sábado, 30 de setembro de 2017

PARADOXO

Existe algo intrinsecamente paradoxal no artista "rebelde", o roqueiro de longos e despenteados cabelos, com profusas tatuagens e cheio de piercings, que abre as portas de sua casa a jornalistas, apenas para mostrar as suas amplas salas confortavelmente atapetadas, plenas de cortinados de veludo, sofás almofadados de cor creme, paredes forradas com espelhos e quadros de talha dourada e muitas almofadinhas de decoração. Eu ainda sou do tempo em que os heróis, estes sim rebeldes, se finavam novos, exauridos, afogados em poças do seu próprio vómito, agarrados a garrafas ou seringas ou, ainda, com tiros auto-inflingidos, todos tragicamente auto-destruídos pelos excessos aos quais a sua recusa da normalidade os condenou. Eram os relembradores da tragédia. Sinceramente, quem é quer saber destes betinhos de hoje em dia, todos apologistas do saudável, todos muito salvadores do mundo, todos muito bonzinhos, e que se ofendem com umas bocas se forem "politicamente incorrectas", isto enquanto se ocupam a rodar anúncios televisivos que lhes rendem milhões para gastar em decoradoras de interiores?

O CERCO (II)

Já apenas por curiosidade, e considerando aquilo que aqui escrevi ontem, vou ao Observador ver a sua cobertura das eleições autárquicas. Sinceramente, a coisa está a tornar-se ridícula. Entre a notícia onde Costa diz que o país está a recuperar (uma "notícia autárquica", claro) e umas coisas do PCP no Alentejo, o destaque principal vai, naturalmente, para alguém que não é nem autarca nem candidato a alguma câmara: Rui Rio. Em grande manchete, lá nos vem relembrar que "o PSD está numa situação muito difícil". Muito obrigado. Depois, outra notícia de outro autarca: Morais Sarmento. Este diz que "Passos terá que prestar contas". Tudo muito autárquico. Mais abaixo, um título que faz pouco de Jerónimo de Sousa, de Rui Moreira e, claro está, da "sardinha" Leal Coelho. E isto tudo ainda antes de chegar ao caderno de Lisboa onde se relata a campanha na capital. Aí, duas notícias: a de ontem, sobre Cristas (a líder que consolida a liderança) e Leal Coelho (a amiga do líder, Passos Coelho, que fragiliza a sua liderança); e outro link, a notícia de hoje, onde se dá nota que Portas aparece para apoiar Cristas e que, no lado do PSD, aparece Fernando Negrão, qualificado imediatamente como, e cito, "o candidato a Lisboa que teve o pior resultado de sempre". Mas isto não chega, mais à frente, o subtítulo já é mais claro: o apoio de hoje de Leal Coelho, Negrão, é "o pior candidato de sempre". De facto, não é preciso mentir para se fazer campanha eleitoral - e péssimo jornalismo. O cerco a Passos Coelho continua e os seus adversários não são Morais Sarmento ou Rui Rio, os aliados circunstanciais do momento. Não, os adversários de Passos Coelho são os poderosos oligarcas do regime, os donos disso tudo, incluindo os jornais.
#portugalnasmãosdosoligarcas

O CERCO

Não há dia que a newsletter do Observador, o último resquício de imprensa portuguesa que acompanho, não me venha relembrar que a liderança de Passos Coelho está "fragilizada", "em risco" ou, como hoje, "em jogo". Ao mesmo tempo, recorrentemente, desde há anos, é anunciado o seu sucessor, Rui Rio, o homem que "ganha apoios", "reúne com apoiantes" ou "conta espingardas". E isto no Observador, supostamente um espaço mediático liberto do complexo de esquerda. Ao mesmo tempo, Cristas, a sucessora de Portas e fiel executante da sua estratégia de substituir o PSD como o grande partido da "direita", oferecendo-se como o pilar direito para sustentar, junto com o PS, o bloco central de interesses que alimenta a oligarquia vigente, essa, Cristas, aparece-me todos os dias em grande: a andar de mota, a andar de metro, a visitar isto e aquilo, enquanto, e passo a citar, "consolida a sua liderança". A luta autárquica é assim, convenientemente, reduzida a dois movimentos proporcionais e, querem fazer-nos crer, interligados: o enfraquecimento de Passos e o fortalecimento de Cristas. Só por isto, estivesse eu em Lisboa, e já votaria (apesar do posicionamento sobre o alojamento local) em Leal Coelho. Isto por uma razão: aquilo que permite que o CDS se queira tristemente alçar a ser a pata direita da oligarquia de interesses portuguesa é porque Passos Coelho representa, precisamente, o grande adversário dessa mesma oligarquia dos interesses: afinal, foi ele que deixou cair Salgado. Sobre isto, curiosamente, ninguém fala. E assim temos uma situação onde o apoio a Passos Coelho se revela como necessário e imprescindível: é ele o herói derradeiro que, sem complexos, representa a maior ameaça para a rede de interesses que comanda o país e da qual Costa, tal como Sócrates, nunca mais almejou além do que dela fazer parte e, dessa forma, colher os seus frutos. Passos Coelho, com todos os seus defeitos, é a alternativa. E por isso, com toda a força, a oligarquia vigente através dos media que largamente controla, o ataca, dia após dia, com todas as suas armas. Quanto mais oiço, leio e vejo o ataque cerrado, concertado e global ao líder do PSD mais me convenço que ele é o único que, de facto, representa uma alternativa à pouca vergonha que tomou conta do país. Terá, portanto, todo o meu apoio.
#portugalnasmãosdosoligarcas

UM EMBARAÇO

A ideia de que partilho o meu Teravô, um peixe perdido algures no Oceano Pantalássico, com seres como o António Costa ou a Catarina Martins atormenta-me o espírito e representa um embaraço para a família.

ABJECTO

Se tivessem um professor na escola a perguntar ao vosso filho se não se sentiria melhor deixando crescer o cabelo, ou à vossa filha se não preferiria que esta rapasse o cabelo, eram capazes de pensar que o professor tinha perdido o tino e que não tinha nada que andar a importunar os vossos filhos sobre a forma como estes preferem ter o cabelo. Na verdade, ninguém tem nada que ver com o assunto e perguntas indiscretas, pessoais mesmo, deste género seriam rapidamente reportadas como abusivas. Se isto é assim, então, por que raio haveremos de achar normal que andem professores primários a perguntar aos nossos filhos se se sentem bem como rapazes ou às nossas filhas se sentem bem como raparigas? E que isto faça parte do curriculum da escola pública? Não será isto um abuso, uma perversão asquerosa mesmo, ter professores a indagar acerca do sexo dos nossos filhos? É que é isto que a extrema-esquerda europeia acha que é o progresso.

DO IRREVOGÁVEL

Estava eu a perorar sobre a decadência do jornalismo quando tenho aqui um exemplo de que nem tudo estará perdido. Irei, certamente, adquirir o livro. Nos entretantos, a ser verdade o que aqui se diz, explica-se muita coisa e tiram-se algumas notas:
Primeiro, que Portas compreendeu que a via para cumprir o seu sonho (substituir o PSD como o grande partido da "direita") passa mais por ser o parceiro dos negócios da oligarquia vigente, e um dos pilares do status quo, do que pelo voto eleitoral que nunca conseguiu conquistar;
Segundo, que Cristas e a sua ligação angolana, a imediata ruptura com a coligação que levou a cabo mal foi eleita, bem como a sua candidatura a Lisboa, representam a continuação dessa estratégia;
Consequentemente, em terceiro lugar, percebe-se que o objectivo do CDS é mesmo uma aliança futura com o PS, nem que seja mais disfarçada e meramente no plano da gestão dos interesses partidários de ambos (que são coincidentes: isolar e neutralizar o PSD);
Finalmente, em conclusão, torna-se evidente que Passos Coelho representa hoje a derradeira alternativa ao bloco central dos interesses dos poderosos oligarcas que mandam em Portugal. Foi com ele que se conseguiu impedir que a factura da fraude do BES caísse em cima dos contribuintes e que Salgado, o Dono Disto Tudo, continuasse, impune, o seu reinado de bastidores. E assim se percebe porquê toda a imprensa (toda mesmo) mais não faz do que criticar e bater em Passos Coelho, do que publicar notícias sobre a sucessão de Passos Coelho ou anunciar a sua morte política: é ele o derradeiro adversário a abater. A oligarquia poderosa que manda não brinca em serviço.
Sim, sim, isto explica muita coisa.
#portugalnasmãosdosoligarcas

ZEITGEIST (II)

Leio no Observador, a propósito das eleições alemãs, que "a extrema-direita entra no parlamento alemão pela primeira vez desde 1945". Ou seja, para a jornalista, a AfD ou o Nacional-Socialismo de Hitler são uma e a mesma coisa. Para se pensar de tal modo ou se é profundamente ignorante (sobre a AfD e\ou o Nacional-Socialismo) ou se quer, disfarçada mas conscientemente, passar a mensagem de que o inimigo que assola a Europa são os nazis intolerantes agora súbita e misteriosamente ressuscitados. Seja ignorância seja intenção, no fundo, a conclusão é que no jornalismo mainstream lêem todos da mesma cartilha simplista e papagueiam todos as mesmas banalidades sem um pingo de reflexão sobre o filme que lhes passa mesmo em frente do nariz. Ou seja, são terreno fértil para a propaganda multiculturalista do status quo, sempre impingida nas entrelinhas do politicamente correcto, e cuja falência, essa sim, está na origem da subida eleitoral daqueles que a rejeitam. Comparar este fenómeno com o racismo bélico e expansionista do totalitarismo Nazi é, do ponto de vista intelectual, um atentado. Poucas coisas serão tão sintomáticas da decadência democrática como o proto-desaparecimento do jornalismo crítico, independente e inteligente. Mas a vida é assim: todos os defuntos precisam das suas carpideiras.

ZEITGEIST

Que na Alemanha a AfD tenha tido 13% dos votos e a CDU e o SPD, parceiros na política governamental aberta de imigração recente, tenham tido, ambos!, o pior resultado individual dos últimos 60 anos, tudo isto só poderá ser uma enorme coincidência. A culpa será, para a inteligência multicultural mediática, naturalmente, de Hitler e/ou da contemporânea intolerância supostamente neo-liberal. Nada que mais uns quantos programas sociais de desradicalização dos refugiados/imigrantes não resolvam, pensarão eles. Para esses iluminados nada pode travar o sucesso da ideologia multicultural: mesmo que o preço a pagar seja a destruição, a curto prazo, do projecto europeu e, a longo prazo, o desmoronar da civilização ocidental. Senão vejamos: aí no burgo, certamente, a extrema-esquerda, agora governamental, continuará a sua propaganda em frente de um silêncio mediático apropriado, mas, igualmente triste, é que na Alemanha, tal como em França, ou na Holanda, apenas os anti-europeístas se manifestem contra a destruição dos valores europeus. Daí o inevitável deitar fora o bebé junto com a água suja. Com o silêncio do centro sobram então dois extremos: de um lado, os marxistas das mudanças de sexo aos 12 ou 16 anos e os vivas às virtudes islâmicas, do outro, as chamadas extremas direitas. Quem acham que, a tempo, ganhará? E, mais importante, entre uns e outros, a ter que escolher, no segredo da cabine de voto, quem preferirão os europeus? Não me parece que a resposta seja muito difícil. Triste, sem dúvida. E, nos entretantos, tal como em França, celebra-se mais uma "vitória da democracia". Abram o espumante, é beber enquanto é tempo.

189

Oiço na Antena 2 que este ano os hóspedes do Airbnb já gastaram em Lisboa 189 milhões de euros em restaurantes. Uma vergonha! O melhor seria acabar com isto e por a malta toda que vive desse dinheiro em casa a receber os 700 euros por mês que o governo quer dar aos jovens que nem estudam nem trabalham. Isso e trazer as saudosas prostitutas de volta ali para as ruínas agora recuperadas da zona do Cais do Sodré. Turista é fascista, Portugal é para os portugueses (e refugiados).

COMMUNISM KILLS




Destas vítimas as Catarinas, os Bernardinos e restante tropa fandanga não têm pena nenhuma. E, não tenhamos dúvidas, tal como o vizinho Iglesias e demais aliados de Chávez e Maduro, tendo o poder, acabariam a fazer exactamente a mesma coisa. Se há um facto historicamente comprovado é este: onde o socialismo radical e o comunismo triunfaram, triunfou igualmente a violência, a miséria e a morte. Isto, digam o que disserem estes mentirosos oportunistas, é um facto.

LOGOS

É o Trump contra o Rocket Man norte-coreano na ONU e o André Ventura contra o Bernardino em Loures. Isto está tudo ligado.

OS INIMIGOS ESTÃO DENTRO DO CASTELO





O grande objetivo desta gente da extrema-esquerda é a destruição da civilização ocidental. Para isso é forçoso (Burke explica) isolar o indivíduo que, sozinho, nada poderá contra o poderoso Estado. Isolar o indivíduo implica hoje a destruição da família tradicional. Simples. A família ninguém a legislou, ninguém a criou, ninguém a impôs. É o ambiente natural onde os humanos, no seu ninho, se sentem seguros e onde se preparam para enfrentar as agruras da vida. É uma criação natural. Já este ataque contínuo em nome do homem novo é legislado, pensado e imposto por uns quantos iluminados que se arrogam, e imaginam, como uma espécie de vanguarda do progresso. Mas não são mais do que homens e mulheres, carecendo portanto de qualquer legitimidade para o fazerem para lá da sua própria ideologia totalitária. Tão totalitária que quer regular o sexo das pessoas. O absurdo desta proposta não se limita à ideia dos 16 anos, ou seja, indivíduos aos quais nem sequer lhes é reconhecida a maturidade suficiente para votar(!!!) já teriam maturidade para poder "mudar de sexo". Mas, repare-se, é também estapafúrdia, mas nada inocente, na noção de que o Estado pode entrar pela esfera privada da família e, colocando-se entre pais e filhos, impor esta possibilidade de "mudança de sexo" a todos, repito: todos, os adolescentes. Em seguida, através da escola pública, anunciar e inculcar essa possibilidade às crianças. É isto que queremos para os nossos filhos? Ah, podem bem ter a certeza que não. Isto para não falar no engodo ideológico que é toda a história da "mudança de sexo". Qualquer pessoa com um mínimo conhecimento de biologia sabe muito bem que os humanos nascem, e morrem, ou homens ou mulheres. A "mudança de sexo" não muda sexo algum que, cromossomaticamente, é impossível de ser mudado. Apenas disfarça e mascara, através de mutilações, implantes e hormonas, um sexo em outro sexo. Muda, portanto, a aparência do sexo, não muda o sexo em si. Ou seja: não existe mudança de sexo. E quer esta gente colocar adolescentes de 16 anos a poder tomar decisões sozinhos sobre um processo tão violento como este em nome de uma ideologia? E quer esta gente entrar pela nossa casa dentro e colocar esta violência na cabeça dos nossos filhos? Esta gente tem que ser derrotada. Não tenhamos dúvidas sobre isto.

MANICÓMIO

Como as eleições autárquicas são no próximo dia 1 de Outubro, não vá o diabo tecê-las, o regresso a Bruxelas está marcado para dia 23 de Setembro. Mesmo assim, estou a pisar gelo fino: algum percalço e ainda sou forçado a escolher entre três candidatos contra o alojamento local, e essa pérfida invasão turística, e dois pretensos marxistas que, tirando o sucesso com o público feminino, mais não pretendem do que contribuir para a destruição, tijolo a tijolo, da civilização ocidental. Dizem que são as eleições autárquicas e que isto é uma espécie de democracia. Diria eu que mais parece um manicómio mas, enfim, é que há. Adeusinho e até ao Natal.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O PARADOXO PROGRESSISTA

Existem duas ideias centrais ao progressismo contemporâneo que podem ser sumarizadas nos dois seguintes pontos:

1) Todas as culturas são igualmente válidas na sua diversidade, todas representam legítimas formas de expressão humana e nenhuma, em particular a Ocidental, pode ser considerada superior, ou mais evoluída, face às demais;

2) Através da ciência e da razão, tal como nas disciplinas ditas naturais (química, física, astronomia, etc.), é possível descortinar um conjunto de leis que norteiam o mundo das ciências humanas, portanto as actividades humanas, que uma vez descobertas permitem organizar de forma correcta, ou pelo menos melhorada, a sociedade, as regras sociais, ou seja, o mundo moral e político. Estas regras, porque científicas, representam o natural avanço da Humanidade face ao obscurantismo de um passado ignorante porque afundado em religiões, mitos e crenças.

No entanto, estas duas ideias, apesar de simultaneamente aceites pelo zeitgeist cultural e político em que vivemos, são absolutamente contraditórias entre si. Se, por um lado, aceitarmos a noção de que existem regras racionais e científicas, logo tendencial e progressivamente mais verdadeiras do que as que as antecederam (daí a noção de "progresso"), que podem ser descobertas por forma a ordenar de forma mais aperfeiçoada e correcta a sociedade então essas regras, a serem cientificamente válidas, terão que ser igualmente universais, ou seja, terão que ser igualmente verdadeiras e mais correctas para todas as culturas humanas - mesmo aquelas que são diferentes da nossa, que partilham outros valores e que recusam a razão, a ciência e o nosso modo de vida. Não pode uma coisa ser cientificamente verdadeira para mim e não o ser para outra pessoa: o pressuposto fundamental da verdade científica é que essa verdade é universal.

Assim, a ser aceite o ponto 2, as culturas que sigam essas regras científicas (as regras que sociólogos, politólogos, psicólogos, etc., tanto se esforçam por descobrir) serão por definição mais avançadas do que aquelas que, quer voluntária quer involuntariamente, não o fazem. Ou seja, o ponto 2, ao ser aceite, desmente o ponto 1 e impede a simultânea advocacia dos dois pontos.

E vice-versa: se aceitarmos a ideia expressa no ponto 1 de que todas as culturas são igualmente válidas e nenhuma é mais avançada do que a outra, então não poderá existir um critério universal, logo científico, que ofereça regras mais correctas sobre a forma como uma sociedade deve organizar-se. Onde as diferentes culturas são tidas como igualmente válidas tudo o resto terá que ser igualmente válido, logo aceite, fazendo do critério científico-racional dos progressistas apenas mais um entre muitos outros critérios, todos eles igualmente válidos. Assim sendo, aceitando-se o ponto 1, nada se pode impor a ninguém - precisamente a conduta oposta do movimento progressista que, paulatinamente, advoga uma crescente imposição do seu "correcto", porque supostamente científico, modo de vida à sociedade. A propósito desta imposição a coberto da ciência, a título de exemplo, ocorre-me lembrar toda a ideologia de género que tão na moda está.

No entanto, considerando o exposto, a conclusão evidente é que o progressismo contemporâneo transporta na sua origem uma incoerência intrínseca e encerra dentro de si próprio uma contradição insanável. Ao melhor estilo do anseio infantil por ter sol na eira e chuva no nabal, também os progressistas procuram unir os revolucionários do mundo e os descontentes com o Ocidente apregoando uma coisa e o seu contrário consoante o interesse do momento. É esta contradição que explica, por exemplo, que os mesmos que lutam pelos direitos dos homossexuais são muitas vezes os mesmos que lutam simultaneamente pela aceitação de culturas que perseguem, prendem e matam homossexuais, inclusive defendendo-as por oposição a outras culturas que toleram e aceitam os homossexuais.

É também esta contradição que demonstra que o progressismo contemporâneo não tem, de facto, uma base sustentável para oferecer um modo de vida viável ao mundo. Por debaixo desta enorme contradição intelectual, uma contradição apenas possível num mundo político onde reina a superficialidade panfletária e onde nada é aprofundado aos pressupostos implícitos nas ideias e propostas que se advogam, se torna evidente que nada mais tem o progressismo contemporâneo para oferecer ao mundo além da prometida destruição do modo de vida ocidental.

domingo, 4 de junho de 2017

ESTRANGEIROS? HÁ OS BONS E OS MAUS

O mais curioso é que a malta portuguesa que acha que os atentados terroristas são resultado das sociedades europeias não acomodarem devidamente as hordas de imigração islâmica que assolam a Europa (estrangeiros que, segundo eles, temos todos a obrigação moral de acomodar) também acha, grosso modo, que bandos de estrangeiros de passagem, todos de carteira bem recheada na mão a despejar euros para cima dos tugas, representam uma ameaça descabida e imoral ao bom viver das cidades portuguesas: estrangeiros que são bons são os outros, já estes, os que reabilitaram os centros históricos das cidades, os que povoam restaurantes, tascas, lojas e bares, os que visitam museus e monumentos, ou que enchem os cofres dos metros, autocarros, táxis, uber's e barcos, estes estrangeiros que transformaram centros históricos decrépitos pejados de prostitutas e prédios em ruína em locais que granjeiam os mais rasgados elogios internacionais, ó pá, estes estrangeiros o melhor é correr com eles. Não é à toa que o termo 'turismo' acaba em 'ismo', é coisa que, em nome da moral, da verdade, da igualdade e da fraternidade se condena, ou se deveria condenar, como vil e indesejável. Eu, por mim, alinho: vou trocar os turistas indesejáveis que passam por minha casa no centro de Lisboa por um grupo de refugiados: a assembleia de condóminos agradece, imagino eu.

terça-feira, 9 de maio de 2017

FREAKOUT

                                                                        Daqui.

domingo, 7 de maio de 2017

TONS ROSA EM FUNDO DE VERMELHO ESCURO*

Tivessem os nossos planos sido bem sucedidos e hoje estaria a família toda a acordar debaixo do bom sol português. Infelizmente, um bicho microscópico qualquer nos foi fazendo tombar, um a um, nas camas e nos sofás, adiando a viagem. Aproveito o descanso forçado para dar uma vista de olhos pelos jornais lá da tugaria. Primeiro, a entrevista do Alberto Gonçalves ao i que andava a guardar há uns dias. Esclarecedora. Nela, por entre várias considerações plenas de bom senso - uma raridade! - acaba o Alberto Gonçalves a relatar que um dos problemas do seu patrão Baldaia - uma tosca figurinha que se especializou em lavar com cuspo as fraldas dos donos daquilo tudo - com as suas crónicas era que "havia quem só fosse à página do “DN” por minha causa [do Alberto Gonçalves] e ficasse confuso com o resto do jornal". Ora, a ser verdade que muitos acessos ao DN fossem por via dos artigos do Alberto Gonçalves, e imagino que o seja uma vez que eu próprio tal como muitos outros que conheço o faziam, o Sr. Baldaia apenas se equivoca a pensar que os leitores se quedavam confusos e perplexos. Eu, por exemplo, nunca fiquei confundido com nada por duas razões: primeiro, porque há muito que nem abria outra página no DN que não fosse um artigo do Alberto Gonçalves; segundo, porque, ao contrário do que o Sr. Baldaia parece pensar, há muitos portugueses que sabem perfeitamente distinguir entre, por um lado, jornalismo, opinião livre e bom trabalho e; por outro, favores, incompetência e videirice. O Sr. Baldaia, que parece não perceber a diferença, perante a hipotética confusão entre uma e outra, optou por desfazer-se da primeira. Por mim, que não leio o pasquim ou o Sr. Baldaia, parece-me excelente: e, a continuar assim o caminho, cada vez menos portugueses ficarão confundidos com o que quer que seja (como, por exemplo, o que raio fazia o Alberto Gonçalves numa zurrapa como o DN?) e, melhor ainda, menos perderão tempo a ler as sebosices do Sr. Baldaia. Depois, seguindo o périplo pela imprensa portuguesa, tenho que estugar o passo para fugir ao spin do sistema para branquear a enorme asneirada que o partido do regime, o PS, fez no Porto. Só no Observador conto três manchetes:  PS. Moreira é "partididofóbico" com "ego galático"Pizarro: "Não aceito que haja becos sem saída" e Costa: "O PS entra sempre em jogo para ganhar". Os três títulos ocupam página inteira o que, dado o destaque da coisa, permite imaginar que sobraria espaço para um título com a réplica. Infelizmente, não deu. Menos espaço, muito menos, tem o PSD, ainda assim com três noticiazinhas. Naturalmente, mesmo no dia após o discurso de meia hora de Passos Coelho no aniversário do PSD, cai-lhe apenas um titulozinho a dizer que ele, Passos, graças a Deus - acrescento eu -, "não muda uma linha". Os outros dois títulos, ainda de forma mais natural, vão direitinhos para a oposição (a Passos, naturalmente): o Rio de sempre e o Pedro Duarte a apelar à mudança. O que vale é que, dizem as más línguas, o Observador é de direita e está contra o governo. Já enjoado, aguento-me um pouco mais porque, vá lá, é dia de ler o Vasco Pulido Valente no único vislumbre que resta da lufada de ar fresco que o Observador até ainda há pouco tempo representava na imprensa portuguesa: a sua coluna de opinião. Termina o Vasco Pulido Valente a sua crónica a dizer que "as coisas – principalmente a imprensa e a televisão – começam a adquirir aquele tom uniforme e ruço, típico da tropa e do socialismo". Tem razão.

*Título adaptado de um dos romances de Joaquim Paço d'Arcos que integra a Crónica da Vida Lisboeta. Infelizmente, hoje, como no tempo dele, se faz Portugal dos Laurentinos da nossa vida. Vamos a ver e o Sr. Baldaia não acaba ainda como banqueiro. Não ficaria admirado.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

O CURRAL

Longe vão os tempos em que eu vibrava e, de forma muito atenta e permanente, seguia, e participava em, com a paixão própria dos vinte anos, os acontecimentos políticos do quotidiano. Hoje em dia, a custo, leio alguns títulos de jornal, nunca vejo televisão não-ficional, e mesmo a outra muito raramente sem ser pela Internet, e fujo a sete pés do mais ínfimo vislumbre de qualquer noticiário - aquele sotaque de jornalista aprendido, forçado, repetido ad nauseum é insuportável. Oiço, para praticar o Francês, as notícias matinais pela rádio e, durante o resto do dia, através do Facebook ou do Reddit, com um lapso temporal de duas ou três horas, a não ser que seja durante o sono, logo fico a saber da histeria do momento. Por regra, são coisas que não me interessam, às quais não atribuo qualquer importância e que me aborrecem. Outras vezes, ainda bastantes, são coisas que me indignam profundamente mas que, normalmente, ou não indignam ninguém ou, quando indignam, desaparecem passado um dia. E, nos entretantos, assalta-me todo um manancial constante de sinais, de sintomas e, cada vez mais, de verdadeiras doenças, que vão afligindo o país e a nossa civilização, e sempre sem que algo se discuta com seriedade, como se estivesse eu fadado a assistir a um filme de terror, um filme onde estamos todos enfiados mas, paradoxalmente, um filme ao qual muito pouca gente assiste: preferem estar lá fora, no recreio. No final, sobra uma sensação de profunda impotência, de crescente irrelevância, como que um torpor hipotérmico que, levemente, vai prostrando, vergando e afundando todo um modo de viver, um modo de vida que chamo de meu, e nosso, e que me entristece profundamente pensar que não chegará aos meus filhos. Aos gritos, os porcos chafurdam, e triunfam, no curral em que se transformou o espaço público e mediático. Jornalismo? Uma anedota: um bando maioritariamente composto por assalariados dos fazedores de factos públicos. Comentário público? Insuportável: uma trupe de retransmissores acéfalos do interesse que vão servindo, excepção seja feita a dois ou três articulistas de valor. A governação? Asquerosa: uma vergonha que só engana quem quer ser enganado ou a quem lhe dá jeito. E, depois, sempre, a patrulha do politicamente correcto: armados em sabedores, arrogados de saberem a verdade e a imporem a estupidificação generalizada a quem se atreve a pensar de forma diferente. Nojo. Um curral? Certamente. E, com os meus quase quarenta, entre chafurdar na lama e sentar-me, à distância, a olhar o mundo tal como ele é, a opção é evidente. Depois, claro está, sobra-me a invasão de um pessimismo existencial: de tudo o que há de feio no mundo, o pior está dentro de nós: a cegueira que deriva na estupidez que, por sua vez, deriva na arrogância e, finalmente, na prepotência, tudo, claro está, alimentado pela ambição egótica de, na pequenez, reduzir a infinitude do mundo à nossa pequena e limitada condição. No final, se é para isto, então não se perde grande coisa. Ao menos isso.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

DA ACTUALIDADE

"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos que se conquista o internamento no manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação".

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 175, Assírio & Alvim, 2009, p. 194

terça-feira, 4 de abril de 2017

DO IDEAL

"... e, com quejandas lumieiras que esplendem na vanguarda desta caravana da Humanidade, que se vai demandando a Meca da perfectibilidade".

in: A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco, Ulisseia, 1986, p. 132