequências de uma vitória de Le Pen em França serão profundas para a Europa. Um FREXIT implicará, quase certamente, o fim do Euro tal como o conhecemos. Do mesmo modo, com eleições poucos meses depois, os alemães - que já escolhem a AfD (anti-Euro, eurocépticos) como terceira força neste momento - verão as suas eleições tornarem-se imprevisíveis. Na Holanda, Wilders, condenado em tribunal apenas por ter dito que os holandeses queriam menos imigrantes muçulmanos, lidera as sondagens. Na Europa de Leste, assolada na primeira linha de embate pelos refugiados sírios, a recusa da imigração muçulmana calcula-se nos 70% do eleitorado.
Apesar do acima exposto, com a excepção de Rutte na Holanda que, por interesse eleitoral, começou agora a incorporar a preocupação islâmica no seu discurso político, o arco da governação une-se no seu politicamente correcto e continua a dizer que é errado querer controlar a imigração. Que é errado pensar que a matriz cristã da Europa é algo que deve ser protegido. Que é errado pensar que os valores da tolerância, da igualdade (em particular a sexual) e da fraternidade são incompatíveis com o islamismo militante. Que é errado estar contra aqueles que querem abolir os costumes e as tradições, mesmo as meramente festivas e simbólicas como o Black Pete na Holanda ou a árvore de natal na Grand Place de Bruxelas, apenas porque são ofensivos para algumas minorias. Que é errado criticar o retirar a carne de porco dos menus escolares porque muçulmanos não comem porco. Que é errado estar contra o garantirem-se direitos especiais a minorias, tais como tirarem fotografias para passe ou passaporte de burka (podendo qualquer um debaixo dela utilizá-lo) enquanto os europeus nem de óculos podem ser fotografados porque impede a sua correcta identificação. Enfim, tornou-se habitual as pessoas estarem erradas e a elite que governa (políticos, colunistas, jornalistas, etc.) estar certa. E cá estão os censores de serviço nos media a explicarem-nos a todos porquê.
No entanto, muito pelo contrário. A asfixia do politicamente correcto parece estar a chegar ao fim. O divórcio entre o centro democrático - unânimemente unido no politicamente correcto - e o eleitorado chegou e é irreversível: as pessoas pura e simplesmente não concordam com a cartilha oficial e querem mudança. E, considerando que ainda somos democracias, ao contrário do que a elite pensante possa pensar, o que as pessoas verdadeiramente querem, especialmente quando em maioria, ainda conta para alguma coisa. Progressivamente, tal como temos vindo a assistir em França, entre o autismo do centro fiel à sua cartilha e o oportunismo dos eurocépticos, o que acontece é o centro unir-se contra o opositor. Mas, tomando nota de que as políticas do centro são sempre mais do mesmo, ao não conseguirem dar resposta àquilo que as populações verdadeiramente temem, ou desejam, aprofundando-se o divórcio, então o centro esboroar-se-á gradualmente para as mãos da oposição. Se Le Pen não ganhar agora ganhará a seguir. A maior vitória, aliás, já a conseguiu quando lhe foi oferecido de bandeja o papel de opositora oficial do regime.
Não concordo com a ideia de que o fenómeno que estamos a presenciar seja meramente o ressurgimento do nacionalismo por oposição à globalização. Também é. Mas, fundamentalmente, é uma revolta contra o desrespeito pelos valores e tradições basilares que fizeram das comunidades europeias o caso de sucesso civilizacional que é, ou que pelo menos foi. No entanto, como as elites governantes sempre viram as tradições locais como adversárias à implementação das suas utopias supra-nacionais e multi-culturais, também os seus adversários políticos as mantiveram juntas: e agora, com a recusa de uma mandam-se as outras igualmente fora. É um triste preço a pagar pela ignorância das elites progressistas, utópicas, e profundamente ingénuas, que nos governaram nos últimos anos.
A UE verá grandes alterações nos próximos anos. Ou um conjunto trans-nacional de políticos europeus consegue rapidamente proteger as identidades europeias, unindo-as no que têm em comum, conciliando-as com a pivotal liberdade e abertura económica, reformando a UE, permitindo o crescimento económico, libertando os europeus do estatismo cristalizante em que vivemos e devolvendo esperança e confiança aos europeus - algo que vejo como extremamente improvável - ou o desagregar, seja ele mais lento ou mais rápido, será a única alternativa. Seja como for, o mundo vai mudar. E, quer num cenário quer no outro, será impossível a países como Portugal continuarem a viver de mão estendida enquanto cantam hossanas aos valores solidários europeus. Para o bem ou para o mal, esse tempo morreu.
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
POPULISMO
O populismo de Trump é directamente proporcional ao populismo dos que histrionicamente o criticam. Mas não só: em Portugal, Sócrates foi populista. Costa é populista. Marcelo é populista. Já Passos, que fala do mundo real, nada tem de populista. Logo, é impopular. Porque é a sociedade destes tempos que vivemos que é ela própria populista: gritam
todos muito alto pelos seus direitos sem ter a mínima
preocupação de os alicerçar na realidade, ao mesmo tempo que esperneiam
cada vez que a coisa não corre como cada um quer. Parecenças com Trump não são meras coincidências. Os jornais são populistas. As TV's são populistas. E por isso gostam muito do BE, que é populista. A Le Pen também é populista e, como tal, porque bons vendedores de banha da cobra não se preocupam com esquerda e direita, prometem ambos, a Le Pen e o BE, exactamente a mesma coisa: o sol na eira e a chuva no nabal. Ou seja, mundos e fundos que não há como pagar. E o discurso da mentira, da propaganda, da artimanha, só cola porque foram anos e anos de governações medíocres, arrogantes, moralmente superiores, tudo cheio de terceiras vias infalíveis, de fins da história. E isso também foi populismo, porque não era, nem nunca poderia ter sido, real. E, no meio de tanta merda, depois de tanto engano, o povo diz que se farta. E entre os populistas de um lado, os populistas do outro, ou os do meio, venha nem que seja o diabo, desde que seja diferente. Foi assim com Trump. E tudo indica será assim com Le Pen.
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POLITICAL ENTITY
"Every religious, moral, economic, ethical, or other antithesis transforms into a political one if it is sufficiently strong to group human beings effectively according to friend and enemy. The political does not reside in the battle itself, which possesses its own technical, psychological, and military laws, but in the mode of behaviour which is determined by this possibility, by clearly evaluating the concrete situation and thereby being able to distinguish correctly the real friend and the real enemy. A religious community which wages wars against members of other religious communities or engages in other wars is already more than a religious community; it is a political entity".
Carl Schmitt, The Concept of the Political, University Chicago Press, 2007, p. 37
Carl Schmitt, The Concept of the Political, University Chicago Press, 2007, p. 37
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
A PROPÓSITO DAS BICICLETAS
Na cidade onde vivo, Bruxelas, existe uma enorme obsessão por
bicicletas. Por todo o lado existem ciclovias e às bicicletas são
conferidos direitos especiais: circulam na estrada, circulam nas
passadeiras, passam sinais encarnados, andam em ruas de trânsito
proibido e podem circular, tanto no sentido do trânsito automóvel,
como em sentido oposto ao permitido aos carros, mesmo quando as ruas
são de sentido único. Ao mesmo tempo, incentiva-se fortemente a
utilização da bicicleta, inclusive por pais com filhos bebés, quer
em cadeiras especiais, quer em reboques ou acrescentes para o efeito,
quer seguindo as crianças nas suas próprias bicicletas, pelas ruas,
atrás dos pais.
A razão por detrás de tudo isto é que a
bicicleta é tida como um meio de transporte saudável, não poluente
e sustentável. E é. No entanto, também é verdade que numa cidade
de trânsito caótico, como Bruxelas, cheia de automóveis, e onde se
conduz por regra geral mal, torna-se perigoso andar de bicicleta: 28%
dos mortos na estrada na Bélgica em 2015 foram ciclistas;
ou, a título de exemplo, no Reino Unido um ciclista tem 17
vezes mais probabilidades de morrer na estrada do que um
automobilista.
No entanto, estes factos não parecem ter impacto algum, quer nos
cuidados a ter por parte das pessoas, quer em medidas eventuais a
tomar por parte das autoridades. Não seria melhor obrigar os
ciclistas a um comportamento igualmente responsável, tal como se
obriga aos automobilistas, por forma a garantir a sua segurança, e a
dos seus filhos quando é o caso, em vez de, ao privilegiar por
absoluto a bicicleta face aos automóveis, ter como efeito secundário
uma menor segurança rodoviária? E o que dizer dos pais que, apesar
dos facínoras diversos que poluem as estradas belgas, andam
livremente pelas ruas com os seus filhos como se de um calmo e seguro
passeio pelo parque fosse? Ao valor que atribuímos ao facto de a
bicicleta ser um meio de transporte mais sustentável não deveríamos
contrapor o valor ainda mais importante da segurança rodoviária,
especialmente no caso das crianças? E isso não obrigaria a perceber
que a defesa por absoluto da bicicleta e a demonização do automóvel
não contribui para a segurança rodoviária, incluindo em especial a
dos próprios ciclistas?
Muito pelo contrário. Como é apanágio do tempo em que vivemos, vá
alguém criticar os exageros - atente-se que falo apenas dos exageros
e não da causa em si - absolutizantes dos cavaleiros da verdade,
neste caso a "verdade" do axioma "os automóveis
estão a destruir o planeta Terra", e será apelidado de
"retrógrado", "burro", "egoísta" ou,
talvez, "assassino ecológico". Vá alguém reclamar do
perigo, em particular para os próprios, que representa a condução
absolutamente irresponsável de bicicletas na cidade - como abunda
por aqui - e, naturalmente, em caso de acidente, a culpa será do
automobilista porque, lá está, é um automobilista. Nos
entretantos, fecham-se as ruas ao trânsito, incentiva-se a fundo a
"mobilidade sustentável" e, nem por um momento, se pára
para pensar que, por melhor que seja para o ambiente uma bicicleta, e
é verdade que o é, não deixa de ser um valor que deverá ser
negociado, complementado e mitigado com outros valores, nomeadamente
o da segurança, que são igualmente fundamentais. A grande verdade que a Esquerda, e boa parte da Direita também, se recusa a aceitar é que os valores nunca são absolutos: eles conflictam, colidem entre si. E cabe ao julgamento humano escolher sobre a forma como quer resolver, a cada passo, tais conflitos. É um inevitabilidade da condição humana que qualquer um pode verificar por si próprio desde que se muna de algum bom senso.
Aliás, a essência da Democracia encontra-se precisamente na capacidade de
negociar conflitos de valores e ideias diferentes, que interessam a diferentes
pessoas de forma diferente, e que podem ter diferentes resoluções. No entanto, ao assumirmos que a verdade é una, que
os valores são absolutos e que aqueles que não concordam com as
premissas da moda são "bárbaros", "retrógrados"
ou "pouco evoluídos" e que, por serem maus, devem ver as
suas ideias desconsideradas, então não estamos apenas a tomar más
decisões: estamos a matar a Democracia. Precisamente aquela palavra
em nome da qual os paladinos da verdade única tanto gostam de
afirmar agir.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
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